Fundador do Catraca Livre, Gilberto Dimenstein escreve sobre o câncer que o fez renascer

"Câncer é algo que não desejo para ninguém, mas desejo para todos a profundidade que você ganha ao se deparar com o limite da vida. Não queria ter ido embora sem essa experiência", diz o jornalista, num desabafo tocante sobre sua descoberta de um câncer

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(Foto: Divulgação)


247 – O jornalista Gilberto Dimenstein divulgou nesta segunda-feira um texto tocante, em que fala sobre sua descoberta de um câncer.  "Sonhei com uma mulher dizendo que eu estava com câncer. Sou super-racional, acredito na ciência, na lógica. Mas foi um sonho tão claro que fiquei encasquetado", diz ele, segundo relato publicado pela jornalista Ana Estela Sousa Pinto

Ele conta que tirou o tumor bem no comecinho, o que aparentemente era boa notícia. "Mas, passadas três semanas, ele estava no fígado. Fizemos quimioterapia para operar, mas, em vez de parar, o tumor cresceu. Passei quatro meses de tantas más notícias... muita febre todo dia, comecei a já me preparar para a despedida. Foi o meu período pessimista", relata.

No entanto, com o passar do tempo, ele diz que passou ver a experiência de forma positiva. "Hoje —é até difícil falar ​isso— estou vivendo o momento mais feliz da minha vida. Aquele Gilberto Dimenstein antes do câncer morreu. Nasceu outro.  Câncer é algo que não desejo para ninguém,  mas desejo para todos a profundidade que você ganha ao se deparar com o limite da vida. Não queria ter ido embora sem essa experiência", escreve.

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"Grande parte da minha vida foi marcada pelo culto a bobagens: ganhar prêmio, assinar matéria na capa, o tempo todo pensando no próximo furo. É como se estivesse passando por um lugar lindo num trem em alta velocidade, vendo tudo borrado.  Quando você tem um câncer (ainda mais como o meu, de metástase e de pâncreas, um tipo muito agressivo), não há alternativa. Ou vive o presente ou sua vida vira um inferno", diz ainda Dimenstein.

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"Nós vivemos nos meios digitais a era da indelicadeza, 500 mil pessoas criticando. Eu acabei entrando no mundo das gentilezas. Cada pessoa tem uma palavra, um chá, uma dica de oração, um olhar gentil. O outro mundo vai ficando ridículo. Com ou sem câncer vamos todos morrer, e se pudermos antecipar essa sensação, vamos evitar várias bobagens. A clareza maior da morte é uma dádiva. Não é o fim, mas um começo", pontua. 

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O jornalista conta que, do ponto de vista médico, é um caso de 1% cuja mutação talvez tenha um tratamento promissor. "Em ratos, eliminaram o câncer de pâncreas, e estão começando a testar em humanos, procurando a dose certa. Já me dispus a fazer parte dos testes no Brasil", diz ele. "Voltei a ficar otimista. Ganhei da minha mulher dois ingressos para ver o [músico] Bobby McFerrin nos EUA, em maio. Já estou com planos para o ano que vem. Você volta a ter projetos, é a vida voltando a circular. Eu acho que tenho muita chance, muita chance. Vida após a morte? Se for igual a esta, prefiro que não exista. Se eu acordasse e estivessem lá Trump, Bolsonaro, [primeiro-ministro da Hungria, Viktor] Orbán, não sei se queria, não [risos]", finaliza.

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