Elo entre Globo e Lava Jato envolvia vazamentos coordenados, lobby e consultoria informal, aponta relatório
Estudo afirma que relação entre emissora e força-tarefa de Curitiba ultrapassava contatos jornalísticos e incluía articulações estratégicas
247 - Um relatório elaborado por um doutor em Direito pela Universidade de São Paulo (USP), divulgado pelo site Consultor Jurídico (ConJur), aponta que a relação entre a Rede Globo e a força-tarefa da operação “lava jato” teria extrapolado os limites tradicionais entre imprensa e fontes de investigação. Segundo a publicação, o documento descreve uma colaboração que envolvia vazamentos coordenados, apoio editorial, lobby institucional e consultoria informal entre integrantes do Ministério Público Federal e profissionais da emissora.
De acordo com a reportagem da ConJur, baseada em mensagens reveladas pela série Vaza Jato, a conexão entre a emissora e os procuradores da operação teria ocorrido em diferentes níveis de atuação. O estudo sustenta que havia uma estratégia articulada para influenciar a opinião pública, blindar a imagem da força-tarefa em momentos de crise e impulsionar projetos defendidos pelos procuradores, como as chamadas “Dez Medidas Contra a Corrupção”.
Relatório aponta atuação coordenada
O relatório afirma que a relação operava em quatro esferas: operacional, editorial-estratégica, político-institucional e gerencial-corretiva. As mensagens atribuídas ao ex-procurador Deltan Dallagnol indicariam interlocução frequente com diferentes setores da Globo, desde repórteres até integrantes da alta direção da empresa.
Segundo o estudo, a parceria entre integrantes da força-tarefa e a emissora não se limitava ao fluxo comum de informações entre jornalistas e investigadores. A documentação analisada sugeriria a existência de ações coordenadas para potencializar o impacto político e midiático da operação.
Vazamentos teriam sido planejados para telejornais
No chamado nível operacional, o estudo aponta que a força-tarefa organizava o envio de informações exclusivas à emissora com o objetivo de pautar o debate público. Um dos episódios citados teria ocorrido em julho de 2015, quando Dallagnol orientou colegas a retardarem a divulgação de informações relacionadas a executivos da Odebrecht para garantir exclusividade ao Jornal Nacional.
Segundo o relatório, o documento foi anexado ao sistema da Justiça Federal apenas 11 minutos antes da exibição do telejornal.
Outro caso mencionado envolve o depoimento de um ex-diretor da Petrobras, em setembro de 2016. Conforme as mensagens reproduzidas no estudo, Dallagnol comemorou a possibilidade de o conteúdo atingir o presidente Luiz Inácio Lula da Silva e ser exibido pelo Jornal Nacional na semana seguinte, o que, segundo ele, poderia “ajudar” a investigação.
Jornalistas teriam atuado como consultores informais
Na esfera editorial-estratégica, o relatório afirma que profissionais da Globo teriam atuado como consultores informais da operação. O principal nome citado é o do repórter Vladimir Netto, responsável pela cobertura da “lava jato” na emissora.
Segundo o documento, após a condução coercitiva de Lula determinada pelo então juiz Sergio Moro, em março de 2016, Dallagnol e o procurador Carlos Fernando dos Santos Lima elaboraram uma nota em defesa do magistrado. Antes da divulgação, o texto teria sido enviado a Vladimir Netto para avaliação.
O jornalista sugeriu alterações no comunicado, que foram acatadas pelos procuradores antes da leitura do material no Jornal Nacional.
Aproximação com direção da Globo
O relatório também descreve uma articulação político-institucional entre integrantes da força-tarefa e executivos do Grupo Globo. As mensagens revelariam aproximação com José Roberto Marinho, vice-presidente do conglomerado, e João Roberto Marinho, presidente dos conselhos editorial e institucional da empresa.
De acordo com a ConJur, as conversas envolveram apoio editorial e espaço publicitário gratuito para promover as “Dez Medidas Contra a Corrupção”, projeto legislativo defendido pelos procuradores da “lava jato”.
O estudo afirma que a aproximação começou após um jantar entre o procurador Daniel Azeredo e José Roberto Marinho, quando teria sido discutida a produção de uma série favorável ao projeto no Jornal Nacional.
Posteriormente, segundo o relatório, Dallagnol participou de um almoço reservado com João Roberto Marinho para evitar repercussões negativas à operação. O documento ainda aponta que, após conversas com o colunista Merval Pereira, o jornal O Globo publicou textos favoráveis à pauta defendida pelos procuradores.
Controle de danos em momentos de crise
O estudo também sustenta que a relação entre a força-tarefa e a emissora foi utilizada para gerenciamento de crises institucionais. Um dos episódios destacados envolve a prisão do procurador Ângelo Goulart Villela, acusado de vender informações a investigados.
Segundo as mensagens da Vaza Jato citadas pela ConJur, o então procurador-geral da República, Rodrigo Janot, procurou Dallagnol para obter rapidamente o contato de João Roberto Marinho. O objetivo seria viabilizar uma entrevista à Globo para conter o desgaste institucional provocado pelo caso.
Na sequência, o programa Fantástico exibiu uma reportagem que, de acordo com o relatório, buscava isolar a responsabilidade do procurador preso e preservar a imagem da corporação perante a opinião pública.
Assessores alertaram sobre proximidade
Ainda conforme o estudo, assessores de imprensa do Ministério Público chegaram a alertar formalmente os procuradores sobre a excessiva proximidade com a emissora.
Apesar disso, segundo o documento citado pela ConJur, a relação de colaboração teria permanecido ao longo de todo o período em que a “lava jato” esteve no centro da política nacional.
