Ideologia de Olavo tem origem nos militares, diz professor da UFRJ

Professor da UFRJ, Eduardo Costa Pinto explica à TV 247 que a ideologia de Olavo de Carvalho, 'guru' de Bolsonaro, é, na verdade, do general Sérgio Augusto Avellar Coutinho, cujas ideias ganharam força há cerca de dez anos e hoje dominam boa parte das Forças Armadas; "Para ele, o muro caiu, o comunismo enquanto sistema caiu, mas os comunistas continuam existindo com novas estratégias, que representam o marxismo cultural", diz ele

Ideologia de Olavo tem origem nos militares, diz professor da UFRJ
Ideologia de Olavo tem origem nos militares, diz professor da UFRJ

247 - Quem pensa que toda a ideologia que influencia a família Bolsonaro e parte do governo federal vem exclusivamente do escritor Olavo de Carvalho, que se autodenomina 'filósofo', e que todo o pragmatismo advém dos militares que compõem o governo, está enganado. Marxismo cultural, ameaça comunista e politicamente correto já dominavam o pensamento de boa parte das Forças Armadas desde o início dos anos 2000. O responsável: general Sérgio Augusto Avellar Coutinho, já falecido.

A análise é tema de um artigo do professor do Instituto de Economia da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ), Eduardo Costa Pinto, intitulado "Bolsonaro e os quartéis - A loucura com método" (leia aqui).

Em entrevista à TV 247, Costa Pinto explicou que ambos pensamentos estão ligados à extrema-direita norte-americana. "As ideias do Avellar Coutinho têm proximidade com as ideias do Olavo de Carvalho, e que não é uma criação, uma novidade. Essas ideias estão assentadas no pensamento da extrema-direita norte-americana, essa extrema-direita principalmente construída nos anos 80, e na sua vertente, inclusive, é uma vertente paranoica do marxismo cultural".

O professor da UFRJ descreveu as ideias do general, que afirmava, em seus livros, estar em curso uma revolução comunista. "Qual é a ideia central do Avellar Coutinho? Para ele, o muro caiu, o comunismo enquanto sistema caiu, mas os comunistas continuam existindo com sua estratégia. Qual é a estratégia deles? Realizar uma revolução comunista. O argumento dele é que com o fim do muro os comunistas continuam existindo e voltaram, no caso do Brasil, a atuar dentro dos partidos e que, na verdade, para ele, os intelectuais marxistas mudaram de estratégia".

As "novas estratégias", de acordo com o professor, seriam abalar os valores culturais de forma a criar um senso comum modificado. "Ou seja, agora a revolução não viria mais pela questão da propriedade privada, mas sim pelos valores culturais. Então você estaria incutindo mudança nos valores culturais criando o senso comum modificado e colocando na cabeça dos indivíduos vírus e bactérias associados a maior igualdade, maior liberdade, mudanças familiares e mudanças estruturais. Isso para o Avellar Coutinho seria uma estratégia deliberada dos intelectuais marxistas que estariam criando um senso comum modificado, mudando a cabeça dos indivíduos gerando uma revolução comunista sem precisar das armas".

O professor disse também que a teoria do general ainda passa pelo ex-presidente Fernando Henrique Cardoso e pelo PT. "Se você observar é próximo do Olavo de Carvalho e é próximo de um dos núcleos do governo atual que é o clã Bolsonaro que é, também, próximo aos militares. Na cabeça do Avellar Coutinho estaria em curso, desde que Fernando Henrique chegou ao poder, um movimento comunista. Para ele, ele vai ressuscitar o clássico movimento comunista internacional, juntando com socialistas fabianos e juntando com anarquistas, todos eles estariam em um bloco só. O Avellar Coutinho diz que os governos do PT aprofundaram o processo".

"Arrisco a dizer que, nos militares, lá no início dos anos 2000, a ideia do Avellar Coutinho não era tão potente, isso vai ganhar muito mais força a partir do início de 2010 e 2011. O argumento central dele parte da ideia de que a sociedade estava sendo transformada, o politicamente correto seria igual ao marxismo cultural e que o PT seria um dos braços do movimento comunista internacional no Brasil e que era preciso defender esse processo", prossegue.

Segundo o professor, as ideias do general explicam, inclusive, o alinhamento do governo do presidente Jair Bolsonaro com os Estados Unidos. "Os militares enxergam hoje que nós já estaríamos em uma quarta guerra mundial, a guerra tecnológica, então alguns deles estariam buscando um alinhamento com os Estados Unidos porque, dentro desse padrão dessa quarta guerra, nós teríamos que escolher um lado dado nossas fragilidades".

Eduardo Costa Pinto ressaltou que há diferenças no pensamento econômico do general Avellar Coutinho e de Olavo de Carvalho. "O clã Bolsonaro e o Olavo de Carvalho seguem integralmente a visão da extrema-direita norte-americana e a direita dos anos 30. A ideia de pequeno Estado, por isso chamado de coletivismo de direita. É um Estado pequeno mas ao mesmo tempo dos valores familiares muito fortes, o capitalismo muito mais controlado pelos valores e qualquer efeito externo que modifique as estruturas estabelecidas é considerado negativo. Por isso que a política externa e comercial não são globalistas, por isso que o atual ministro das Relações Exteriores vai defender a ideia do antiglobalismo. Por outro lado, o Avellar Coutinho e o Mourão vão partir da ideia de que existe um exagero da ideia de que a globalização é ruim para a periferia, é muito a visão dos anos 90, a ideia de que você abre o comércio, você abre o investimento, atrai o investimento, atrai tecnologia, vamos copiar essa tecnologia e vamos dar o salto".

O professor da UFRJ ainda comenta a possibilidade de um golpe por parte do vice-presidente, Hamilton Mourão, em Bolsonaro. "O Exército tem na sua formação histórica que toda essa elite brasileira é corrupta e que eles são os aptos, os técnicos, a realizar essa mudança. Isso é histórico da sua formação, é histórico até hoje. Isso vai ganhar um peso, por isso que o Avellar Coutinho volta com força, dado o efeito da Lava Jato. Isso vai disseminar a ideia da corrupção e com o impeachment, o golpe parlamentar de 2016, supostamente estaria resolvido, mas o efeito Joesley vai levar uma implosão dentro do sistema. Por isso que Mourão vai apresentar a possibilidade de um golpe efetivo".

Ele avalia, no entanto, que o próprio Exército não tem interesse em tomar o poder de forma total, tirando Bolsonaro da presidência, mas sim continuar governando tendo um presidente eleito à frente. Em sua visão, Mourão pode até apresentar um risco de golpe, por se colocar tão à disposição de assumir e deixar tão claro seu contraponto ao presidente, mas esclarece que isso não é algo defendido pelos outros militares que compõem a cúpula do governo federal atualmente. 

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