Cruvinel vê na CPI um jogo de perde-perde

Para a jornalista, que j foi a principal colunista do Globo e presidente da EBC, governo e oposio tendem a sair derrotados

Cruvinel vê na CPI um jogo de perde-perde
Cruvinel vê na CPI um jogo de perde-perde (Foto: Divulgação)

247 – Depois de uma breve quarentena, a jornalista Tereza Cruvinel começa a voltar à ativa, com sua pena afiada, no blog Tema Livre. Neste domingo, ela publica sua análise sobre a CPI Mista do caso Carlos Cachoeira. Leia:

Um jogo de perde-perde

Acompanho, a alguma distância, o zumbido em torno da Comissão Parlamentar de Inquérito que promete o fim do mundo ao revelar o submundo das relações entre partidos, políticos e o contraventor Carlinhos Cachoeira. Algumas CPI s devastam a conjuntura, destroem carreiras e reputações e acabam alterando a dinâmica do jogo político. Outras morrem melancolicamente, produzindo quilos de papel e nenhuma conseqüência. Lamentavelmente, poucas CPIs produziram mudanças institucionais e legais efetivas, capazes de impedir a repetição dos mesmos delitos. Uma delas, a dos anões do Orçamento, de 1993, legou-nos a Lei das Licitações, que a sucessão de escândalos envolvendo compras e contratos públicos sugere estar carecendo de revisão.

A CPI do Cachoeira parece destinada ao primeiro grupo: Fatos graves já vazaram da Operação Monte Carlo, da Polícia Federal, os atores são graúdos, assim como os recursos movimentados, especialmente via construtora Delta. Pelo menos quatro partidos (DEM, PT, PSDB e PMDB) estão molhados ou respingados. Assim, esta CPI deve ter um impacto variável entre o terremoto e a tsunami. Não será o de uma marolinha.

Por isso mesmo não deixa de ser estranho e de beirar o non-sense o empenho de governistas e oposicionistas por sua instalação. Se o interesse fosse pela produção de medidas efetivas para evitar as reincidências, nada impediria que o Congresso requisitasse e obtivesse o resultado das investigações da PF para, a partir delas, elaborar leis e medidas corretivas. Está bem, não se trata disso, os partidos querem é palanque e ponto de tiro contra os adversários num ano eleitoral. Neste palco, dançarão o balé do arrastão, cada qual tentando puxar os adversários para a chuva. Agora o senador Demóstenes já tem companhia tucana e petista, como os governadores Perilo (GO) e Agnelo (DF). Outros vão entrar na dança, de um lado como de outro.

A tática pode ser equivocada. Para uma oposição que vive na defensiva há dez anos - embora tenha levado o PT e o Governo às cordas, mas não ao chão, em 2005 - nenhum ganho pode vir de uma CPI que começará crucificando um senador que era ícone do moralismo. Os elementos para a cassação de Demóstenes são claros e fortes, dispensavam uma CPI.

Já o Governo deve saber que não existe CPI boa para quem governa. Ainda mais quando uma construtora com contratos vultosos é suspeita de pertencer ao réu principal. Mas, altaneiro, o Governo não mobilizou sua maioria para evitar sua instalação.

Atribui-se ao PT, e com ênfase ao ex-presidente Lula, o propósito de usar a CPI para embaralhar o julgamento do mensalão pelo STF. Esta estratégia, procedente ou não, também é contraditória. “Nivelando por baixo” os partidos e os políticos o PT só aumentaria o interesse da população pelo julgamento do STF. Lula, ao deixar a Presidência, disse-me numa entrevista à TV Brasil que um de seus objetivos fora do cargo seria corrigir a narrativa do mensalão. Nunca o vi negar que o uso dos tais recursos “não contabilizados”. Mas ele nunca aceitou a narrativa pela qual o caixa dois, o valerioduto de origem tucana e outras estripulias do financiamento eleitoral são invenções de uma quadrilha petista. Foi o que disse na desastrosa entrevista de Paris, ao afirmar que o PT fez o que se faz rotineiramente no Brasil. Sua atitude é mais compreensível que a do Planalto e a da oposição. Tancredo Neves ensinava que na política existe o ganha-ganha, ações em que todos lucram, existem o ganhar perdendo e o perder ganhando, e ainda o jogo do perde-perde, como parece ser o caso desta CPI que promete maremoto ou tsunami para todos.

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Comissão da Verdade: O que estaria esperando a presidenta Dilma para indicar os nomes que comporão a Comissão da Verdade? Estaria apenas seguindo o que parece ser um método seu, o de cozinhar e fritar problemas e pessoas até que as soluções se imponham? Seja o que for, agora esta importante iniciativa de seu Governo já foi atropelada pela CPI do Cachoeira, com a qual concorrerá quando (e se) for instalada.

 

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