Mídia internacional dá o troco nos britânicos

Cerca de 40 mil jornalistas e técnicos de todo o mundo estão cobrindo as Olimpíadas de Londres. Reunidos, eles não perdem um detalhe

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A imprensa não costuma usar de fair play quando se trata de criticar o que não gostou ou tem diferenças históricas para acertar. Na abertura das Olimpíadas de Londres, não foi diferente. Muitos jornalistas não perderam a chance de dar o troco no Reino Unido, porque os britânicos são quase sempre ferinos nas críticas a eventos de outros países.

Cerca de 40 mil jornalistas e técnicos de todo o mundo estão cobrindo as Olimpíadas de Londres. Reunidos, eles não perdem um detalhe, compartilhando impressões pouco lisonjeiras sobre o país anfitrião, segundo reportagem de domingo do jornal inglês Sunday Times.

Na Rússia, os jornais admitem que os ingleses são retratados como uma nação tão relutante em acolher o evento que cerca de 4 milhões teriam escapado para o exterior, para fugir da confusão. "Podemos nos orgulhar em ser abertos para negócios, mas o que realmente significa incluir a afluência de prostitutas, identificadas em sites de notícias?", pergunta o Sunday Times.

"Nossa apatia é tão palpável, diz o Times, que o Al Ittihad, jornal com sede nos Emirados Árabes Unidos, afirma que "no mundo árabe, nós colocamos mais anúncios para o Ramadan do que Londres colocou sobre as Olimpíadas".

O jornal inglês admite que não causou nenhuma surpresa, então, o jornal alemão Frankfurter Allgemeine Zeitung, normalmente sisudo, dar uma irônica estocada, sugerindo que em vista das baixas expectativas dos ingleses nas Olimpíadas, eles se qualificam como o público perfeito para assistir aos jogos. "Eles já experimentaram o fracasso das gerações de seus compatriotas em esportes como tênis ou futebol - mas nunca perderam o entusiasmo para assistir as partidas".

A revista semanal alemã Der Spiegel relata reclamações sobre os preços incrivelmente altos dos hotéis e diz que um motorista de táxi a procurou para lucrar, oferecendo para alugar o táxi como uma acomodação durante a noite.

O La Repubblica, em Roma, detecta "tragicômicas falhas na segurança, greves de transporte e atrasos" e prognostica: "Os próximos 15 dias dirão se estas foram falhas perdoáveis. . . ou os sinais de alerta de um sistema que não funciona mais".

Segundo o Sunday Times, essa é a pergunta crucial sobre a Londres e a Grã-Bretanha de hoje, que abriu os Jogos Olímpicos com a pior recessão em 50 anos, depois de escândalos com grampos telefônicos ilegais e corrupção policial, e "mais desagradável em relação aos estrangeiros que fizeram sua riqueza, e sempre mais eurocéptica* e mais fechada em si mesma".

Segundo o Times, a imprensa canadense deu uma pista para a vingança, motivando alguns críticos. Um colunista de um jornal do grupo Postmedia alertou: "Os ingleses não trataram amavelmente o Canadá há dois anos [desde as Olimpíadas de Inverno em Vancouver], é verdade. . . Mas isso não significa que os canadenses devam se rebaixar para um nível semelhante de grosseira zombaria."

Isso não dissuadiu os meios de comunicação indianos. Ainda ofendidos sobre a cobertura dos caóticos Jogos da Comunidade Britânica de 2010, em Nova Deli, que destacou o lamentável saneamento dos quartos dos atletas, o Hindustan Times dedicou uma página inteira para as falhas de Londres na preparação para os Jogos. Sob o título mordaz "A capital do caos", o artigo alegremente destacou tudo o que tinha ou poderia acontecer de errado da segurança ao tempo e ao transporte.

Na África do Sul, o ressentimento paira sobre os pessimistas que duvidavam da capacidade do país para sediar uma bem sucedida Copa do Mundo de futebol em 2010. Jornais independentes associaram a atmosfera em Londres àquela da África do Sul, antes do apito inicial "O estoque nacional de vergonha está sendo acumulado para o evento [com medo de se igualar a Pequim]."

Mas o veneno dos jornais do exterior em relação às Olimpíadas chega até a escalação do English Team. Continuando com o tema do futebol, diz o Times, o maior jornal diário da Suécia, o Aftonbladet, condena a decisão de não incluir David Beckham no time olímpico da Grã-Bretanha. "Só tê-lo no campo já traria muito brilho e glamour para as Olimpíadas", disse o jornal

O jornal dominical inglês, nesse giro pela mídia internacional, também andou por aqui. "Para o Brasil, julho de 2005 será sempre associado ao assassinato de Jean Charles de Menezes, erradamente identificado como suspeito de terrorismo. O site de esporte da Rede Globo disse que a Olimpíada representa exatamente "o primeiro passo concreto para um reencontro com a paz que tem sido incerta desde o primeiro dia do ciclo olímpico (em 2005), quando ataques terroristas deixaram os londrinos com um sentimento de vulnerabilidade que ainda não foi superado."

O Times encerra esse overview sobre a mídia internacional dizendo que os franceses, que perderam a candidatura para Londres, como sede das Olimpíadas de 2012, em sua maior parte, abraçaram os Jogos Olímpicos com entusiasmo. No entanto, "o Le Monde, bíblia dos intelectuais parisienses, ficou feliz em dar uma estocada. Um dos correspondentes do jornal descreveu o evento como outro exemplo da mania consumista sem alma do mundo anglo-saxão e sugeriu que os Jogos estariam promovendo mais negócios do que qualquer espírito olímpico. "Antes que você possa encontrar o Estádio Olímpico, você tem que andar centenas de metros até um centro comercial," alfinetou o jornal francês.

*Euroceticismo é um termo cunhado em 1980, pela mídia britânica, para significar a doutrina dos que relutam em aceitar a União Europeia, mantendo seu país fora do grupo.

João José Forni é jornalista, consultor de comunicação e editor do site www.comunicacaoecrise.com

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