A narrativa dos EUA de que esta guerra foi 'não-provocada' impede a paz, diz Caitlin Johnstone

“Evitar uma guerra nuclear é a pauta singularmente mais importante no mundo inteiro, sem exceções. Esta é a pauta mais importante que jamais existiu em toda a história”

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(Foto: Reuters)


Artigo de Caitlin Johnstone originalmente publicado no site da autora em 02/10/22. Traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para Brasil 247

Vladimir Putin aprovou a anexação de quatro territórios no leste da Ucrânia, cuja adição à Federação da Rússia agora aguarda autorização dos outros ramos de governo da Rússia [Nota: essas anexações já foram devidamente aprovadas pela Duma Federal da Rússia nos últimos dias].

O governo de Zelensky respondeu a esta medida ao candidatar-se a ser membro da OTAN, sendo imediatamente impedido pelos EUA e pelas autoridades da OTAN. Não se pode ter peões sacrificados tentando elevar-se acima da sua condição do grande tabuleiro de xadrez, ao final de contas.

Mas a guerra por procuração do império contra a Rússia continua, e o governo ucraniano anunciou as suas intenções de expelir a Rússia de todos os territórios ucranianos que reivindicou como sendo seus.

“Para os nossos planos, não importa”, declarou ao Politico o conselheiro de Zelensky, Mykhailo Podolyak, acrescentando que a Ucrânia “protegerá a nossa terra usando todas as nossas forças” e que ela “deve libertar todos os seus territórios”.

O plano de retomar os territórios anexados à Rússia, segundo Zelensky, também inclui a Criméia, que foi anexada em 2014.

Toda esta conversa sobre preparar uma contraofensiva massiva apoiada pelo Ocidente para recapturar os territórios anexados pela Rússia – cujas tropas estão sendo reforçadas com a adição de 300 mil reservistas – ocorre quando Putin sugere que poderão ser usadas armas nucleares para proteger o que Moscou considera como parte da Rússia. Assim como os EUA, a Rússia é uma das nações que possuem armas nucleares sem uma política de não ser os primeiros a atacar.

Assim, parece que estamos numa rota de colisão na direção de uma massiva escalada entre duas potências nucleares. Quanto mais as coisas se escalam, mais provável é que uma arma nuclear possa ser usada – seja deliberadamente ou como resultado de uma falha de comunicação, ou um mau funcionamento, como quase ocorreu diversas vezes durante a última guerra fria. Uma vez que uma arma nuclear é usada, as probabilidades que muitas outras mais a seguirão imediatamente se elevam astronomicamente, com variáveis neste resultado, incluindo os locais onde estas são detonadas e quão frias estarão as cabeças relevantes naquele momento histórico em particular.

Portanto, não é um exagero dizer que a espécie humana tem um sério interesse em desescalar e chegar a uma détente imediatamente. Evitar uma guerra nuclear é a pauta singularmente mais importante no mundo inteiro, sem exceções. Esta é a pauta mais importante que jamais existiu em toda a história.

Porém, sempre que você defende essa pauta supremamente importante em qualquer tipo de fórum público, há um bando de autômatos do império que passaram por lavagens cerebrais que ficam balindo sobre “apaziguamento” e acusando você de apoiar um louco monstruoso. E eles fazem isso porque é isso que eles foram treinados para fazer.

Como Noam Chomsky tem assinalado repetidamente, a classe política/mídias tem doutrinado continuamente o público com a narrativa completamente falsa de que a invasão da Ucrânia pela Rússia foi “não-provocada”. Toda vez que surge o tema da guerra, os manipuladores imperiais proferem este slogan – da mesma maneira que Michael Jackson tinha uma cota para quão frequentemente os apresentadores da MTV foram e eram obrigados a referir-se a ele como “O Rei do Pop Michael Jackson” quando o seu nome era mencionado.

Mas, o que se quer dizer que a guerra foi “não-provocada”? Isso quer dizer que Putin não invadiu a Ucrânia por causa de alguma coisa que o império ocidental estivesse fazendo, de modo que isso não poderia ser evitado se o império ocidental se comportasse menos agressivamente nas fronteiras da Rússia. Isto quer necessariamente dizer que Putin invadiu porque ele é uma espécie de lunático maléfico que ama cometer crimes de guerra, ou um tirano megalomaníaco que quer conquistar o mundo porque ele odeia a liberdade e a democracia. O que significa que ele continuará a atacar e invadir outros países, a não ser que ele possa ser impedido. O que significa que a única resposta ao problema Putin é mais guerra.

É por isso que os apologistas do império ficam brabos com aqueles que defendem a única posição sã e racional sobre a temeridade nuclear, ao clamarem pela desescalação e a détente. Isto se dá porque eles foram agressivamente doutrinados na crença que a guerra é a única resposta.

A narrativa imbecil de que a invasão da Ucrânia foi “não-provocada” representa um obstáculo massivo para a paz, porque, se Putin está atacando e invadindo unicamente porque ele é louco e maléfico, isso significa que a détente é impossível e que ele não parará até que seja decisivamente esmagado. Se for aceito que o império dos EUA não desempenhou papel algum em provocar as ações de Putin, isso significa que nada há que o império possa fazer para reduzir a agressão contínua da Rússia ser menos provável, a não ser através da mudança de regime, ou pelo menos de alienar e punir severamente a Rússia do ponto de vista militar.

Enquanto o fato de que esta guerra foi provocada permaneça não reconhecido pelo lado que a provocou, o caminho são para a desescalação e a détente parecerá como um apaziguamento temerário de um louco irracional, e que as escalações agressivas da temeridade nuclear parecerá como uma sanidade. A posição absurda de que Putin é um ator irracional com algum tipo de fetiche sexual esquisito por crimes de guerra é um bilhete de ida sem volta para a escalação sem fim da guerra e a aniquilação nuclear última, porque isso não lhe deixa opções a não ser de intensificar continuamente a confrontação militar.

A alegação de que a paz é impossível e que Putin deve ser esmagado coloca em perigo o mundo inteiro. Mesmo para conseguir a vitória total na Ucrânia (empurrando a Rússia de volta às fronteiras pré-2014) poderia facilmente terminar custando milhões de vidas e trilhões de dólares e, exponencialmente, aumentar o risco de uma guerra nuclear, sem garantia alguma de sucesso. Porém, mesmo se você empurrar Putin completamente para fora da Ucrânia, e daí? Ele ainda seria um louco desvairado que quer invadir países, porque ele é malvado e odeia a liberdade. A lógica interna da sua narrativa diz que os ataques contra a Rússia devem continuar até que você consiga fazer uma mudança de regime. Não há um ponto final na sua linha de pensamento até que haja uma confrontação quente direta entre potências nucleares.

Seja um adulto e engaje o seu pensamento crítico. Será que um louco que sai por aí invadindo países unicamente porque ele é maléfico e odeia a liberdade soa como um ser humano de verdade para você? Ou será que soa como algo inventado, como algo que você veria num filme de Hollywood? Como algo que foi inventado por pessoas responsáveis por controlar a narrativa dominante da nossa sociedade e que foi injetado na sua mente usando as mídias?

Os supervilões da Marvel têm mais profundidade e complexidade que os personagens unidimensionais que a máquina imperial de manipulações inventa para representar os seus inimigos oficiais? Thanos era um personagem mais crível e com motivações mais compreensíveis e matizadas do que a representação ficcional de Putin feita pela máquina de propaganda. Esta representação foi sobreposta ao governo real com o qual você não necessariamente pode concordar, mas que pode compreender e com quem você pode se engajar em diplomacia e negociações.

As pessoas que acreditam nas narrativas do império sobre os seus inimigos oficiais têm menos habilidades críticas que um espectador médio dos filmes da Marvel. Seja adulto e pense. Alguém está se beneficiando com a narrativa agressivamente promulgada de que a paz é impossível e que a guerra é a única solução. E este alguém não é você.

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