“Comunismo ou lei da selva”, proclama o filósofo Slavoj Zizek

Para o filósofo e crítico cultural Esloveno, a atual crise global gerada pelo coronavírus põe cara a cara sistemas sociais opostos: de um lado, os sistemas nacionalistas e hiperglobalizados hegemônicos atualmente. Do outro, a esperança de que a cooperação internacional se traduza em um estado de existência mais consciente e solidário

“Comunismo ou lei da selva”, proclama o filósofo Slavoj Zizek
“Comunismo ou lei da selva”, proclama o filósofo Slavoj Zizek (Foto: reuters)

247 - Em artigo no Russia Today, o filósofo e crítico cultural Slavoj Zizek ilustra o dilema político gerado pela pandemia do coronavírus. “Ou decretamos a lógica mais brutal da sobrevivência do mais apto”, diz ele, “ou um tipo de comunismo reinventado através de coordenação global e colaboração.”

No entanto, Zizek não tem em mente o modelo político da China. Lá, diz ele, apesar do fato de que as medidas adotadas tenham sido efetivas na contenção do vírus, “a velha lógica autoritária dos comunistas demonstrou suas limitações.” Ele se refere ao fato de que “o medo de anunciar dados negativos aos oficiais” resultou na adulteração dos números reais de pessoas infectadas. 

Qual comunismo Zizek tem em mente? Ele responde, “agora, uma forma de globalização não regulada, de livre mercado, com sua propensão para crises e pandemias está certamente morrendo. Mas outra forma que reconhece a interdependência e a primazia da ação coletiva baseada em fatos está nascendo.”

Ao mesmo tempo que a pandemia CONVID-19 desmoraliza o discurso da globalização livre, o discurso oposto - o nacionalista - também perde força: “A epidemia do coronavírus não sinaliza somente as limitações da globalização comercial, como também as limitações ainda mais fatais do nacionalismo populista que insiste na soberania nacional: acaba aqui o discurso ‘EUA (ou qualquer outro) acima de tudo’, já que os EUA só pode ser salvo através de coordenação global e colaboração”, diz o filósofo Esloveno.

Assim, Zizek não apela a um ideal utópico de uma “solidariedade idealizada entre as pessoas,” como os socialistas do passado. Pelo contrário, ele baseia sua visão no fato de que a crise presente ilustra perfeitamente a importância vital da solidariedade. Ele diz: “a crise presente demonstra claramente como a solidariedade global e a cooperação estão no interesse da sobrevivência de cada um de nós, e que essas são as ações egoístas e racionais a serem feitas.”

Para ele, a única outra alternativa restante é um “ponto de vista primitivo e vitalista.” No Reino Unido, ele menciona através de um protocolo ainda não oficial do governo Britânico, pacientes do serviço público de saúde “podem ser recusados tratamento durante o surto de coronavírus caso unidades de tratamento intensivo tenham dificuldade de lidar” com o número crescente de pacientes. A nota adiciona: “Sob o protocolo chamado ‘tres sábios’, três consultores seniors em cada hospital estariam encarregados de fazer decisões sobre o racionamento de tratamentos vitais como ventiladores e leitos hospitalares, caso hospitais estejam sobrecarregados de pacientes.” 

Zizek questiona quais seriam os critérios que ditos “tres sábios” baseariam suas decisões. “Sacrificar os mais fracos e os mais velhos? E será que essa situação não abriria espaço para uma corrupção imensa? Esses procedimentos não indicam que estamos perto de decretar a lógica mais bruta da sobrevivência do mais apto?”

Assim, fica claro que as alternativas são: ou isso, “ou alguma forma de comunismo reinventado.”

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