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Como camisinhas ajudam cientistas a desvendar estratégia peculiar de cigarras na Amazônia

Experimento científico foi conduzido por pesquisadoras brasileiras

Pesquisa publicada na Biotropica usou camisinhas para testar o papel das torres de argila na sobrevivência das ninfas da cigarras-arquiteta (Foto: Divulgação/ Instituto Serrapilheira)

247 - Um experimento científico conduzido por pesquisadoras brasileiras utilizou preservativos de látex como ferramenta para investigar o comportamento de uma espécie de cigarra amazônica. As informações são do Metrópoles. 

O estudo revelou novas evidências sobre a função das torres de argila construídas pelas ninfas da espécie Guyalna chlorogena, conhecida como cigarra-arquiteta. 

A pesquisa buscou compreender o papel biológico dessas estruturas erguidas pelos insetos durante a fase final da metamorfose — um dos períodos mais vulneráveis do ciclo de vida da cigarra. Os resultados indicam que as torres desempenham funções importantes tanto na respiração quanto na proteção contra predadores.

O experimento foi conduzido por um grupo de ecólogas formado pelas estudantes Marina Méga, Izadora Nardi, Sara Feitosa e Maria Luiza Busato durante um curso de campo da Formação em Ecologia Quantitativa do Instituto Serrapilheira. O artigo científico com os resultados foi publicado em fevereiro deste ano na revista Biotropica.

Para testar a hipótese de que as torres ajudam na troca de gases entre o inseto e o ambiente, as pesquisadoras recorreram a um método simples, porém inusitado: vedar completamente as estruturas com camisinhas de látex. O objetivo era interromper a circulação de ar dentro das torres e observar a reação das ninfas.

No experimento, os preservativos foram colocados sobre as torres de argila desde o topo até a base e fixados com filme plástico, criando uma vedação total. Cada estrutura permaneceu selada por aproximadamente 18 horas, simulando uma condição de estresse respiratório.Após esse período, as pesquisadoras quebraram manualmente as torres para observar o comportamento das ninfas e avaliar como os insetos reagiriam à interrupção da ventilação.

Os resultados mostraram mudanças claras no desenvolvimento das cigarras. As ninfas que ocupavam torres maiores apresentaram aceleração no crescimento após o bloqueio da circulação de ar, enquanto aquelas instaladas em estruturas menores reduziram o ritmo de reconstrução das torres.

Segundo as autoras, os dados indicam que as torres exercem um papel fundamental na regulação das condições internas enfrentadas pelos insetos durante a fase subterrânea. No artigo científico, as pesquisadoras descrevem o fenômeno como um “fenótipo estendido”, conceito que define quando características de um organismo se manifestam também nas estruturas que ele constrói no ambiente.

Além da função respiratória, o estudo também investigou se as torres poderiam atuar como proteção contra predadores naturais das cigarras, especialmente formigas.Para avaliar essa hipótese, a equipe posicionou iscas feitas de água, farinha e sardinha tanto no topo das torres quanto diretamente no solo. Algumas horas depois, foi registrada a presença de formigas nos dois ambientes.

Os resultados foram expressivos: a probabilidade de encontrar formigas nas iscas colocadas no chão foi cerca de oito vezes maior do que nas instaladas no topo das torres.

De acordo com o estudo, a elevação proporcionada pelas estruturas reduz significativamente o risco de ataque durante a metamorfose — momento em que a ninfa emerge do solo e permanece vulnerável por algumas horas enquanto se transforma em cigarra adulta.

A descoberta reforça a importância das torres de argila como estratégia evolutiva da cigarra-arquiteta, mostrando que essas construções funcionam não apenas como abrigo, mas também como uma extensão funcional do próprio organismo no ambiente amazônico.