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Queda-te, Senhor, entre nós

Poema de Gustavo Felicíssimo

Forças de segurança israelenses no complexo da mesquista de Al Aqsa, em Jerusalém 05/04/2023 (Foto: REUTERS/Ammar Awad)

Gustavo Felicíssimo*


Queda-te, Senhor, entre nós, 

para que possamos mostrar-Te 

o nome do Teu filho impresso 

no cano de poderosos fuzis

e em antigos livros que unem 

e separam os homens.


Queda-te, Senhor, entre nós, 

para que possamos mostrar-Te 

aquele franzino Davi 

montado em poderosos helicópteros 

e tanques de guerra 

subjugando o seu irmão. 


Queda-te, Senhor, entre nós, 

para que possamos mostrar-Te 

o choro desesperado da criança 

sobre os escombros que soterraram seus pais

tornando-a mais uma entre milhões

de órfãos esquecidos de todas as guerras. 


Queda-te, Senhor, entre nós, 

para que possamos mostrar-Te 

os silos e armazéns abarrotados 

de milho e soja, trigo e açúcar 

enquanto metade da humanidade não dorme 

com medo da que não come. (Inspirado em Josué de Castro)


Queda-te, Senhor, entre nós, 

para que possamos, enfim, ver-Te 

com estes olhos que a terra há de comer 

e para que Possas também nos lembrar 

que a videira é seca, suja e torta: 

que este vale é feito de lágrimas.

*poeta e editor da Mondrongo