Abiquim afirma que não há risco de desabastecimento no Brasil
Entidade diz que capacidade ociosa da indústria química garante oferta, mesmo com tensões no Oriente Médio e aumento recente das importações no país
247 - A Associação Brasileira da Indústria Química afirmou que não há risco de desabastecimento no Brasil, apesar das tensões provocadas pelo conflito no Oriente Médio, iniciado no fim de fevereiro. Segundo a entidade, a indústria química nacional possui capacidade instalada suficiente para atender à demanda interna, mesmo em um cenário hipotético de queda nas importações.
Em posicionamento divulgado nesta terça-feira (31), em São Paulo, a Abiquim destacou que análises recentes que apontam riscos ao abastecimento se baseiam em projeções e preços pontuais de mercado (“spot”), sem considerar a dinâmica real do setor. A entidade ressalta que a indústria opera majoritariamente com contratos de médio prazo e cláusulas de demanda firme, o que reduz a transmissão imediata de oscilações e assegura previsibilidade no fornecimento.
A associação também enfatizou que não há insuficiência estrutural de produção no país. Pelo contrário, o setor enfrenta níveis elevados de ociosidade. Em 2025, a média de capacidade ociosa chegou a 41%, o pior patamar em três décadas, alcançando 45% em segmentos de intermediários para plásticos. Esse cenário, segundo a entidade, evidencia a existência de ampla margem para expansão da produção sem necessidade de novos investimentos.
De acordo com a Abiquim, a concentração industrial observada no setor petroquímico não representa uma distorção, mas sim uma característica global. Por se tratar de uma atividade intensiva em capital, a produção exige escala e integração para garantir eficiência e atender cadeias produtivas diversas.
A entidade também rebateu a ideia de que o atual contexto internacional possa provocar interrupções no fornecimento, citando a experiência recente da pandemia de Covid-19. Entre 2021 e 2022, mesmo diante de uma crise global sem precedentes, não houve paralisação sistêmica no fornecimento de insumos essenciais para áreas como alimentos, saúde e embalagens. O atendimento ao mercado interno foi mantido por meio de estoques e importações complementares.
No que diz respeito às importações, a Abiquim explicou que o Brasil historicamente importa entre 25% e 30% das resinas que consome, percentual que subiu para cerca de 46% entre 2024 e 2025. Para a entidade, esse aumento não tem relação com o conflito no Oriente Médio, mas sim com fatores econômicos que levaram a um crescimento considerado predatório das importações, ampliando a ociosidade das fábricas nacionais.
A associação também destacou que a maior parte das resinas importadas pelo Brasil tem origem em regiões fora da zona de conflito, como Estados Unidos, países da América Latina, China e outros mercados asiáticos, além do Egito. Segundo o posicionamento, essas rotas não sofrem impactos logísticos diretos das atuais hostilidades.
Em relação às chamadas resinas especiais ou “grades” técnicos, a Abiquim afirmou que a indústria brasileira possui capacidade para produzir diferentes tipos de polietileno (PE), polipropileno (PP) e PVC. Nos casos em que há importação de produtos de nicho, trata-se, segundo a entidade, de uma decisão comercial das empresas transformadoras, motivada por critérios técnicos ou estratégias de custo, e não por limitações produtivas do país.
Sobre possíveis aumentos de preços, a associação reconheceu que há pressões globais decorrentes da elevação do preço do petróleo, mas ponderou que ainda é cedo para medir impactos mais amplos. O conflito, segundo a entidade, ainda é recente, e não há dados suficientes para determinar sua duração ou efeitos sobre a competitividade. A Abiquim acrescenta que, historicamente, o setor químico não é o principal responsável por ampliar margens em momentos de volatilidade.
Por fim, a entidade apontou que o principal desafio da indústria química brasileira não é o abastecimento, mas sim a competitividade. Entre os entraves, estão o alto custo de energia, o preço elevado do gás natural, assimetrias regulatórias e práticas consideradas desleais no comércio internacional. Diante desse cenário, a Abiquim defende a adoção de instrumentos de defesa comercial, como medidas antidumping e mecanismos para corrigir desequilíbrios concorrenciais, a fim de fortalecer a produção nacional e garantir a continuidade de investimentos no setor.