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Na minha juventude eu sonharei

Vejo na minha juventude o meu esteio de fé — fé no mais fraco, fé na caminhada, fé nos companheiros, fé nas outras fés religiosas

Casa da Cuktura de Urubuí (AM) (Foto: Divulgação)

Caio Eduardo Oliveira Barbosa (*) - Isso porque, diante de uma mesa farta — de comida e de conhecimento sobre a estrutura que nos domina — senti falta de um prato antigo, passado de geração em geração como quem transmite um tesouro, mas que já não se serve com facilidade em todas as casas e restaurantes. Na verdade, ele circula quase como contrabando: trafica-se nos becos e vielas, nas palafitas e invasões, nas aldeias e, quem sabe, até nas cadeias e nos camburões. Esse prato tem nome: utopia.

É justo dizer que, mesmo ainda em uso — quase sempre de forma criminosa —, a cada dia que passa a campanha “anti-utopia” ganha mais força. Talvez isso se deva ao fato de que aqueles que ainda se arriscam a prepará-la fazem uso excessivo do tempero do ver e pouco uso do sal do agir; mais raro ainda costuma ser o iluminar — etapas popularizadas pela Juventude Operária Cristã no século XX, com o objetivo de refletir a vida dos jovens à luz da Palavra e construir transformações concretas. Em outros tempos, nas vozes de Zé Vicente, Geraldo Vandré e Padre Zezinho, esse iluminar devolvia cor e um gosto suave à má vida que insistia em roubar o sabor da existência.

Sonhar o impossível sempre se tornava possível quando lembrávamos — escrevo como quem participou ativamente, através das memórias de quem fisicamente lá estava — que o Deus invisível se fazia visível, face a face, nas periferias: nas muitas Beléns que, em suas manjedouras, insistem em dar à luz crianças sem lar; nos muitos Egitos que acolhem imigrantes fugidos dos poderosos; nas muitas Nazarés, onde essas crianças correm descalças e, quase sempre com pouca roupa, ainda assim correm felizes; nos muitos barcos tomados pelas redes de quem pesca para garantir o sustento dos filhos; nas muitas cruzes de quem morre todos os dias — vítimas da miséria, da guerra e da doença, vítimas do sabor nada suave do ódio, vítimas da falta de utopia, que não nos permitiu construir outra realidade que não esta.

Antes que exagere no uso do ver, convido-o a iluminar este caldo comigo por meio da poesia que segue:“A minha juventude, cravejada de balas, é a parede que divide o medo da coragem. Nela, sonhos meus e dos meus se abrigam.O baluarte que me defende é a mesma voz que insiste em defender o que não defende a si.Eu carrego no peito a saudade do que não vivi, a nostalgia de memórias que não são minhas, o afeto por pessoas que partiram antes de me conhecerem, o amor por causas que “morreram” junto com seus combatentes, mas que hoje ressuscitam na minha juventude.

Cheguei quando os meus mais velhos já se despediam — herdeiro de sonhos interrompidos, de lutas inacabadas e de silêncios que ainda ecoam.Agora, detentor de herança tão vasta, potente e pobre, vejo-me fraco, assim como também foram os que me inspiram.Minha juventude, repleta de impotênciae, ainda assim, repleta de fé,caminha com pouca cadênciae para com frequênciapara partilhar a mesa e a carência.Como quem repete Emaús e ousa viver as aventuranças, minha juventude vai tomando sentido, vai se transformando em abrigo e, sendo, pelo pobre caído, abrigada do perigo.

Ao sentir e ressentir, vou percebendo o perfume das rosas que entreguei a soldados muito a(r)mados.São jovens, como eu em idade, mas diferentes em posse: lhes roubaram aquilo que tomo como meu — a juventude.Na pilha de memórias herdadas havia a margem; e nela me tornei marginal — uma marginalidade que liberta.

Minha juventude foi dedicada aos jovens das margens: do Madeira, do Negro, do Solimões, do Purus, do Amazonas, do Uatumã; das margens do poder, do dinheiro, da ganância, da destruição desenfreada da terra.Orgulho-me de ter-me feito morador das margens, irmão dos jovens marginais, navegante dos rios que ainda resistem.Assim, vou partilhando a herança que meus mais velhos libertadores deixaram a mim”.Autor: A minha Juventude

Agora, oremos

Nossa Senhora dos Marginais, rogai por nós que insistimos em sonhar.Nossa Senhora dos Fracos e Oprimidos, rogai por nós que insistimos em existir.Nossa Senhora dos Mártires Inocentes, rogai por nós que insistimos em amar.

Ao Creio, reservo-me dizer: Creio em Deus Pai, que não apenas ama, mas é o próprio Amor.Creio em Deus Filho, encarnado na pobreza, manifesto na fraqueza, rejeitado pelos ricos e gananciosos.Creio no Espírito,que dispersa seus dons entre os revolucionários,para que, assim, possam insistir na utopia.

Agora, então, iluminado pela margem, recordo-me da Parábola do Bom Samaritano e me deixo confrontar: se Jesus fosse um personagem daquela história, qual seria o seu lugar? Após muita reflexão ao longo destes últimos dois anos, chego à conclusão de que Jesus não é apenas o Samaritano que se inclina para socorrer o caído — ainda que também o seja, presente no amor e na simplicidade que brotam da Samaria. Na verdade, Ele é também o próprio caído: tantas vezes rejeitado, tantas vezes abandonado, largado à beira do caminho pela indiferença dos que passam. Este trecho do Evangelho, portanto, nos confronta com o encontro: o encontro daquele de quem menos se espera com aquele que já nada mais espera, senão a dor.

Este Deus do encontro exige de nós que caminhemos pelas margens; por isso, os grandes templos, centros e sedes, feitos de concreto armado — verdadeiros obeliscos do poder que brota do deus dos fortes — nada representam senão paredes e muros que afastam os “prometidos” dos caídos. Os samaritanos continuam não sendo bem-vindos e, ainda assim, seguem cruzando o caminho da hospedaria, seguem encontrando e sendo encontrados.

Ainda sobre os templos e sedes a serviço de “deus”, pouco mais nos dizem além da materialização do poder, erguida em tons de cinza e cercada por jardins escassos, quase sem vida. Isso porque o deus dos centros jamais conheceu seu primo distante: o Deus das beiras. Em suas salas climatizadas, muito se fala sobre “teologias”, entre elas a da libertação. Muitos dos que ali estão usam anéis pretos nos dedos — sinais visíveis de um compromisso que precisa ser exibido para existir. Poucos são os que não dependem do anel para serem reconhecidos como crentes na nova terra; afinal, seus hábitos e túnicas permanecem intactos, pouco marcados pela poeira e pela lama das capelas de taipa, de lona, em formato de oca, que dividem espaço com o centro comunitário, com cheiro de gente e de terra molhada.

Dando seguimento, chegamos enfim ao momento de agir, de fazer a utopia real. Afinal, do que adianta palavras de amor acompanhadas de gestos de ódio ou da falta de gestos?“É tempo ainda de amar sem fronteiras do amor ser a bandeira de união do mundo inteiro. Ainda creio que essas cores separadas serão flores perfumadas em um só canteiro. É tempo ainda de ver que a esperança não é só uma dança de fumaça pelo ar. Ainda sonho que o sol da nova era coroando a grande espera seja a luz de um novo olhar. Eu canto forte esta canção encerra a comunhão da terra pela soma dos quintais mas pergunto ao criador que fez a gente por que assim tão diferentes para sermos iguais” (Comunhão da Terra - Raízes Caboclas, 2003)

Não nos deixemos seduzir pelo fatalismo dos que anunciam a desesperança como destino. Ainda há tempo — e este tempo é agora — de mudar o mundo: o mundo pequeno e urgente de uma criança que chora de fome; o mundo ferido de uma jovem que caminha quilômetros em busca do direito de aprender; o mundo esquecido dos idosos abandonados à solidão dos asilos; o mundo espoliado dos operários explorados. Somos muitos, e muitos são os mundos. Cada pessoa é um mundo ameaçado, mas também uma promessa: carrega em si a dor e a alegria, a memória e a esperança teimosa de um novo dia.

E se nos sobra a alegria de quem encontrou e foi encontrado – uns pelos outros –, nos sobra também a coragem de transformar e de ser transformado. 

E é aqui que apresento a Casa da Cultura do Urubuí (CACUÍ). Há algum tempo venho me perguntando o que, de fato, ela é. Isso porque defini-la apenas como arquivo, biblioteca ou museu — ainda que todas essas categorias lhe pertençam — não alcança um aspecto fundamental de sua práxis cotidiana: A CACUÍ é mística. Compreendê-la é compreender o soprar do Espírito, que vai aonde quer e, ali, gera vida. A CACUÍ é feita de jovens transformadores de mundos. A CACUÍ é mulher: mulher de muitos nomes, muitos rostos e muitas formas de lutar — Doroti, Maya, Terezinha, Josiane, Eduarda, Jéssica, Stefany, Vitória. Mulheres que, em seus ventres, resguardam e fazem nascer sonhos de libertação.

Ela é um pedaço resistente daquilo que chamamos de CEBs – nomenclatura que em muitos lugares já não traz mais significado às novas gerações. Isso porque é um modelo de igreja/comunidade não romanizado mas sim, aquilombado, aldeado, “ateu” do deus dos centros e fiel ao Deus beiradeiro. É nela que nos encontramos, partilhamos a vida e a má-vida, sonhamos a cura das feridas — dos homens e da terra —, mantemos viva a memória dos que vieram antes de nós, para que os que virão depois ainda os lembrem, e esperançamos aqueles que cruzam o nosso caminho. Nela: “Somos gente nova vivendo a união; somos povo semente de uma nova nação, ê, ê. Somos gente nova vivendo o amor; somos comunidade, povo do Senhor, ê, ê.”(Zé Vicente - Baião das Comunidades). 

O mais bonito é que o nosso fazer não nasce do cabresto religioso do certo e do errado, do profano e do divino. Nossas religiões não são as mesmas, e isso pouco nos importa, porque o que nos une é a fé na bondade uns dos outros. É por isso que aquilo que Dalai Lama compreendia como “espiritualidade” expressa bem o que vivemos. Para ele, espiritualidade diz respeito às qualidades do espírito humano — como o amor e a compaixão, a paciência, a tolerância, o perdão, o contentamento, o senso de responsabilidade e o senso de harmonia — qualidades que geram felicidade tanto para si quanto para os outros. Essa é a nossa espiritualidade: comum, simples, cotidiana, encarnada na vida e sustentada pela confiança mútua.A Casa da Cultura do Urubuí — espaço entre paredes com cheiro de papel antigo — não é o nosso maior gesto concreto. Nossa maior realização são as pessoas que por ela circulam e que, depois de provar do caldo ilícito, passam a se viciar em sonhar, passam a iluminar a vida uns dos outros com a sua própria vida, passam a realizar a utopia.

Caríssimos, 

Há pouco mais de um mês escrevi as palavras que seguem; hoje, retorno a elas como quem volta a uma nascente. Com elas, encerro este texto — não como quem conclui, mas como quem recomeça.

Se, neste momento, não vislumbramos alternativas que brotem do movimento popular — que pouco tem renovado seus quadros de militância e, muitas vezes, segue guiado quase exclusivamente por cabelos brancos e rostos enrugados, marcados pelo grande estopim das lutas de libertação do povo oprimido no século passado — e se esses próprios companheiros e companheiras, por vezes, gritam aos ventos a descontinuidade de suas lutas, não tampemos os ouvidos. Sejamos nós, então, a continuação da utopia. Sejamos nós a nova utopia, com nossos rostos e cabelos juvenis”.

(*) Caio Eduardo Oliveira Barbosa é um jovem natural de Presidente Figueiredo, no interior do Amazonas. É agente da Comissão Pastoral da Terra (CPT), acadêmico de História na Universidade Federal do Amazonas (UFAM) e voluntário da CACUÍ, atuando em iniciativas culturais e de educação popular.