Michael Hudson questiona: a guerra na Ucrânia é parte de um plano para provocar fome global?

"Será que a fome e a crise de balança de pagamentos são uma política deliberada dos EUA e da OTAN?", questiona

www.brasil247.com - Michael Hudson
Michael Hudson (Foto: Reprodução Youtube)


Por Michael Hudson, originalmente publicado no seu website, traduzido e adaptado por Rubens Turkienicz com exclusividade para o www.brasil247.com – É provável que muito mais pessoas morram de fome e da perturbação econômica do que nos campos de batalha na Ucrânia. Portanto, é apropriado perguntar se aquilo que parecia ser a guerra por procuração na Ucrânia faz parte de uma estratégia mais ampla de garantir o controle dos EUA sobre o comércio e os pagamentos internacionais. Estamos vendo uma tomada de poder financeiramente armada pela área do dólar estadunidense sobre o Sul Global, bem como sobre a Europa Ocidental. Como podem os países manter-se flutuando sem os créditos em dólares dos EUA e da sua subsidiária, o FMI? Quão duramente agirão os EUA para impedir que eles se desdolarizem, optando sair da órbita econômica dos EUA?

A estratégia de Guerra Fria dos EUA não está sozinha em pensar como se beneficiar com a provocação da fome e da crise do petróleo e das balanças de pagamentos? O Fórum Econômico Mundial [‘Davos’] de Klaus Schwab se preocupa com a superpopulação do mundo – pelo menos do “tipo errado” de pessoas. Como explicou o filantropo (eufemismo costumeiro para um monopolista rentista) da Microsoft Bill Gates explicou: “O crescimento da população na África é um desafio.” O lobbying do relatório de 2018 da sua fundação “Goalkeepers” [Goleiros] adverte: “Segundo as estatísticas da ONU, é esperado que a África compreenda mais da metade do crescimento populacional do mundo entre 2015 e 2050. A sua população [da África] é projetada para se duplicar até 2050”, com “mais de 40% das pessoas extremamente pobres do mundo ... em apenas dois países: a República Democrática do Congo e a Nigéria.” 

Gates defende cortar até 30% deste aumento projetado de população através do melhoramento de acesso ao controle da natalidade e da expansão da educação, para permitir que mais meninas e mulheres permaneçam mais tempo na escola e tenham filhos mais tarde.” Porém, como se pode fazê-lo considerando a iminente redução, neste verão [do hemisfério norte], dos suprimentos de alimentos e petróleo nos orçamentos dos governos?

Os modelos liberais da economia se omitem de levar em conta a queda que as suas políticas causam. Porém a tendência é tão universal e similar que, obviamente, faz parte dos danos colaterais da política dos EUA. A questão é: Será esta mais do que apenas uma “negligência benigna”? À que ponto a política de despopulação torna-se consciente? Basta verificar o desastre no Báltico. Desde 1991, as populações da Látvia, da Estônia e da Lituânia declinaram em mais de 20%, basicamente porque a população em idade de trabalhar teve que emigrar para o resto da Europa a fim de encontrar trabalho. A política neoliberal mata – como se viu na Rússia após 1991 e como ecoa na Ucrânia. 

Os países sul-americanos e asiáticos foram impactados de maneira similar pelo aumento dos preços de importações que resultaram das exigências da OTAN de isolar a Rússia. O chefe do banco JPMorgan Chase advertiu recentemente os participantes de uma conferência de investidores em Wall Street que as sanções contra a Rússia causarão um “furacão econômico“ global. 

Ele ecoou a advertência da Diretora-Gerente do FMI, Kristalina Georgieva, feita em abril de que “Para simplificar: nós estamos enfrentando uma crise em cima de uma crise.” Assinalando que a pandemia do COVID foi aumentada pela inflação, com a guerra na Ucrânia tornando as coisas “muito piores e ameaçando a aumentar ainda mais a desigualdade”, ela concluiu que: “As consequências econômicas da guerra se espalham rapidamente e chegam longe, aos vizinhos e além destes, atingindo mais fortemente as pessoas mais vulneráveis do mundo. Centenas de milhões de famílias já estavam lutando com rendas menores e preços mais altos de energia e comida.”

O governo Biden culpa a Rússia por uma “agressão não-provocada”. Porém é a pressão do governo dele sobre a OTAN e outros satélites da Área do Dólar que bloqueou as exportações russas de grãos, petróleo e gás. Muitos países deficientes em petróleo e gás se veem como vítimas primárias dos “danos colaterais” causados pela pressão dos EUA e da OTAN.

Será que a fome e a crise de balança de pagamentos são uma política deliberada dos EUA e da OTAN?

Em 3 de junho deste ano, a Presidenta da União Africana, Macky Sall, Presidenta do Senegal, foi à Moscou para planejar como evitar uma interrupção do comércio de alimentos e petróleo da África ao se recusar a tornar-se peões das sanções dos EUA/OTAN. Até o momento, em 2022, o Presidente Putin assinalou que: “O nosso comércio está crescendo. Nos primeiros meses deste ano, ele cresceu em 34%.” 

Mas a Presidenta do Senegal Sall preocupou-se que: “As sanções anti-Rússia tornaram esta situação mais grave e agora nós não temos acesso aos grãos da Rússia, principalmente o trigo. E, mais importante ainda, não temos acesso aos fertilizantes.”

A União Africana (UA) não é uma organização que determina políticas. Uma resposta viável seria exigir massa crítica, o que significa que a UA terá que agir em conjunto com a China e a Rússia. Uma resposta institucional e uma aliança seguindo estas linhas é o que a pressão dos EUA/OTAN está tentando evitar. Os diplomatas estadunidenses estão forçando países a escolher se “ou vocês estão ao nosso favor, ou são contra nós.” – segundo as palavras de George W. Bush. O teste decisivo é se eles estão dispostos a forçar as suas populações a passar fome ou fechar as suas economias por falta de alimentos e petróleo, parando o comércio com o centro da Eurásia – China, Rússia, Índia, Irã e seus vizinhos.

As mídias corporativas principais do Ocidente descrevem a lógica que está por trás destas sanções como sendo a promoção de uma mudança de regime na Rússia. A esperança de que, com o bloqueio das vendas do seu petróleo e gás, de alimentos e outras exportações, diminuiria a taxa de câmbio do rublo e “faria a Rússia gritar” (como os EUA tentaram fazer no Chile de Allende para preparar o palco para o seu apoio ao golpe militar de Pinochet). A intenção da exclusão [da Rússia] do sistema SWIFT de pagamentos era, supostamente, de interromper o sistema de pagamento e vendas da Rússia, enquanto se esperava que o sequestro de US$ 300 bilhões de reservas russas em moedas estrangeiras mantidas no Ocidente fizesse colapsar o rublo, evitando que os consumidores russos comprassem os bens ocidentais aos quais estavam acostumados. A ideia (que parece tola, em retrospecto) é que a população russa se alçaria em rebelião para protestar contra o custo mais alto das importações de bens de luxo do Ocidente. Porém, ao invés de afundar, o rublo se valorizou e a Rússia substituiu rapidamente o SWIFT pelo seu próprio sistema ligado àquele da China. E a população russa começou a afastar-se da inimizade agressiva do Ocidente.

Obviamente, estão faltando algumas dimensões importantes nos modelos de segurança nacional dos centros de estudos [think tanks] dos EUA. Porém, no que tange à fome global, será que estava funcionando uma estratégia encoberta e até maior? Agora parece que, desde o início, a meta maior da guerra dos EUA na Ucrânia era meramente de servir como um catalisador, uma desculpa para impor sanções que interrompessem o comércio mundial de alimentos e energia, e para gerenciar essa crise de maneiras que dessem aos diplomatas estadunidenses uma oportunidade não só de cercar a Europa, mas também de confrontar os países do Sul Global com a escolha de “A sua lealdade e a dependência neoliberal, ou a sua vida” – e, neste processo, de “desbastar” as populações não-brancas do mundo que preocupavam tanto o Sr. Gates e o Fórum Econômico Mundial [aka ‘Davos”]?

Deve haver sido feito o seguinte cálculo: a Rússia responde por 40% do comércio mundial de grãos e 25% do mercado mundial de fertilizantes (45% se a Bielorrússia for incluída). Qualquer cenário incluiria um cálculo segundo o qual, se tal volume tão grande de grãos e fertilizantes fosse retirado do mercado, os preços subiriam vertiginosamente – assim como foi feito com o petróleo e o gás. Colocando minas nos canais dos portos ucranianos no Mar Negro, bloqueando os pagamentos em dólares à Rússia ou as suas moedas-satélites e impondo sanções contra países que comercializam com a Rússia, obviamente causariam interrupções violentas no suprimento mundial de grãos e nos preços da energia. 

Em adição à ameaça de insolvência nas balanças de pagamentos dos países obrigados a importar estas commodities, o custo torna-se crescente para comprar dólares para pagar aos estrangeiros detentores de letras do tesouro [dos EUA] e aos bancos por dívidas a pagar. O aumento das taxas de juros do Federal Reserve [banco central dos EUA] adicionou um prêmio crescente para a compra de dólares dos EUA sobre Euros, libras esterlinas de moedas do Sul Global.

É inconcebível que as consequências disso em países afora a Europa e os EUA não tivessem sido levados em conta, porque a economia global é um sistema interconectado. A maior parte das perturbações ocorrem na faixa de 2-5%, mas atualmente as sanções dos EUA/OTAN estão tão longe do percurso histórico, que os aumentos de preços atingirão faixas substancialmente acima dos precedentes históricos. Nada como isso ocorreu em tempos recentes.

O melhor que se pode dizer é que este é um caso de uma grosseira negligência. Porém, em algum ponto, a negligência benigna se torna malevolente. Há uma obrigação das nações de pensar sobre as consequências das suas políticas beligerantes. Estas consequências devem ser consideradas como intencionais se elas forem bastante óbvias. Na prática jurídica, negligências grosseiras são punidas – como se a parte negligente causasse danos reais.

Os políticos estadunidenses se esforçam para evitar dar algum sinal de que reconhecem danos colaterais (“economias externas”) das suas políticas. Porém, tal negligência é um perigo para o mundo. Se o comportamento de uma nação causa danos consistentemente a outros países, o efeito é como se fosse planejado intencionalmente. Este é o caso com a política de Guerra Fria 2.0 dos EUA e com a economia neoliberal em geral.

Considerando-se a iminente interrupção do comércio e dos pagamentos sugere que aquilo que parecia em fevereiro ser uma guerra entre a Ucrânia e a Rússia, na verdade é um gatilho cuja intenção é reestruturar a economia mundial – e de fazê-lo de maneira a impor o controle dos EUA tanto sobre a Europa Ocidental, quanto sobre o Sul Global. Do ponto de vista geopolítico, a guerra por procuração na Ucrânia tem sido uma desculpa útil para os EUA tentarem se contrapor à Iniciativa de Cinturão e Estrada (BRI - Belt and Road Initiative, as Novas Rotas da Seda) da China.

A escolha confrontada pelos países do Sul Global é a seguinte: passar fome para pagar os seus detentores de letras do tesouro e banqueiros, ou anunciar como um novo princípio básico de lei internacional: “Enquanto países soberanos, nós colocamos a nossa sobrevivência acima da meta de enriquecer os credores estrangeiros que concederam empréstimos que não funcionaram devido à escolha deles de travar uma nova Guerra Fria. Quanto ao destrutivo conselho neoliberal que o FMI e o Banco Mundial nos deram, os seus planos de austeridade foram destrutivos ao invés de ajudarem. Assim sendo, os seus empréstimos caducaram. Como tal, eles se tornaram odientos e nós não os pagaremos.” 

A política da OTAN não deixou outra escolha aos países do Sul Global, senão a de rejeitar a sua tentativa de estabelecer um estrangulamento de alimentos dos EUA sobre o Sul Global, ao bloquear qualquer concorrência da Rússia, monopolizando, assim, o comércio mundial de grãos e de energia. Durante muitos anos, o maior exportador de grãos foi o pesadamente subsidiado setor agrícola dos EUA, seguido pelo da Europa sob a sua altamente subsidiada Política Agrícola Comum (CAP – Common Agricultural Policy). Estes eram os principais exportadores de grãos antes da Rússia entrar neste quadro. A exigência dos EUA/OTAN é de retroagir o relógio e de restaurar a dependência de alimentos e de petróleo nas áreas do Dólar e nos seus satélites da Eurozona.

O implícito contra-plano da Rússia e da China

O que é necessário para a população do mundo não-EUA/OTAN sobreviver é um novo sistema mundial de comércio e financeiro. A alternativa para muito do mundo é a fome. Mais pessoas morrerão como consequência das sanções ocidentais do que terão morrido nos campos de batalha da Ucrânia. As sanções financeiras e de comércio são tão destrutivas quanto os ataques militares. Portanto, o Sul Global está moralmente justificado em colocar os seus interesses soberanos acima daqueles dos portadores das armas financeiras e de comércio internacional. Primeiro, os países do Sul Global precisam rejeitar as sanções e reorientar o comércio para a Rússia, a China, a Índia, o Irã e os membros da Organização de Cooperação de Shanghai (SCO – Shanghai Cooperation Organization). O problema é como pagar pelas importações destes países, principalmente se os diplomatas estadunidenses entenderem as sanções contra tal comércio.

Não há maneira alguma para que o Sul Global possa pagar pelo petróleo, os fertilizantes e os alimentos destes países e também paguem as dívidas em dólar que são o legado da política neoliberal de comércio patrocinada pelos EUA e o protecionismo da Eurozona que ia junto com isso. Portanto, a segunda necessidade é declarar uma moratória da dívida – efetivamente, um repúdio – das dívidas que representam os empréstimos que caducaram. Este ato seria análogo à suspensão das reparações alemãs em 1931 e as dívidas entre aliados devidas aos EUA. Simplesmente, as atuais dívidas do Sul Global não podem ser pagas se sujeitar os países devedores à fome e à austeridade.

Um terceiro corolário que se segue destes imperativos econômicos é substituir o Banco Mundial e as suas políticas pró-EUA de dependência de comércio e subdesenvolvimento com um genuíno Banco de Aceleração Econômica. Juntamente com esta instituição, está um quarto corolário na forma de um irmão do novo banco: uma substituição do FMI que seja livre da economia-lixo da austeridade e não subsidie as oligarquias clientes dos EUA ou os ataques monetários sobre países que resistem à privatização e aquisições financeiras dos EUA.

O quinto requerimento é que os países se protejam, unindo-se numa aliança militar que seja uma alternativa à OTAN, para evitar ser transformado em outro Afeganistão, uma outra Líbia, um outro Iraque, ou a Síria, ou a Ucrânia.

O principal meio de dissuasão a esta estratégia não é o poder dos EUA, porque este provou ser um tigre de papel. Este é um problema de consciência e vontade econômica.

Michael Hudson (nascido em 14.03.1939) é um economista estadunidense, Professor de Economia na University of Missouri–Kansas City e um pesquisador no Levy Economics Institute do Bard College, antigo analista de Wall Street, consultor político, comentador e jornalista. Ele contribui no The Hudson Report, um podcast semanal de notícias econômicas e financeiras produzido pelo Left Out.  Hudson se formou na University of Chicago (BA, 1959) e na New York University (MA, 1965, PhD, 1968) e trabalhou como economista de balanço de pagamentos no Chase Manhattan Bank (1964–1968). Ele foi Professor Assistente de Economia na New School for Social Research (1969–1972) e trabalhou em várias organizações governamentais e ONGs como consultor econômico (1980s–1990s).

O conhecimento liberta. Quero ser membro. Siga-nos no Telegram.

A você que chegou até aqui, agradecemos muito por valorizar nosso conteúdo. Ao contrário da mídia corporativa, o Brasil 247 e a TV 247 se financiam por meio da sua própria comunidade de leitores e telespectadores. Você pode apoiar a TV 247 e o site Brasil 247 de diversas formas. Veja como em brasil247.com/apoio

Apoie o 247

Comentários

Os comentários aqui postados expressam a opinião dos seus autores, responsáveis por seu teor, e não do 247

Cortes 247

WhatsApp Facebook Twitter Email