"A Terra é azul"

H 50 anos, o russo Yuri Gagarin, o primeiro homem a viajar pelo espao, revelava ao mundo a cor da sua pele"

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Por Dario Palhares

Primeiro, foi o grego Pitágoras de Samos (570 a.C. - 497 a.C.), que descobriu o formato esférico da Terra; depois vieram o também grego Erastótenes (276 a.C. - 194 a.C.), responsável pelo cálculo preciso da extensão de sua circunferência, e o polonês Nicolau Copérnico (1473 - 1543), formulador da tese heliocêntrica, segundo a qual o planeta, longe de ser o centro do universo, como era crença até então, se movia ao redor do Sol. Privilegiado, o piloto russo Yuri Alekseyevich Gagarin pôde constatar na prática, pela primeira vez na história, todas essas teorias e algo que nunca passara pela cabeça dos grandes astrônomos, físicos e matemáticos da Antiguidade: “A Terra é azul!”.

O feito de Gagarin completa 50 anos. Às 9h07 (horário local) de 12 de abril de 1961, a bordo de uma nave Vostok 3KA-3, ele gritou “Vamos lá!” quando foram acionados os propulsores do foguete Proton no Cosmódromo de Baykonur, no Cazaquistão, então parte da União das Repúblicas Socialistas Soviéticas (URSS). Tinha início o voo de 1 hora e 48 minutos, a 315 quilômetros da superfície terrestre, que lhe garantiu a glória de ser o primeiro homem a viajar pelo espaço. Em seu retorno do cosmo – depois de completar uma volta ao redor da Terra, depois de ter-se encantado com a cor do planeta e os objetos que flutuavam no interior da astronave – ele, consciente da grandeza da sua missão, assobiava os versos de uma canção de Dimitri Shostakovich e Yevgeniy Dolmatovsky: “A Terra Mãe ouve/ A Terra Mãe Sabe/ Onde seu filhos voam nos céus...”.

Nascido na aldeia de Klushino, no oeste da Rússia, a 9 de março de 1934, Yuri era o terceiro dos quatro filhos de Alexey Ivanovich Gagarin e Anna Timofeyevna Gagarin. Abraçou a carreira de piloto militar em 1955 e dois anos depois já cruzava os céus a bordo de caças MiG 15. Como tenente, foi selecionado, em 1960, para o grupo de 19 pilotos do programa espacial soviético. Durante o treinamento, ele logo conquistou a admiração e a preferência não só dos comandantes, como de seus próprios pares.

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Relatórios oficiais destacavam a inteligência, capacidade de aprendizado, memória, abertura ao diálogo, as reações rápidas e os profundos conhecimentos de Matemática de Gagarin. Entre os pilotos, ele era quase unanimidade: indagados sobre quem deveria ser o primeiro soviético a entrar em órbita, 17 dos 20 concorrentes o indicaram. No fim da disputa, ele teve como principal concorrente Gherman Titov (1935 - 2000) e acabou levando a melhor graças ao seu porte físico, digno de um jóquei. Com apenas 1,57m, era um passageiro sob medida para a acanhada nave Vostok. Titov teve que se contentar com o “título” de segundo homem a navegar no espaço, em 6 de agosto de 1961, quando deu 17,5 voltas em torno do planeta, tão tranquilas que chegou a cochilar a bordo.

Pilotos de mão cheia, Gagarin e Titov foram, na verdade, passageiros de suas Vostok. Assim como os primeiros astronautas americanos, que ganharam o espaço dois anos mais tarde, os cosmonautas soviéticos não interferiam na trajetória de suas naves, que eram automatizadas. Só tinham autorização para assumir o comando em caso de emergência. Ambos, aliás, foram ejetados de suas cápsulas espaciais e chegaram ao solo conduzidos por paraquedas, fato omitido pelas autoridades soviéticas até os anos 1970.

Herói nacional, Gagarin nunca voltou ao espaço. Tornou-se um embaixador informal da União Soviética, que à época travava com os Estados Unidos a Guerra Fria. A corrida espacial era um dos cenários dessa disputa, e os soviéticos, até o início da década de 1960, estavam disparados na liderança. Tinham tomado a dianteira dos norte-americanos ao lançar, em outubro e novembro de 1957, o Sputnik, o satélite artificial nº 1 da história, e o primeiro ser vivo a entrar em órbita, a cadelinha Laika, que morreu no espaço. Com o sucesso alcançado pelo baixinho de Klushino em sua missão pioneira, ninguém mais indicado do que ele próprio para divulgar ao mundo supremacia soviética sobre os EUA.

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Como “diplomata”, Gagarin foi o responsável pelo estabelecimento de relações diplomáticas entre o Brasil e o governo de Moscou. Entre 29 de julho e 5 de agosto de 1961, pouco tempo após ter retornado do espaço, o cosmonauta visitou São Paulo, Rio de Janeiro e Brasília, e recebeu do então presidente Jânio Quadros a Ordem do Cruzeiro do Sul. Na Capital federal – que considerou, do alto de sua experiência, uma cidade de “outro planeta” –, ele entregou ao “homem da vassoura” uma mensagem do premiê soviético Nikita Kruschev. Era o ponto de partida para o início da troca de figurinhas entre o Itamaraty e o Kremlin, instituída oficialmente a partir de dezembro daquele ano.

Em meio às missões oficiais como representante do governo soviético, Gagarin seguiu na ativa como piloto militar. E foi a bordo de um MiG 15UTI, ao lado do instrutor Vladimir Sryogin, que ele encontrou a morte, a 27 de março de 1968, nas proximidades da base área de Chkalovsky, a 31 quilômetros de Moscou. Sabe-se que seu caça entrou em parafuso antes de se espatifar no solo, mas as razões ainda geram controvérsias. Há quem diga que a aeronave se chocou contra pássaros, outros argumentam que a torre de comando de Chkalovsky enviou o MiG, por engano, para uma zona de forte turbulência, e também é aventada a hipótese de instabilidade causada pela quebra da barreira do som, pouco antes. “Existem 25 versões sobre Gagarin. Este evento atormenta até hoje a nação da mesma maneira que o assassinato de Kennedy aos americanos”, afirma o jornalista russo Lev Danilkin, autor de uma recém-lançada biografia do grande mito russo.

Gagarin perdeu a vida com apenas 34 anos, e só não morreu ainda mais jovem graças a um corajoso amigo. Dispostos a comemorar em grande estilo o cinquentenário da Revolução de Outubro de 1917, as autoridades soviéticas escolheram Vladimir Mikhailovich Komarov, camarada do mais famoso cosmonauta da história, para se tornar o primeiro homem a viajar pelo espaço por duas vezes. Komarov logo percebeu que o lançamento inaugural da série Soyuz tinha grandes chances de terminar em tragédia. Reclamava frequentemente para amigos que o projeto da nave era desastroso, mas se recusava a considerar a possibilidade de abandonar a empreitada, como lhe foi sugerido pelos mais chegados em diversas ocasiões. “Não, pois se eu fizer isso, sei que vão mandar o Gagarin para o espaço. E ele não vai voltar”, respondia.

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Komarov já havia entrado em órbita a 12 outubro de 1964, a bordo da Vostok 3KV, a primeira nave soviética com mais de um tripulante (três, no total). Ele repetiu a dose em 23 de abril de 1967, mas não teve como comemorar seu feito. Ao retornar para a Terra, no dia seguinte, os paraquedas não se abriram e a nave – que já não contava com um sistema de ejeção do tripulante – se espatifou contra o solo. Consta que Gagarin, ao saber dos graves problemas da Soyuz, se apresentou como voluntário no dia do lançamento, devidamente trajado com a roupa espacial. Seu amigo, no entanto, recusou a oferta e lhe garantiu, sem saber, mais 11 meses de vida. De um herói para outro.

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