HOME > Mídia

Estadão acusa esquerda de "explorar politicamente" sucesso de O Agente Secreto

Para o jornal, a "instrumentalização" pelo campo governista ameaça a autonomia da arte e empobrece o debate cultural no país

Cena do filme O Agente Secreto (Foto: Victor Jucá/Divulgação)

247 - O jornal O Estado de S.Paulo publicou neste domingo (25) um editorial em que acusa setores da esquerda de “explorar politicamente” o sucesso internacional do filme O Agente Secreto, indicado a quatro categorias do Oscar: melhor filme, melhor filme internacional, melhor direção de elenco e melhor ator. Para o jornal conservador, embora a conquista represente um feito relevante para o cinema brasileiro, sua instrumentalização pelo campo governista ameaça a autonomia da arte e empobrece o debate cultural no país.

No texto intitulado “Arte sob tutela”, o Estadão reconhece que as indicações coroam uma trajetória internacional sólida e representam motivo legítimo de celebração. O editorial destaca o trabalho do cineasta Kleber Mendonça Filho e do ator Wagner Moura, além de ressaltar que o reconhecimento reafirma a vitalidade do cinema nacional, especialmente em um país historicamente instável no apoio à cultura.

A crítica central do jornal recai sobre a associação entre o sucesso do filme e a imagem do presidente Luiz Inácio Lula da Silva. O editorial menciona a participação do presidente em uma sessão especial de O Agente Secreto no Palácio da Alvorada, apontando o gesto como exemplo dos riscos de uma relação “demasiadamente próxima – e instrumental – entre cinema, arte e política partidária”. Segundo o texto, quando conquistas artísticas passam a ser usadas como prova do êxito de um projeto de poder, a arte deixa de ser um fim em si mesma.

O Estado sustenta que há um uso político explícito das indicações, como se o filme simbolizasse uma “virada civilizatória” promovida por um governo específico. Para o jornal, esse tipo de leitura ignora que o reconhecimento internacional decorre do talento de artistas que produziram obras relevantes sob administrações de diferentes orientações ideológicas. A apropriação simbólica da arte pelo poder, afirma o editorial, é antiga, mas permanece nociva.

Outro ponto destacado é o impacto da polarização extrema sobre a crítica cultural. De acordo com o Estadão, o ambiente político atual compromete a possibilidade de avaliações estéticas independentes, transformando qualquer análise crítica em ato político hostil ou em suposta traição nacional. Nesse contexto, a crítica deixa de ser um exercício intelectual e passa a ser julgada por critérios ideológicos.

O jornal compara a situação atual a episódios recentes protagonizados pela direita bolsonarista, que promoveu boicotes ao filme Ainda Estou Aqui, de Walter Salles. Segundo o editorial, a rejeição à obra não se baseou em seus méritos ou limitações cinematográficas, mas em sua leitura histórica e política. Agora, afirma o texto, observa-se movimento semelhante à esquerda, com reações agressivas contra qualquer avaliação crítica de O Agente Secreto.

Ao concluir, o Estado de S.Paulo afirma que O Agente Secreto é uma obra ambiciosa e, por isso mesmo, merecedora de escrutínio crítico. O jornal reafirma o mérito de Kleber Mendonça Filho e a qualidade de Wagner Moura, além de defender a valorização do audiovisual brasileiro no exterior. O ponto em disputa, ressalta o editorial, é a liberdade da crítica, a autonomia da arte e a saúde da cultura política no Brasil. Para o Estadão, a arte não necessita de tutela política, mas de liberdade — inclusive para ser contestada.