Violência na Amazônia peruana: Bispo denuncia os graves impactos da atividade extrativista em Loreto
Bispo de Iquitos alerta sobre crise social e ecológica
247 - A região de Loreto, no Peru, vive uma situação crítica, marcada por violência, contaminação ambiental e a exclusão social das comunidades locais. Um dos episódios mais recentes envolveu um confronto violento entre a Polícia Nacional do Peru (PNP) e membros da comunidade de Providencia, no setor do rio Corrientes, que resultou na morte de um policial e deixou várias pessoas feridas, desaparecidas e detidas. A situação é ainda mais dramática, pois as comunidades afetadas denunciam a falta de ação do Estado frente à degradação ambiental causada pelas atividades extrativistas.
A denúncia foi feita pela equipe de comunicações da Rede Eclesial Pan-Amazônica (REPAM), que relatou também o sequestro de tripulantes de uma embarcação petrolífera da empresa RICSA, nas proximidades da Comunidade Nativa de Providência. A empresa, por sua vez, registrou queixas no Ministério Público por crimes de sequestro, extorsão e obstrução de serviços públicos, alegando que, para liberar a tripulação, foi exigido o pagamento de 560 mil dólares. Esse episódio ocorre em um contexto de crescente insatisfação local com os impactos das atividades petrolíferas na região, incluindo a contaminação dos rios e a destruição de ecossistemas essenciais para a subsistência das comunidades indígenas.
Os relatos da REPAM, aliados a um estudo técnico independente de 2022, indicam que a atividade petrolífera na zona, que está em operação desde 1974, gerou um cenário de degradação ambiental sistêmica. O estudo, elaborado pelo Ministério de Energia e Minas do Peru e o Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento (PNUD), revela que após mais de 50 anos de exploração, as áreas afetadas estão marcadas por ecossistemas contaminados e comunidades com acesso precário à saúde e serviços básicos. As políticas públicas voltadas para o setor extrativista, longe de solucionar o problema, alimentam a desconfiança das populações locais em relação às instituições estatais, agravando ainda mais a crise social.
Em um pronunciamento contundente, o Bispo do Vicariato Apostólico de Iquitos, Dom Miguel Ángel Cadenas, expressou sua preocupação com a violência crescente na região e seus efeitos devastadores. “Nada pode justificar a morte... esta notícia dilacerante evidencia a violência em que vivemos... Temos um cadáver, vários feridos e desaparecidos, aos quais devemos somar seus familiares”, afirmou, destacando a crise social que predomina em grande parte da região. O bispo também fez um alerta sobre a violência invisível, mas igualmente grave: “Outra violência, menos visível, mas igualmente perturbadora, são os níveis de contaminação nos corpos dos comunitários e a falta de tratamentos adequados, sem esquecer a pobreza multidimensional em que vivem”.
Dom Miguel Ángel Cadenas ainda abordou o impacto ambiental irreversível causado pelos projetos extrativistas, que afetam não apenas as zonas de exploração, mas toda a biodiversidade local. “Plantas, árvores, microrganismos, animais e peixes são afetados por altos níveis de contaminação, intensificando a relação das comunidades com o ecossistema e violando direitos fundamentais, como o acesso à água segura, às garantias de vida e a uma alimentação adequada.” Ele concluiu com uma reflexão crucial, formulando duas perguntas que exigem resposta urgente: “O que diremos agora às famílias do falecido e dos feridos? O que diremos aos membros das comunidades que sentem em sua própria carne a exclusão?”
A situação em Loreto é um claro exemplo das consequências da exploração extrativista sem as devidas responsabilidades sociais e ambientais, uma crise que exige uma ação imediata do Estado e das empresas envolvidas, visando garantir os direitos e o bem-estar das comunidades locais.