Brasil mapeia 1,2 milhão de hectares de manguezais e investe R$ 27,4 bilhões pelo Fundo Clima
Plano Clima 2024–2035 orienta redução de 59% a 67% das emissões até 2035 e neutralidade climática até 2050
247 - O governo federal revelou nesta semana que o Brasil possui 1.229.644 hectares de manguezais distribuídos ao longo de sua costa — número que orienta um conjunto de metas ambiciosas: recuperar 17 mil hectares até 2030, criar seis novas Unidades de Conservação federais até 2028, capacitar 1.500 pessoas e mobilizar R$ 27,4 bilhões pelo Fundo Clima apenas em 2026, o maior orçamento da história do fundo. O Maranhão concentra a maior fatia, com mais de 512 mil hectares, seguido por Pará e Amapá. Do total mapeado, 82% estão sob proteção de Unidades de Conservação. As informações foram divulgadas pelo Ministério do Meio Ambiente e Mudança do Clima durante o evento que também marcou o lançamento do Plano Clima 2024–2035.
O levantamento atualiza o Atlas dos Manguezais Brasileiros publicado em 2018 e foi elaborado com base em imagens do satélite Sentinel-2 captadas em 2024, sob coordenação do MMA e do Ibama, com participação do MapBiomas Brasil. O mapeamento integra o Programa Nacional de Conservação e Uso Sustentável dos Manguezais do Brasil, o ProManguezal, instituído em 2024 para organizar as ações de conservação, recuperação e uso sustentável desses ecossistemas em articulação com o Sistema Nacional do Meio Ambiente.
A ministra do Meio Ambiente e Mudança do Clima, Marina Silva, destacou a importância do programa para a agenda ambiental brasileira. "Ter iniciativas como o ProManguezal é fundamental para a proteção dos nossos manguezais. O compromisso do Brasil com o oceano e os sistemas costeiros também se concretiza por meio da criação de unidades de conservação, sejam elas de uso sustentável ou de proteção integral", afirmou. A ministra também classificou o mapeamento como "um grande investimento na proteção da nossa biodiversidade, dos serviços ecossistêmicos e do enfrentamento da mudança do clima, na defesa das populações locais e tradicionais."
O presidente do Ibama, Rodrigo Agostinho, explicou a metodologia que tornou o levantamento possível. Para ele, o diferencial do trabalho está na combinação entre tecnologia de ponta e análise humana. "Para tirar o mapeamento do papel, se juntou o que tinha de mais moderno em tecnologia com uma coisa que ainda é imprescindível para nós, que é o olhar humano", disse. "Então, cada um dos fragmentos foi mapeado individualmente com olhar acurado e com validação de pesquisadores do Brasil inteiro. Isso para nós é ciência pura", complementou Agostinho.
A plataforma de mapeamento vai além do registro cartográfico. Ela funciona como ferramenta estratégica para o planejamento territorial e a adaptação às mudanças climáticas, permitindo identificar pressões sobre o ecossistema — como expansão urbana e atividades aquícolas — e subsidiar ações de recuperação de áreas degradadas. O ProManguezal está estruturado em seis eixos de atuação: conservação e recuperação, uso sustentável, redução de vulnerabilidades socioambientais, conhecimento, capacitação e sustentabilidade financeira.
O evento também marcou a apresentação do Plano Clima 2024–2035, principal instrumento estratégico do governo federal para enfrentar os efeitos das mudanças climáticas e orientar a transição para um modelo de desenvolvimento sustentável e de baixo carbono. Construído ao longo de três anos com a participação de 25 ministérios, da comunidade científica e da sociedade civil, o plano está organizado em três eixos: mitigação, adaptação e estratégias transversais para ação climática.
No eixo de mitigação, o documento estabelece 245 ações para reduzir emissões em diferentes setores, incluindo o combate ao desmatamento, a restauração de mais de 12 milhões de hectares e a ampliação de fontes limpas na matriz energética. Já o eixo de adaptação reúne 16 planos setoriais e temáticos focados na redução de vulnerabilidades e no fortalecimento da resiliência de cidades, territórios e populações frente a eventos climáticos extremos. O plano também incorpora diretrizes para temas transversais como justiça climática, financiamento, inovação e abordagem de gênero.
No plano internacional, o Plano Clima orienta o cumprimento da Contribuição Nacionalmente Determinada do Brasil no Acordo de Paris, que prevê a redução de 59% a 67% das emissões líquidas de gases de efeito estufa até 2035 em relação aos níveis de 2005, e a neutralidade climática até 2050. Para apoiar o monitoramento das ações, o MMA desenvolve o IndicaClima, sistema digital que reunirá dados e indicadores para acompanhar a execução do plano e ampliar a transparência das políticas climáticas.
O lançamento ocorre em momento de intensa agenda ambiental internacional para o Brasil. O país se prepara para sediar, entre os dias 23 e 29, a 15ª Conferência das Partes da Convenção sobre a Conservação das Espécies Migratórias de Animais Silvestres — a COP15 da CMS — em Campo Grande, no Mato Grosso do Sul. O encontro, organizado pelo governo brasileiro e presidido pelo secretário-executivo do MMA, João Paulo Capobianco, deve reunir mais de 2 mil participantes, entre representantes das 133 partes da Convenção — 132 países e a União Europeia —, cientistas, organizações internacionais e sociedade civil, para debater a conservação de espécies migratórias e a proteção de habitats e rotas migratórias em escala global.


