BBB20: vitória de Thelma é ‘simbólica’, mas não ‘desestabiliza’ racismo estrutural, diz Djamila Ribeiro
Apesar disso, Djamila disse que a vitória de Thelma aumenta a conscientização sobre a discussão do racismo no Brasil e sobre a representatividade étnica na mídia
247 - A filósofa, escritora e ativista do movimento negro Djamila Ribeiro afirmou que a vitória de Thelma no Big Brother Brasil 2020 é ‘simbólica’ e inspiradora, mas não ‘desestabiliza’ o racismo estrutural.
"Claro que é simbólico (vitória de Thelma), mas a grande mídia do país ainda não representa a diversidade do povo brasileiro. Precisamos refletir e ter uma discussão séria sobre isso. Há uma reivindicação histórica para que mais pessoas negras ocupem lugar de destaque na mídia, e não só reproduzindo estereótipos", disse Ribeiro à BBC, lembrando que dentre os 20 participantes do programa apenas Thelma e Babu eram negros, apesar de 50% da população se declarar negra, de acordo com dados do IBGE.
“Comemoramos porque são tão poucas as vezes que isso acontece que entendo a euforia das pessoas. A massa assiste à TV e milhares de meninas negras podem se inspirar em Thelma. Isso é inegável [..] Mas muito poucas mulheres negras conseguem chegar ao lugar aonde Thelma chegou. E não deveria ser assim”, ressaltou.
Por isso, ela reforçou que "se, de fato, não houver pressão para que isso mude, tudo vai continuar do jeito que está. Precisamos mudar essas estruturas de poder para não ter que ficar comemorando uma no meio de várias. Não vejo a vitória dela desestabilizando isso (racismo estrutural). Só vamos poder dizer isso quando tivermos mais inclusão dentro desses espaços".
Ribeiro lembrou ainda que "no ano passado uma participante declaradamente racista ganhou o programa", aludindo a Paula Von Sperling, que foi indiciada por intolerância religiosa, mas o processo foi arquivado.
A filósofa também criticou os comentários racistas que foram feitos à participante, de que a torcida dela só existia porque “ele é negra” (como afirmou o empresário Rodrigo Branco) e que Thelma seria uma “planta” na casa mais vigiada do Brasil. "Há um estereótipo que pesa sobre a mulher negra de que ela tem que ser raivosa ou arruaceira. Ou então, uma superativista da causa. A sociedade lhe nega, portanto, o direito à individualidade. Ela é um ser humano. Ninguém cobrou que a Rafa (Rafa Kalimann) fosse igual a Manu (Manu Gavassi), mas a mulher negra tem que ser como o Babu."
Apesar disso, Djamila disse que a vitória de Thelma aumenta a conscientização sobre a discussão do racismo no Brasil e sobre a representatividade étnica na mídia. Mas concluiu: “é importante lembarmos que Thelmas do Brasil ainda estão morrendo assassinadas, vítimas de violência sem o apoio do Estado".