Em Veja, encontrei, abri a porteira e entrei na fazenda de Brizola

Mas a revista preferiu não publicar uma linha sobre o achado no Uruguai: fora invasão de domicílio

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É, os tempos mudaram. Corria o ano de 1987. Depois de ter sido repórter na sede em São Paulo, Veja me enviou para Porto Alegre como chefe da sucursal da revista. Ali, certo dia veio a pauta que me levaria ao Uruguai para percorrer os caminhos feitos pelo então governador do Rio de Janeiro, Leonel Brizola, em seu exílio logo após o golpe de 1964. Uma reconstituição. Pairava uma suspeita cheia de certezas, entre os editores da revista, de que Brizola mantinha uma fortuna em imóveis no país vizinho, especialmente uma fazenda que, nos ecos que chegavam à redação, era imensa e valorizadíssima. Ninguém sabia exatamente onde ficava, eu teria de descobrir. Foi comigo o então fotógrafo da sucursal, Adolfo Gerchman.

Estivémos, primeiro, no hotel em que Brizola e família se hospedaram, dias após o golpe, corridos pela ditadura, no centro de Montevidéo. Uma suíte minúscula, mais parecida com aquelas do antigo trem de prata, que aproximava com seu vagão leito Rio e São Paulo. Havia, na habitação provisória de Brizola, dona Neusa e seus filhos uma porta que a unia à suíte vizinha. Esta fora ocupada, naquele momento histórico, pelo casal Maria Tereza e João Goulart. O presidente derrubado e a linda primeira-dama! Naquele cubículo... Unidos aqui, Brizola e Jango também estavam colados lá. O camareiro do hotel, que nos levou até a  habitação com autorização do gerente, disse que durante quase todo o tempo em que as famílias Brizola e Goulart estiveram lá, a porta interna ficava aberta.

Quando a situação se estabilizou e o governo uruguaio garantiu a Brizola sua permanência no país, ele e família rumaram para a vizinha Atlântida, uma praia do rio da Prata com perfil de classe média média, vizinha à capital, de prédios de três andares com pequenos apartamentos, num dos quais passaram a morar. Também estivemos lá.

Dali, sempre de olho no que acontecia no Brasil, o então governador gaúcho cassado, perseguido e exilado mudou-se para um apartamento num simpático prédio de tijolinhos à beira do rio, em Montevidéo. Ficava bem defronte à embaixada dos Estados Unidos que, anos depois, findaria por conceder a Brizola e os seus um visto de entrada e permanência no país. Quase uma questão humanitária. Por mais que fosse bem recebido no Uruguai, pela proximidade com o Brasil o político inflamado tinha o receio, justificado, de que estava sendo vigiado e poderia, a qualquer momento, ser sequestrado pela ditadura brasileira. Igualmente visitei esse apartamento, sem luxo e muito simpático. O síndico do prédio nos deu acesso.

E havia a fazenda de Brizola a descobrir. Foi preciso fazer muitas perguntas para saber onde ela ficava. Naquele 1987, Brizola, então governador do Rio em final de primeiro mandato, costumava passar alguns finais de semana e pequenas temporadas na própria fazenda. A propriedade era quase uma lenda: a misteriosa fazenda de Brizola...

Obtivemos a informação: chamava-se Repetchó (que significa pequena subida) e ficava no departamento de Durazno, no interior do país. Acertamos com um taxista e fomos para a estrada. Talvez duas, três horas de viagem, se me lembro bem. Numa estradinha de terra, depois de muito rodar, veio a pequena elevação e, pouco depois, do nosso lado direito, cercada por arame farpado, vimos as terras de Brizola. Perto das demais à sua volta, todas com grandes extensões, a fazenda mais parecia, na boa, um sítio de final de semana. Tinha uma casa simples e, ao lado dela, uma construção de acabamento humilde com janelão de vidro frontal. Era ali que Brizola gostava de ficar, me disse o caseiro, olhando um pequeno rebanho de ovelhas. Gerchman chegou a fazer a foto, lembro-me do cromo revelado. Para saber isso, tivemos, é claro, de empurrar a porteira de madeira com a mão e entrar. Não havia campainha a tocar. Não me pareceu o caso de berrar para chamar alguém. E eu tinha de entrar! Em fazendas, de resto, muita gente entra assim, abrindo a porteira com as próprias mãos e avançando até encontrar alguém responsável pela propriedade. Foram poucos passos até encontrarmos essa pessoa. Um homem, o caseiro. Ele foi econômico nas palavras e avisou que não poderíamos ficar. Acreditava que o govenador não iria gostar nada daquilo. Agradecemos, voltamos por onde havíamos entrado e retornamos, com a sensação de missão cumprida, para Montevidéo. Escrevi a matéria, que iniciava com um cálculo, em dólares, segundo os valores do mercado imobiliário local, do quanto valiam as propriedades de Brizola no Uruguai (o apartamento e a fazenda). Passei por telex, que não existiam celular, internet para todos, nada disso. Dei o tempo regulamentar para a matéria ser lida e telefonei para o editor de Brasil. “Vocês fizeram um ótimo trabalho”, me disse ele. “Mas não vamos publicar uma linha sequer”. Eu não perguntei nada, e mesmo assim me foi explicado: “O Brizola ligou aqui, disse que Veja invadiu uma propriedade particular dele e que, se sair uma linha, vai processar a revista. Estamos fora!”.

Naquele tempo, o expediente de Veja tinha José Roberto Guzzo como diretor de redação, Elio Gaspari como diretor de redação adjunto e Paulo Moreira Leite como editor de Brasil.

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