Jean Ziegler: o capitalismo não pode ser reformado. Temos que destruí-lo completamente e seguir em frente

Considerado um dos mais importantes intelectuais da Suíça, o professor de sociologia acredita até hoje que é preciso reformar o sistema, antes que o planeta desapareça

www.brasil247.com - Jean Ziegler
Jean Ziegler (Foto: Reuters)


Por Alexander Thoele, da swissinfo.ch - A vista é estupenda: da varanda da sua casa em Russin, um vilarejo de 530 habitantes cercado de vinhais distante apenas quinze minutos de trem de Genebra, se avista a montanha mais elevada da Europa, o Mont Blanc. Jean Ziegler abre uma garrafa de Merlot local e começa a contar a sua vida.

Endividado depois de perder todos os processos na Justiça, professor de sociologia e autor de bestsellers traduzidos em dezenas de idiomas, amigo de Che Guevara, Jean Ziegler é considerado um dos mais importantes intelectuais da Suíça. Aos 88 anos, ainda se considera revolucionário.

swissinfo.ch: Quando você era estudante de direito nos anos 1950 em Paris e conheceu Jean-Paul Sartre e Simone de Beauvoir, que influência tiveram esses dois intelectuais sobre você?

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Jean Ziegler: Nasci em um ambiente burguês na Suíça. Meu pai era um calvinista juiz de tribunal. Tive uma infância feliz, mas muito burguesa. Era uma época que havia o drama das crianças adotadas, que cheguei a ver com roupas rasgadas no inverno, pálidas e famintas. Na época pensava: como algo assim podia acontecer? Crianças como eu, tão pobres. Mas meu pai costumava dizer que eu devia me ocupar dos meus estudos e do trabalho. "Deus quis assim", dizia. Era a chamada predestinação, algo que considerava intolerável.

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Fui viver em Paris, onde encontrei Sartre e Simone de Beauvoir. Eles me deram enfim as ferramentas para entender o mundo e lutar. Quais eram? Era o existencialismo e o marxismo. Sartre era um homem incrível, com sua modéstia, seu calor humano e sua pedagogia. Você consegue imaginar? Eu era apenas um estudante de 22 anos em Paris e quase não falava francês. E Sartre respondeu a todas minhas perguntas.

swissinfo.ch: Foi o intectual francês que lhe inspirou a começar uma carreira de escritor?

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J.Z.: Eu escrevia para o jornal "Clarté" e pertencia à Juventude Comunista. Nessa época fui recutrado pela ONU como assistente para uma missão ao Congo. Ao retornar à Paris, passei na rua Bonaparte e encontrei Sartre. Ele queria saber tudo sobre a minha experiência, pois não sabia nada da África. Na época ele estava trabalhando no magnífico prefácio do livro "Les Damnés de la terre" (n.r.: "Os Condenados da Terra"), do escritor Frantz Fanon.

Ele fez perguntas sobre o Congo, a guerra civil e o assassinato de Lumumba. Eu respondi tudo. Finalmente disse que eu tinha de que colocar tudo no papel. Assim escrevi meu primeiro texto: "O Exército Branco na África". E depois Sartre publicou-o no seu jornal "Les Temps modernes". Simone de Beauvoir, que corrigiu meu texto, viu o meu nome e me perguntou: "O que é isso aqui? Hans?". Ela disse isso que não era um nome. Riscou-o e passou a me chamar de "Jean Ziegler".

Ter um texto publicado no "Les Temps modernes" abria todas as portas. Sartre telefonou para Gallimard e meu primeiro livro "Sociologie de la nouvelle Afrique" (1964) foi publicado na sua editora. Imagine eu, um suíço-alemão desconhecido. Foi graças a Sartre que entrei na literatura. Desde então, o livro se tornou uma arma para mim.

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swissinfo.ch: Fale do seu encontro com Che Guevara nos anos 1960 e quando o líder cubano disse que você não poderia ir a Cuba ajudar na revolução...

J.Z.: Foi em 1964, durante a primeira Conferência Mundial do Açúcar. Como estava na Juventude Comunista fui várias vezes à Cuba cortar cana nas Brigadas Internacionais. Era um trabalho difícil e que incomodava bastante os cubanos, pois a gente não sabia nada desse trabalho. Uma vez encontrei Fidel, Raul Castro e Che Guevara no hotel Habana Libre. Anos depois, quando já estava em Genebra, recebi um telefonema da embaixada de Cuba em Praga e me disseram que havia uma importante delegação chegando. Eles então me pediram para ajudar com a logística. Então perguntei aos meus amigos quem podia emprestar um carro.

A delegação cubana era formada por doze pessoas, incluindo Che Guevara. Eu virei seu motorista particular. Ele queria saber tudo sobre a Suíça. Era muito francófilo e eu falava muito pouco do espanhol. No domingo fomos a Chamonix, na França vizinha, porque ele queria ver o famoso Mont Blanc. Eu o acompanhava dia e noite. Na véspera de sua partida, tomei coragem e lhe disse: "Comandante, quero ir com você! Então ele apontou para os prédios iluminados no centro de Genebra e disse: "O cérebro do monstro está aqui. É aqui que você tem que lutar".

Ele era muito impressionante, inteligente, mas não caloroso. No momento fiquei muito triste e pensava que ele devia me achar um burguês inútil, o que era verdade (risos). Mas, em retrospectiva, ele acabou salvando a minha vida. Afinal, não tinha nenhum treinamento militar. Se tivesse ido, poderia terminar meus dias enterrado em uma vala comum na Guatemala.

Ao mesmo tempo, Che me deu a estratégia da minha luta: a integração subversiva, ou seja, entrar nas instituições e usar sua força para meus próprios propósitos. Essa era uma lição de Nikolai Bukharin: "Os revolucionários são oportunistas, com princípios". Eu segui essa estratégia. Me tornei professor universitário, deputado-federal e depois até relator especial para as Nações Unidas.

swissinfo.ch: A publicação em 1990 de um de seus livros mais famosos "A Suíça lava mais brancos" caiu como uma bomba na Suíça. Depois você foi processado nove vezes por bancos, advogados e até mesmo ditadores. Quais foram as consequências?

J.Z.: Eu perdi todos esses processos. Na época cheguei a ser ameaçado e receber chamadas anônimas. Sofri dois atentados. Tive de ser protegido pela polícia por quase dois anos. Minha família sofreu muito durante esse período. Mas não reclamo: sou uma pessoa privilegiada.

Isso mostra que como a oligarquia bancária na Suíça é perigosa. Eu era um simples professor universitário e autor de livros. Os julgamentos foram momentos difíceis para mim e a minha família devido a todas essas ameaças. Porém achava que era uma oportunidade também para lutar nos tribunais. E os banqueiros tinham que responder às questões levantadas. Foram nove julgamentos em cinco países porque cada vez que o livro era publicado, um crime era cometido.

swissinfo.ch: E no final você perdeu tudo, incluindo o mandato no Parlamento?

J.Z.: Meu salário na universidade foi confiscado. Eu só podia viver com o mínimo necessário. Tudo o que havia ganho com os livros foi bloqueado. Essa casa que você está vendo pertence a minha esposa. Conseguimos salvar um par de coisas no último minuto. Hoje até meu carro é alugado. No Parlamento perdi até a minha imunidade. Foi a primeira vez desde 1939. Mas fui reeleito três anos mais tarde. Existiu até um comitê de internacional de solidariedade para me ajudar.

swissinfo.ch: E como a Suíça passou a ver Jean Ziegler na época?

J.Z.: O jornal NZZ chegou a publicar onze artigos ao meu respeito. Eles diziam que eu estava em apuros. Que havia dinheiro de Moscou por trás das minhas histórias. Que tinha problemas com meu pai e queria me vingar dele. Era uma calúnia atrás da outra como se estivessem derramando um pote de merda na minha cabeça. Havia loucos que pensavam que eu era a razão dos seus divórcios. Também houve serviços secretos atrás de mim, pois achavam que eu tinha ainda mais documentos escondidos. E, em terceiro lugar, havia os grandes bancos, que queriam me arruinar financeiramente.

swissinfo.ch: No livro "La Suisse, l'Or et les Morts" ("A Suíça, o Ouro e os Mortos") você denuncia os bancos por terem ajudado no esforço de guerra da Alemanha durante a II Guerra Mundial...

J.Z.: Quando a União Soviética implodiu em 1991, as últimas grandes comunidades judaicas intactas estavam atrás da Cortina de Ferro. Nelas, havia filhos ou netos das vítimas do Holocausto. Quando eles puderam sair e foram buscar o dinheiro nas contas guardadas nos bancos suíços, seus funcionários pediam uma certidão de óbito. Mas todos sabiam que os campos de concentração de Auschwitz ou Sobibor não emitiam certidões de óbito. Essas pessoas eram então expulsas dos bancos, um escândalo.

Finalmente Israel nomeou o Congresso Judaico Mundial (CJM) como representante coletivo de todas as vítimas despojadas, que lançou um ataque contra os bancos suíços e a Suíça. Clinton estava no poder. A Justiça americana ameaçou expulsar os bancos das bolsas de Nova Iorque e Chicago se eles não pagassem. Assim eles foram obrigados a assinar, em 12 de agosto de 1998, um acordo prevendo o pagamento de US$ 1,25 bilhões (na época, 1,87 bilhões de francos suíços). Na época fui convidado a falar frente ao comitê de bancos no Senado dos EUA. Eu testemunhei por convicção e por condenar esses crimes de racismo. Os bancos nunca me perdoaram.

swissinfo.ch: Você é considerado um dos responsáveis pelo fim do sigilo bancário na Suíça. Considera então que estava com razão?

J.Z.: Muita gente diz que eu estava certo, é verdade. Mas o fato é que o sigilo bancário não desapareceu. O banditismo bancário continua a existir. Escândalos como os "Swiss SecretsLink externo" mostram que isso continua como mostra o caso dos offshores. Se você é super rico, procura um advogado em Genebra e ele monta para você uma cascata inteira de empresas offshore nas Ilhas Virgens, Bahamas, Bermudas, etc., onde seu dinheiro é totalmente escondido. O secretário-geral da Interpol disse uma vez que, se uma soma de dinheiro muda de identidade três vezes, ninguém mais sabe quem é o verdadeiro proprietário. Porém a troca automática de informações dificulta a vida dos especuladores, pois ele termina sendo desmascarado.     

swissinfo.ch: Como deputado-federal suíço por dois mandatos, você até recebeu uma menção no Museu da História em Berna por ter apresentado 38 projetos de lei em apenas um ano (1989), um recorde. Entrar na política ajudou a mudar alguma coisa?

J.Z.: Sim, apesar de que o Parlamento não tem poder, de fato, na Suíça. Somos provavelmente a única democracia, onde o parlamentar não recebe salário. Assim, ao ser eleito, ele é cooptado - sobretudo se você for do partido certo - para assumir assentos em conselhos de administração de empresas como Nestlé, Roche, UBS, Credit Suisse, onde você ganha centenas de milhares de francos. Você se torna, dessa forma, um mercenário.

A Constituição diz que todos votam de acordo com sua consciência. Não há um mandato imperativo, o que é proibido pela Constituição. Mas, por acaso, a oligarquia bancária tem sempre a maioria. Veja esse exemplo: a OCDE disse que as leis deveriam ser mudadas, pois os advogados que abrem contas offshore não estão sujeitos a ela. O governo propôs esta lei sob pressão. E, em setembro passado, o Parlamento a refutou. As oligarquias têm sempre a maioria neste país.

swissinfo.ch: Então ser parlamentar não serve a nada?

J.Z.: Não é isso. Como parlamentar você pode, por vezes, criar transparência e atrapalhar. A Suíça apoiou o apartheid até seu fim. Até mesmo os americanos sob Reagan já estavam proibindo o comércio do ouro sul-africano, o Krugerrand. Eu como parlamentar denunciei esse escândalo, pois havia recebido informações do serviço secreto americano. Na época mostrei no Comitê de Relações Exteriores que a Swissair tinha voos fora do horário oficial para transportar o ouro sul-africano.

swissinfo.ch: Qual a sua opinião da democracia direta, uma característica do sistema político da Suíça?

J.Z.: O povo sempre vota contra si mesmo. Em um dos meus livros mostrei como os eleitores aqui já votaram contra a proposta da quinta semana de férias, contra o seguro de saúde único - que teria reduzido as contribuições que pagamos em 30% - ou contra o aumento da aposentadoria (AVS). Penso que a democracia direta é uma coisa boa, mas em uma sociedade tão desigual como a nossa - 2% dos capitalistas em nosso país têm 67% de toda a riqueza da Suíça - significa que, quem tem dinheiro, domina a maioria. Sempre que há um projeto de lei em plebiscito, eles dizem que a proposta aumenta o desemprego e os custos para o Estado. No final, a pessoas votam contra os seus interesses, pressionadas pela propaganda dos que têm dinheiro para defender e impor seus interesses.

swissinfo.ch: Você teve várias discussões com um dos representantes mais conhecidos do capitalismo, o ex-presidente da Nestlé, Peter Brabeck...

J.Z.: Uma frase de Sartre sempre me guiou em minhas lutas políticas: para amar os homens, é preciso odiar fortemente aquilo que os oprimem, não aqueles que os oprimem. O problema é a violência estrutural. Você quer amar as pessoas? O problema não é Brabeck, o presidente do Credit Suisse, do banco Julius Bär ou qualquer outro gângster do gênero. O fato é que se o Brabeck não aumentar o capital da empresa, após deixa de ser presidente da Nestlé. Ele não é o problema. As multinacionais é que o são.

swissinfo.ch: A Nestlé teve um faturamento de 87 bilhões em 2021 e emprega 276.000 pessoas no mundo. Hoje, investe em programas de sustentabilidade, proteção climática e desenvolvimento social. Ela é tão ruim assim?

J.Z.: De acordo com o Banco Mundial em 2021, as 500 maiores corporações transcontinentais juntas controlavam 52,8% do produto mundial bruto. O problema é que eles estão além de qualquer controle estatal ou sindical. Eles têm uma estratégia: a maximização do lucro no menor tempo possível e a todo custo. Elas têm um poder como nenhum rei, nenhum papa, jamais teve neste planeta.

Mas elas sabem como fazer muitas coisas e controlam o progresso científico. A produtividade da economia aumentou de uma maneira incrível. Na comunicação, houve um desenvolvimento incrível. As pessoas estão indo para a lua. Os carros estão ficando mais limpos, mais potentes e um dia não terão nem mais condutores.

No campo biomédico, há um progresso incrível: a cada seis meses uma nova molécula é desenvolvida pela indústria farmacêutica na Basiléia. O modo de produção capitalista é certamente o mais vital e criativo que a humanidade já conheceu, mas está fora do controle social. Ele é impulsionado exclusivamente pela estratégia de maximização do lucro e resulta em uma ordem mundial canibalista.

A FAO diz que a cada cinco segundos uma criança com menos de dez anos de idade morre de fome ou de suas consequências imediatas. E o mesmo relatório diz que a agricultura mundial, como é agora, normalmente poderia alimentar 12 bilhões de pessoas. Hoje somo 7,3 bilhões, ou seja, pouco mais da metade. Se houvesse uma distribuição de alimentos para todos, garantida pelo direito à alimentação nos padrões internacionais, quase o dobro do número de pessoas que poderiam ser alimentadas. Assim, uma criança que morre de fome foi, na verdade, assassinada. Não é fatalidade. A fome é feita pelo homem e pode ser eliminada amanhã pelo homem.

swissinfo.ch: Você escreveu em 2018 o livro "Capitalismo explicado às crianças", que acaba de ser publicado no Brasil em português. No título em francês você diz que o escreveu para a sua neta. Ela existe?

J.Z.: Sim, a Zohra existe e tem hoje 11 anos. 

swissinfo.ch: E por que quis explicá-la o capitalismo?

J.Z.:  As crianças fazem as perguntas certas. Eu escrevi este livro porque várias famílias e amigos me perguntaram: por que você não explica o capitalismo? Na época, meus filhos sempre me faziam esta pergunta: por que há tanta gente rica, papai? Então, decidi escrever um livro sobre esta questão. Estas são exatamente as perguntas de Zorah.

Eu fui o primeiro relator especial da ONU para o direito à alimentação. Vi tantas coisas horríveis em Bangladesh, Guatemala e outros lugares. A morte por fome é uma das mais horríveis que existe. Nós, brancos, sempre pensamos que o fim é como uma vela se apagando. A questão da fome é simples: ao nos movermos, gastamos energia vital que é medida em calorias. Estes devem ser substituídos por alimentos líquidos ou sólidos. Um adulto precisa de 2200 calorias por dia. E se você não consegue suprir essa necessidade, então começa a morrer. Primeiro o corpo queima as reservas de açúcar e gordura. Em seguida, o metabolismo é infectado. Em seguida, o sistema imunológico entra em colapso e depois a estrutura muscular. É nesse momento que você vê na televisão crianças recurvadas como pequenos animais, pois não conseguem mais ficar de pé. E depois chega a morte, uma morte muito dolorosa.

swissinfo.ch: Em sua opinião o capitalismo é responsável pela mudança climática?

J.Z.: É claro. Pegue os Acordos de Paris de 2015. O objetivo é limitar o aumento da temperatura até 1,5 °C acima dos níveis pré-industriais. Estamos em 2022 e a produção de petróleo triplicou em vez de ser reduzida por causa do lucro. Não há poder público que, em nome do interesse geral, possa impor a normatividade decidida pelos Estados no âmbito do Acordo de Paris. Portanto, a destruição do planeta é a consequência causal imediata do capitalismo.

swissinfo.ch: Como você vê hoje a juventude que protesta nas ruas em várias capitais do mundo no movimento "Fridays for Future"?

J.Z.: Para mim, este é o milagre da história. É magnífica esta consciência súbita porque é planeta é deles. E de repente, há este movimento extraordinário. Uma espécie de insurgência de consciência e está começando a ficar muito interessante porque eles estão começando a pensar nas implicações das multinacionais. Eles veem a destruição, as tempestades, os desertos, as fomes. É um verdadeiro despertar.

swissinfo.ch: No entanto, o capitalismo tirou 800 milhões de pessoas da pobreza em 40 anos na China, especialmente depois das reformas de Deng Xiaoping nos anos 1970. Não seria isso uma prova da eficiência do capitalismo?

J.Z.: Sim, talvez você esteja certo. Mas o que não queremos é esta ordem mundial canibalista. Todos querem viver felizes em igualdade, em fraternidade. E cobrir suas necessidades materiais. Essa é a única coisa que sabemos. Mas como destruir este sistema que cria esta ordem mundial canibalista? Nós lutamos contra a fome. Lutamos contra a onipotência das multinacionais. Lutamos contra o aquecimento global. Mas o que nascerá das ruínas deste sistema? Ninguém sabe, porque é assim que a história funciona.

swissinfo.ch: Em sua opinião, o comunismo que existiu na Rússia, China ou na Albânia funcionou? 

J.Z.: Não, eles falharam totalmente. O único verdadeiro regime comunista que existiu - e apenas por três meses - foi a Comuna de Paris. O objetivo era liberar o homem da alienação e da opressão. Se você olhar para os séculos, a emancipação humana está progredindo, mas houve terríveis regressões, dentre eles o nazismo e o estalinismo. Uma coisa é importante: o capitalismo não pode ser reformado. Temos que destruí-lo completamente e seguir em frente. A história nos ensina que nenhum sistema de opressão pode ser deformado. A escravidão que assolou a Europa durante 350 a 350 anos teve um dia de ser destruída. O feudalismo não podia ser reformado. Assim como não foi possível reformar a discriminação das mulheres.

swissinfo.ch: Há pouco o historiador inglês Niall Ferguson declarou que estamos voltando a uma nova Guerra Fria e, com ela, a disputa entre um modelo autoritário de governo e o liberalismo ocidental e democrático. Concorda?

J.Z.: Hoje é possível termos uma guerra na Europa. É um momento horrível de regressão. Talvez o Ocidente tenha cometido um erro. Putin é um perigo para a humanidade, não só para a civilização europeia, mas também para a paz mundial. Putin é um assassino em massa. E os chineses também oprimem os uigures. É um total desrespeito aos direitos humanos. É um modelo de sociedade que é o oposto do que as pessoas buscam: a democracia, a liberdade individual e os direitos humanos. Infelizmente esse modelo está se tornando mais poderoso a cada dia.

swissinfo.ch: A Suíça aderiu às sanções impostas contra a Rússia após invadir a Ucrânia. Alguns partidos consideram que isso feriu o princípio de neutralidade da Suíça. Você concorda?

J.Z.: Quando você está na rua e vê alguém ser abusado ou morto diante de seus olhos, você intervém e toma uma posição. Isso não tem nada a ver com neutralidade. Neutralidade não significa ser cúmplice do crime. Diante do crime, não há neutralidade na história.

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