Le Monde: Amazônia paga o preço da política de Jair Bolsonaro

Jornal francês destaca que quase 74.000 incêndios foram registrados desde janeiro no Brasil, um aumento de 84% em relação a 2018 do mesmo período, como consequência da política de Jair Bolsonaro

247 - O jornal francês Le Monde publicou reportagem nesta sexta-feira, 23, em que denuncia o aumento exponencial do número de queimadas na Floresta Amazônica, que tem mobilizado a comunidade internacional. 

Para o Le Monde, a tragéda na Amazônia é consequência da política de Jair Bolsonaro. 

"Sob Jair Bolsonaro, as queimadas atingiram seu nível mais alto em sete anos. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, instituto público) registrou quase 74 mil focos de incêndios em todo o Brasil desde o início do ano, e até 21 de agosto, um aumento de 84% em relação a 2018. Mais da metade (52,5%) desses incêndios ocorrem na Amazônia, onde seu número dobrou, provocando um alvoroço internacional. Em Rondônia, enterrada na fumaça, um incêndio teria durado mais de quinze dias, alimentado pela seca, consequência do intenso desmatamento que privou o Estado amazônico de metade de suas áreas florestais ... Um círculo vicioso", diz trecho da reportagem. 

Leia, abaixo, a matéria na íntegra, traduzida para o 247 por Sylvie Giraud:

Incêndios: Amazônia paga o preço da política do presidente brasileiro

Quase 74.000 incêndios foram registrados desde janeiro no Brasil, um aumento de 84% em relação a 2018 do mesmo período.

Desde a manhã desta segunda-feira, 19 de agosto, o céu cobriu-se de uma cor amarelada incomum em São Paulo. Passava um pouco das 15 horas quando a maior cidade do Brasil e seus arredores caíram na escuridão. "Um 19 de agosto com ares de 11 de setembro", alarmou-se Mauro Paulino, diretor do instituto de pesquisas Datafolha, no Twitter. "Talvez esteja apenas delirando!” ironizava ele, diante da indiferença da mídia. Naquele dia, até a garoa, a característica garoa da cidade, não era mais a mesma: a água da chuva era negra. A análise das amostras concluiu que havia partículas típicas da queima de matéria vegetal.

Enquanto todos os olhos estavam voltados para a Amazônia em chamas, Ricardo Salles, ministro do Meio Ambiente de Jair Bolsonaro (extrema direita), queixava-se do "sensacionalismo". Os satélites da NASA são, no entanto, taxativos. Uma camada de fumaça da floresta amazônica, bem como de países vizinhos como a Bolívia - onde 470 mil hectares pegaram fogo em poucos dias na Chiquitania, uma região no departamento de Santa Cruz de la Sierra – veio de fato instalar-se não só sobre o  Estado de São Paulo, mas também do Mato Grosso do Sul e do Paraná, e isso por meio da passagem de uma frente fria, esclarece Joselia Pegorim, meteorologista do Climatempo, um serviço de meteorologia privado.

Até mesmo o Instituto Nacional de Meteorologia, vinculado ao Ministério da Agricultura, acabou reconhecendo o impacto das queimadas, dos incêndios florestais, sobre as condições atmosféricas da megalópole brasileira. "O governo, no entanto, tentou associar este fênomeno aos incêndios da Bolívia e do Paraguai. Ora, observações por satélite mostram que os incêndios na Amazônia e no cerrado, que faz fronteira com a floresta, são muito mais numerosos agora, diz Pedro Côrtes, professor do Instituto de Energia e Meio Ambiente da Universidade de São Paulo. O céu e as chuvas de fuligem que assombraram São Paulo revelam o quotidiano desse Brasil "invisível". Foi necessário que o dia se transformasse em  noite na capital econômica para que fosse dado o grito de alerta.

Especulação fundiária

Sob Jair Bolsonaro, as queimadas atingiram seu nível mais alto em sete anos. O Instituto Nacional de Pesquisas Espaciais (INPE, instituto público) registrou quase 74 mil focos de incêndios em todo o Brasil desde o início do ano, e até 21 de agosto, um aumento de 84% em relação a 2018. Mais da metade (52,5%) desses incêndios ocorrem na Amazônia, onde seu número dobrou, provocando um alvoroço internacional. Em Rondônia, enterrada na fumaça, um incêndio teria durado mais de quinze dias, alimentado pela seca, consequência do intenso desmatamento que privou o Estado amazônico de metade de suas áreas florestais ... Um círculo vicioso.

Desde o início da semana, a hashtag #prayforamazonas está entre as mais comentadas no Twitter - muitas vezes usando imagens antigas ou mostrando outras regiões para denunciar os incêndios em andamento. Porque a Amazônia - abrangendo nove países, mas cuja extensão é detida pelo Brasil sozinho em 60% - é um patrimônio que interessa a toda humanidade. A floresta armazena enormes quantidades de CO2, liberadas na atmosfera com sua destruição - para dar lugar a terras agrícolas e pastagens – processo que se acelerou com a extrema-direita no poder.

Para Jair Bolsonaro, combater o desmatamento é jogar contra o interesse nacional", diz Marcio Astrini, responsável pelas Políticas Públicas do Greenpeace. Então...ele o encoraja. E uma das maneiras de abrir as terras ao cultivo na Amazônia, é incendiando-a.” “Na Amazônia, quase não há fogo que não seja voluntário”, acrescenta Ane Alencar, do Instituto de Pesquisa Ambiental da Amazônia (IPAM). Os dez municípios que mais desmataram em 2019 são também aqueles em que os incêndios foram os maiores, afirma o IPAM. O fogo é usado para "limpar" a área, uma vez extraída a madeira, o mesmo serviria para fertilizar o solo ...

A agricultura e o cultivo da soja - o Brasil é o maior exportador de grãos, assim como de carne bovina, especialmente para a Europa - são os principais propulsores da destruição da maior floresta tropical do mundo, aos quais deve ser acrescentada a especulação fundiária movida pelos grileiros, que se apropriam das terras do Estado. "Máfias estão trabalhando para dizimar a floresta", diz Marcio Astrini. E o desmatamento não vem sozinho. Na sua esteira há a violência, a pobreza, o trabalho escravo."

Após um pico em 2004 (quase 28 mil km2 desmatados), o Brasil conseguiu reduzir em 80% a destruição da Amazônia, graças às políticas da ecologista Marina Silva, ex-ministra do Meio Ambiente de Lula (2003-2011). Mas o desmatamento foi relançado com a adoção em 2012 de um novo código florestal que anistiou parte dos responsáveis e intensificou-se com a crise econômica.

Fim dos controles

Jair Bolsonaro, por sua vez, atraiu o poderoso lobby agrícola, fazendo campanha em favor do afrouxamento dos controles do IBAMA, órgão responsável pela aplicação das leis ambientais. "Mal chegou a Brasília, cumpriu sua promessa", diz um ativista. Os orçamentos do IBAMA viram-se amputados e suas missões de fiscalização tornaram-se cada vez mais raras. O próprio ministro Ricardo Salles, acusado de conluio com a indústria de mineração, anunciou a revisão de todas as áreas sob proteção, enquanto o Presidente, ele, se dizia favorável à exploração do rico subsolo das reservas indígenas.

O resultado não demorou a chegar. Segundo dados preliminares do INPE, que mede a remoção de vegetação por satélite, o desmatamento da Amazônia aumentou em 50% desde janeiro. Só em junho, desde o início do período da seca, o aumento foi de 88% e depois ... 278% em julho, ou 2.254 km2 de floresta transformados em fumaça em apenas um mês. “Estatísticas falsas", acusou o Presidente, que demitiu o diretor do INPE. Confrontado com o surto das queimadas, o ex-militar reagiu com sua truculência habitual, acusando...as próprias ONGs de encorajar incêndios contra o seu governo, que lhes cortou os fundos públicos. "Dos repasses de fora..não tem mais", disse Bolsonaro. Alusão ao Fundo Amazônia, que vem financiando programas de preservação desde 2008.

Para protestar contra a nova política do Brasil, a Noruega, principal país doador, suspendeu em meados de agosto uma contribuição adicional de 30 milhões de euros. Alguns dias antes, a Alemanha tinha feito o mesmo. A França, por sua vez, exige o cumprimento dos compromissos assumidos pelo Brasil no âmbito do Acordo Climático de Paris para endossar um Acordo de Livre Comércio entre a UE e o Mercosul (o Mercado Comum do Cone Sul), anunciado em junho. Mas esse acordo parece agora distante. "Nesse ritmo, é provável que fenômenos como o que vimos em São Paulo piorem", adverte Marcio Astrini, do Greenpeace. Quando desmatamos a Amazônia, todo o planeta é lesado, mas é especialmente na própria Amazônia, em todo o Brasil e na América do Sul que os efeitos são mais sentidos."

Assista à reportagem do Le Monde sobre o assunto:

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