Nicolelis: ‘Isolamento social de 75% seria um sonho. Você consegue derrotar a coisa e evitar a catástrofe’

desempenhar o papel que nos cabe, vamos criar um Churchill coletivo que não comunga com essa necropolítica”, disse o cientista ao jornalista Eduardo Maretti, da Rede Brasil Atual

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Por Eduardo Maretti, da Rede Brasil Atual – Em participação, na tarde desta quinta-feira (30), no canal Rede de Opinião e Afeto, da deputada federal Jandira Feghali (PCdoB-RJ), o cientista Miguel Nicolelis, coordenador do Comitê Científico do Nordeste, afirmou que o foco de atenção sobre a pandemia de coronavírus no mundo vai ser o Brasil. Ele previu que a situação sanitária pode se tornar catastrófica no país, por falta de coordenação, de apoio do governo federal aos estados e se as  recomendações para um rigoroso distanciamento social não forem seguidas o quanto antes.

As duas maiores capitais do país, São Paulo e Rio de Janeiro, têm registrado taxa de distanciamento social abaixo de 50%. Foi o caso da capital paulista na última terça-feira. Segundo Nicolelis, quando o distanciamento chega a 60%, o número de mortos começa a diminuir. “Quando o distanciamento chega a 75% seria um sonho,  você consegue derrotar a coisa e evitar a catástrofe”, disse. Sobre São Paulo, “a gente ouviu que se continuar desse jeito vai ter que fazer um lockdown”, apontou.

Outro grave problema brasileiro, de acordo com ele, é a falta de testagem, respiradores e máscaras suficientes. “Somos o rabeira do G20 em testagem. Vamos ter mais testes, mas não vamos dar conta.” Diante do descaso do governo Bolsonaro, da falta de coordenação, de testes, da baixa taxa de distanciamento social, o neurocientista acredita que o combate à pandemia cabe à sociedade e de cada pessoa em particular.

Momentos históricos

“Na história, momentos como esse são decisivos para as nações”, disse. Nicolelis citou discurso histórico do primeiro-ministro Winston Churchill, durante a 2ª Guerra Mundial, para motivar a Grã-Bretanha na luta contra o nazismo. “Só tenho para oferecer sangue, sofrimento, lágrimas e suor”, declarou então o líder britânico. O Brasil, muito ao contrário, não tem liderança e passa por um caos político em plena pandemia.

“Não temos um Winston Churchill, mas temos a nós mesmos. Se cada um de nós desempenhar o papel que nos cabe para salvar o Brasil (ficando em casa) vamos criar um Churchill coletivo que não comunga com essa necropolítica que despreza a vida”, afirmou. Para ele, não haverá recuperação para os países que desprezarem a pandemia e se as projeções “nefastas” se confirmarem.

Segundo Nicolelis, o Brasil está numa crise “muito grande sobre o que somos, a nossa identidade como nação”. “Eu tenho dúvidas. Estamos sendo forçados a optar por um modelo civilizatório e um modelo de nação.”

“Tem que cair que cair a ficha. É uma guerra só comparável a 1918”, destacou, em referência à gripe espanhola, que matou cerca de 40 milhões de pessoas entre o final da década de 1910 e o início da seguinte.

Inverno preocupa

Niocolelis afirmou estar preocupado com a chegada do inverno e o crescimento de outras endemias, como dengue, convergindo com a pandemia de covid-19. Mesmo ainda não tendo chegado ao pico, segundo ele, a Grande São Paulo tem 85% dos leitos do SUS ocupados e a situação de Manaus é dramática.

Estudos mundiais indicam que a subnotificação de casos hoje é da ordem de 10 vezes o que se divulga, e este seria o caso dos Estados Unidos e do Brasil. Outro número citado por Nicolelis é o de que, nos próximos seis meses, os infectados nos EUA podem chegar a 100 milhões, um terço da população do país.

As perspectivas não são animadoras para o Brasil, considerando a identidade entre os presidentes Bolsonaro e “o presidente de lá (Donald Trump), tão iluminado como o nosso”, ironizou o cientista. “Os países que não resolverem bem vão emergir completamente sucateados, dependentes.”

Ele disse ainda que a taxa de contaminação com que se trabalha hoje é de que uma pessoa está contaminando duas, mas no Brasil esse índice seria 3.

Para Jandira Feghali, o governo Bolsonaro incentiva a tragédia anunciada. Falta ao governo a percepção do aspecto humano e da empatia, disse. “Além da falta de gestos e conforto, temos o oposto, o desprezo pela vida, atitude de minimização da dor, nenhuma preocupação com a dor das pessoas.”

Segundo a deputada, o deboche do chefe de governo é típico de “pessoas ruins”, o que ele demonstra ao debochar da pandemia e da vida das pessoas. A reação de Bolsonaro diante do fato de o Brasil ter ultrapassado 5 mil mortos na terça-feira foi dizer: “E daí? Lamento. Quer que eu faça o quê?”

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