Jean Wyllys: Fui uma cobaia de laboratório de desconstrução de imagem nas redes sociais

Em entrevista ao Jornal Extra Classe, o ex-deputado fala sobre seu novo livro "O que será", o convite que recebeu para lecionar em Harvard e conta que continua recebendo ameaças, motivo que o fez deixar o Brasil. "Sim e infelizmente. Meus inimigos estão no poder"

(Foto: Foto: Agência Brasil)

Por Marcelo Menna Barreto, do Jornal Extra Classe - Reeleito para o seu terceiro mandato como deputado federal nas eleições passadas, Jean Wyllys decidiu não assumir e buscar um autoexílio em Berlim, Alemanha, após o assassinato da vereadora carioca Marielle Franco, ocorrido em 2018. À época, recebia centenas de ameaças de morte ao ponto de precisar andar acompanhado da segurança legislativa, mas percebeu que – de fato – o risco de perder sua vida no embate contra a intolerância era mais real do que imaginava.

De um parlamentar eleito por internautas o melhor deputado federal do Brasil, em 2012 e 2015, e classificado pela revista inglesa The Economist como uma das 50 personalidades que mais lutam pela diversidade no mundo, Wyllys viu seu mundo começar a desmoronar quando, em suas palavras, passou a ser uma espécie de laboratório de desconstrução de imagem nas redes sociais, a exemplo das colegas deputadas Erika Kokay e Maria do Rosário (ambas do PT) e de outros personalidades de esquerda.

Nessa entrevista, por ocasião do lançamento do livro O que será – a história de um defensor dos direitos humanos no Brasil (Objetiva), escrito em parceria com a jornalista Adriana Abujamra, sobram críticas inclusive para a esquerda, campo ideológico deste que agora inicia um semestre como professor visitante da universidade de Harvard, onde falará sobre, ironicamente, fake news e discursos de ódio. É o quinto livro de Jean que em 2005 foi o campeão temporada do Big Brother Brasil e surpreendeu a todos seguindo um rumo diferenciado dos chamados ex-BBBs, uma tão exitosa quanto polêmica caminhada na política parlamentar.

Extra Classe – Você foi o único homossexual assumido no Congresso por quase dez anos. Em pleno século 21, pagou um preço por isto. Tirando os discursos de ódio e fake news, que outras resistências você teve que enfrentar para exercer o seu mandato?
Jean Wyllys – Todas as reações – e eu prefiro esta palavra à resistências, pois, resistência tem mais a ver com minha postura diante dos ataques de reacionários – que enfrentei ao longo dos meus dois mandatos e, antes destes, quando me tornei famoso por meio de um programa de televisão, estão entrelaçados entre si por um fio chamado homofobia. Esta se expressou e se expressa de diferentes formas, desde a sua forma inconsciente até a forma da tortura psicológica e da violência física, passando por sua forma institucional, costurando um tecido de violências que cobriu e cobre não só um indivíduo – eu, no caso – mas o coletivo do qual eu faço parte – a comunidade LGBTQ, sexo-diversa – e que representava no cenário político.

EC – Você falou agora de formas inconscientes de reação. Pode dar exemplos?
Wyllys – Os gays, lésbicas e travestis que se somam aos reacionários homofóbicos que me atacaram e atacam de diversas formas, principalmente com o uso de calúnias, fake news e distorções, não conseguem perceber que, no fundo, estão apoiando seus próprios inimigos, atacando a si mesmos, pois o motivo dos ataques reacionários contra mim não é outro que o fato de eu ter orgulho de ser gay e de pertencer à comunidade LGBTQ e reivindicar uma igualdade radical entre heterossexuais cisgêneros e esta comunidade no acesso aos direitos. As fakes news contra mim existem justamente para mascarar esse real motivo.

EC – Quase que uma espécie de fogo amigo?
Wyllys – E não são só a direita e extrema-direita que se incomodaram e se incomodam com essa reivindicação e com o fato de eu saber fazê-la bem – o que faz com que, ante a impossibilidade de vencer meus argumentos, elas me acusem de “bicha arrogante”, insulto que expressa bem a inveja de quem não admite que LGBTQs possam saber mais. Também a esquerda se incomoda com a reivindicação que faço da igualdade radical entre heteros cisgêneros e LGBTQs no acesso a direitos.

EC – Você falou uma vez de esquerdo-machos.
Wyllys – Os esquerdo-machos também são reacionários de gênero e não admitem que um homem gay se destaque mais que eles. Principalmente setores do PT, do PC do B e do PSOL (setores, que fique claro, mas setores bem militantes e diligentes). Também gente do PDT, PSB e PCO aproveitaram uma visita minha a Israel (a convite da esquerda israelense pró-Palestina para palestrar na Universidade Hebraica de Jerusalém, visitar os assentamentos palestinos e conhecer suas lideranças) para destilar todo seu ódio homofóbico recalcado contra mim; deixaram suas máscaras caírem e inundaram as minhas redes sociais com uma avalanche de fake news e insultos, que inclusive retornou com força na campanha eleitoral de 2018. Você não pode imaginar o horror. Era uma mistura assombrosa de homofobia, antissemitismo e ignorância! Descobri, nessa ocasião, que a quantidade de gente burra, antissemita e homofóbica que a esquerda abriga só não é maior do que a da direita e a da extrema-direita, mas é grande!

EC – É que os ataques do Estado de Israel a causa Palestina sensibiliza muito, não?
Wyllys – Para que não reste dúvida de que se tratava do retorno de um ódio homofóbico recalcado, basta lembrar que Lula, em sua função de presidente do país, disse, com todas as letras, que o Brasil era um país “irmão de Israel”, e não houve qualquer ataque ou insultos à sua pessoa por parte desses setores dos partidos de esquerda a que me refiro. E não deveria haver! Lula estava fazendo diplomacia. Quando fiz a visita a Israel, eu era membro da Comissão de Direitos Humanos e da Comissão de Relações Exteriores e Defesa Nacional, além de tudo. Ela poderia ter sido encarada como uma atividade parlamentar do exercício da diplomacia. Mas não foi porque se tratava de mim, um gay. Por trás das “acusações” de “sionista” e de que eu estava sendo “comprado pelos judeus” – expressões de um antissemitismo e uma ignorância atrozes – o que havia era a homofobia.

EC – Interessante isso. Mais alguma coisa desse episódio seu em Israel?
Wyllys – O curioso é que, na mesma ocasião, a direita judaica e os neopentecostais homofóbicos e contrários à causa palestina tentavam boicotar minha ida a Israel e também espalhavam fake news nesse sentido, como a de que eu apresentei projeto de lei para obrigar o ensino do islamismo nas escolas brasileiras. E também eu não pude ir à Faixa de Gaza porque, lá, eu correria enorme risco de morte por ser um ativista LGBTQ, uma vez que as lideranças da resistência palestina são fundamentalistas islâmicos e punem a homossexualidade com a morte. Enfim, enfrentei muitos reacionários. Mas continuo de pé.

EC – Falando em fake news, a revista Veja reconheceu em matéria de capa que você estava nos top 10 vitimados por essa prática. No seu caso, em uma entrevista emocionada que deste para Pedro Bial, você diz acreditar que serviu de uma espécie de laboratório para tudo o que aconteceu nas eleições de 2018. Poderia no explicar melhor essa sua visão?
Wyllys – O fascismo, para se erguer, necessita fabricar inimigos ou, especialmente, um inimigo, grupos ou pessoa que possam ser usado como catalisador dos medos, ansiedades e frustrações das maiorias, a partir de calúnias, distorções e teorias conspiratórias – matérias-primas das fake news – contra eles ou contra ele. Eu representava, portanto, uma cobaia perfeita para o teste do que seria feito contra os principais candidatos da esquerda nas eleições de 2016 e de 2018 em termos de campanha baseada em ódio. Deu certo. E a partir desse experimento, do qual também foram cobaias, com menos frequência, as deputadas Erika Kokay e Maria do Rosário, que me apoiavam em uma agenda liberal nos costumes, a extrema-direita brasileira, orientada pela extrema-direita dos Estados Unidos, que já estava intervindo em processos decisórios na Europa e no Caribe, construiu a campanha odiosa que conseguiu transformar toda a esquerda em “inimiga da pátria” para a maioria do eleitorado e derrubar seus principais candidatos nas eleições, dando votação acachapante não só à família Bolsonaro, protagonistas da extrema-direita, mas a imorais, fundamentalistas ignorantes e fascistas em todo país.

EC – A agenda de “costumes” de quem venceu as eleições pegou forte, não?
Wyllys – Sim. Além de eu ser o porta-voz nacional de uma agenda política liberal nos costumes, mas socialista em se tratando da economia, que incluía a defesa do casamento civil igualitário, a legalização do aborto, a regulamentação da prostituição – que deve ser distinta de exploração sexual de mulheres e crianças, crimes que precisam ser combatidos, inclusive a regulamentação da prostituição ajudará a combate-los, a legalização e regulamentação do consumo e comércio de maconha, a descriminalização do porte de drogas ilícitas para consumo, o parto humanizado, o direito à identidade de gênero por parte de pessoas trans, a educação sexual nas escolas para evitar gravidez precoces e infecções sexualmente adquiridas, a inclusão de imigrantes no mercado de trabalho e a defesa de religiões minoritárias, como a Umbanda e o Candomblé, o judaísmo e o islamismo; além disso, e de tocar essa agenda toda com competência e habilidade na comunicação, eu era e sou um homem gay com orgulho e  gay num país em que as famílias quando não mandam seus filhos LGBTs para “tratamentos” psicológicos expulsam-nos de casa ou até os matam.

EC – A forma como você narra essa sua experiência mostra que realmente a barra pesou.
Wyllys – Tudo isso já fazia com que os conservadores me vissem com desconfiança e tivessem um pé atrás em relação a mim, pois, minha existência e atuação provocavam e desfiavam seus preconceitos. Esses sentimentos foram sendo manipulados por meio de fake news contra mim – reafirmadas em púlpitos e tribunas Brasil a fora – pelos líderes das igrejas neopentecostais, principalmente os líderes das que tinham e têm representação no poder legislativo em todo Brasil, e por lideranças dos partidos de direita e de aluguel de modo a me transformar em inimigo público necessário para cooptação fascista do eleitorado. Você poderia me perguntar: como a esquerda não notou o que estava acontecendo? Como ela permitiu que isso se passasse?

EC – Ok, boa pergunta, diga.
Wyllys – Ora, porque ainda há muita homofobia e racismo também em partidos de esquerda, e essa homofobia e esse racismo impediram que as lideranças desses partidos tratassem o ataque reacionário da direita e da extrema-direita contra mim como um ataque à esquerda como um todo; trataram esses ataques como algo pessoal e nunca organizaram uma defesa coletiva para mim e para as deputadas. Nem mesmo nossos partidos. Num país em que os crimes de ódio contra LGBTQs são quase epidêmicos e naturalizados, quem vai se importar de verdade com a destruição pública do representante dessa comunidade? Tentei alertar as lideranças e parlamentares dos partidos de esquerda sobre o que estava se passando na sociedade brasileira; escrevi vários textos sobre isso; fiz inúmeras postagens… Para mim, parecia óbvio que se a esquerda não levasse a sério o que extrema-direita estava fazendo conosco e com as minorias sexuais, étnicas e religiosas, Bolsonaro seria o presidente da República. Disso isso algumas vezes. Mas quem, na esquerda, leva mesmo a sério o que diz uma bicha? Ao contrário, quando ela fracassou nas eleições, muitos dos seus líderes correram para nos culpar. Não aprenderam nada.

EC – Entrando na agenda das fake news. Até então elas foram primordialmente uma arma da extrema direita; foi assim no nazi-fascismo, hoje é fortemente utilizada pelos novos “nacionalistas” como Trump, Salvini, Orban e Bolsonaro. Só que agora, também vemos, de certa forma, essa arma se voltar contra seus criadores, com fake news também sendo propagadas pela esquerda. Como você vê isto?
Wyllys – Acho que fake news são nocivas venham de onde vierem. Propagar notícias mentirosas contra fascistas não nos ajuda, ao contrário. O apagamento ou confusão das fronteiras entre fatos e opiniões, entre dados e falsificações, entre ciência e mistificação, entre filosofia e proselitismo religioso, entre jornalismo e propaganda só fortalece o fascismo.

EC – Curioso que foi Trump que cunhou essa expressão para buscar jogar descrédito para cima da imprensa; Bolsonaro segue a mesma linha, chegando a dizer que se o Brasil virar uma Venezuela a culpa é da imprensa. Qual a sua opinião?
Wyllys – Os fascistas nunca gostam da imprensa livre e honesta, das artes e das ciências. Estas fortalecem a democracia, e quando a democracia está forte o fascismo tem que se contentar com o esgoto da política. Ou, para usar outra metáfora, elas são as defesas que impedem o corpo social de adoecer com o vírus do fascismo, que o mantêm inócuo em regiões do sistema nervoso das sociedades, mas sempre com o potencial de, afetadas essas defesas, voltar a agir com virulência e letalidade assombrosas.

EC – Em seu livro, você fala do seu autoexílio. Como está sendo morar fora do Brasil nesse período tão confuso de nossa história?
Wyllys – Uma longa insônia, como disse Victor Hugo do exílio. Mas também uma oportunidade de reinvenção de mim mesmo.

EC – Em geral, como o povo europeu está vendo o Brasil?
Wyllys – Fora dos círculos intelectuais e artísticos, os europeus têm vagas ideias sobre o Brasil, mas uma delas é a de que temos como presidente uma das pessoas mais vis do planeta, que é uma ideia vaga, mas verdadeira.

EC – Sem querer voltar, mas já voltando ao assunto fake news, até a sua saída do Brasil – além da comemoração de alguns – rendeu a notícia de que você teria “vendido” o seu mandato para o David Miranda, esposo do jornalista Gleen Greenwald que está colocando à limpo todo o processo conduzido por Sérgio Moro e Deltan Dallagnol na Lava Jato. Como encara isto?
Wyllys – Como você quer que eu encare? Não é nada bom ser alvo de uma calúnia dessas e ser insultado por conta dela. Essa mentira absurda não é mais grave que as demais perpetradas contra mim. É uma calúnia sórdida feita por criminosos que integram o governo Bolsonaro e espalhada pelos imbecis que lhe apoiam nas redes sociais. Acredito numa justiça cósmica, então, espero que cada um que espalhou a mentira de má fé e me insultou mesmo sabendo se tratar de uma mentira comece reparar na vida de seus irmãos, filhos e parentes o retorno do que fizeram comigo.

EC – Qual a sua opinião sobre as reportagens produzidas pelo The Intercept em relação a Lava-Jato?
Wyllys – Necessárias. Confirmam o que já suspeitávamos em relação à Lava Jato, que ela constituía um partido clandestino de direita feito por funcionários do Ministério Público e por juízes que participaram ativamente, com a cumplicidade da Globo, do golpe contra Dilma.

EC – O início da sua formação política se deu nas pastorais sociais da Igreja Católica. Você um dia imaginaria que a principal referencia para a esquerda mundial seria a voz moral de um Papa? (risos)
Wyllys – Sim. Já naquela época eu esperava por um papa mais próximo do exemplo de São Francisco, que, por sua vez, buscava imitar Jesus em sua luta contra as injustiças sociais, a inclusão das minorias e defesa da natureza. Esse papa veio, mesmo que antes de ser Francisco ela tenha sido o homofóbico Bergoglio na Argentina. Acredito na transformação das pessoas ou que elas podem simplesmente despertar para seu papel na história.

EC – O assassinato da vereadora Marielle Franco foi realmente o fato determinante para o seu autoexílio?
Wyllys – Sim. Detalho isso no meu livro, O que será, já nas livrarias. Seria bom que as pessoas o lessem.

EC – O subtítulo do seu livro é: A história de um defensor dos direitos humanos no Brasil. Como você encara a realidade de que cada vez mais se propaga ideias de que os direitos humanos servem para defender bandidos?
Wyllys – Como um desafio. Se não recuperarmos a ideia de que os Direitos Humanos são fundamentais à civilização, o horrores se multiplicarão em bem pouco tempo.

EC – Por ironias da vida, você foi convidado para lecionar em Harvard sobre fake news e discursos de ódio. Como foi esse convite e como você pretende encarar esse desafio?
Wyllys – Eu sou professor-pesquisador visitante em Harvard. Fui convidado por tudo que represento, já disse e tenho a dizer sobre as questões de sexualidade, gênero e raça; por tudo que sei sobre política; por minhas habilidades literárias; para compartilhar com outros pensadores e pesquisadores os resultados de um estudo; e para usar a infra-estrutura da universidade – a mais rica do mundo – em favor de minhas atividades intelectuais. Ou seja, estou aqui por mérito e porque a Harvard – e o Alari do Hutchins Center (Nota da redação: Afro-Latin American Research – Centro de Pesquisas Afro e Latino Americanas) em particular – tem um compromisso de garantir que intelectuais ameaçados em seus países continuem trabalhando, ao menos por um tempo. Mas Harvard é só a mais rica das grandes universidades por onde já passei. Eu estive antes na Sorbonne e na École de Hautes Études em Sciences Sociales, em Paris, só para dar dois exemplos. Em todas elas, eu concilio o que tenho a dizer com o muito que tenho a aprender. Sou um eterno aprendiz.

EC – Não faltou obviamente aqueles que, logo na sua saída o chamaram de covarde e vitimista e que, agora, dizem que o George Soros comprou a vaga de professor em Harvard pra você. O que você fala disso?
Wyllys – Não perco meu tempo com imbecis, invejosos nem mentirosos.

EC – Você saiu do Brasil acusando estar recebendo ameaças de morte; o mesmo aconteceu com a filósofa Marcia Tiburi. Você continua recebendo essas ameaças?
Wyllys – Sim e infelizmente. Meus inimigos estão no poder.

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