Morre o empresário Domingo Alzugaray, fundador da Editora Três

Faleceu, nesta segunda-feira 24, o empresário Domingo Alzugaray, um dos empreendedores mais marcantes da imprensa brasileira; fundador da Editora Três, Alzugaray criou publicações como Istoé, Dinheiro, Planeta, Dinheiro Rural e Status, por onde passaram grandes talentos da imprensa brasileira; Domingo deixa a esposa Cátia e os filhos Caco e Paula Alzugaray; o velório será realizado nesta terça-feira 25, no crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra (SP), a partir das 11h, com cerimônia de cremação às 14h

Domingo Alzugaray
Domingo Alzugaray (Foto: Leonardo Attuch)

247 – Faleceu, nesta segunda-feira 24, aos 84 anos, o empresário Domingo Alzugaray, um dos empreendedores mais marcantes da imprensa brasileira.

Fundador da Editora Três, Alzugaray criou publicações como Istoé, Dinheiro, Planeta, Dinheiro Rural e Status, por onde passaram grandes talentos da imprensa brasileira.

O velório será realizado nesta terça-feira 25, no crematório Horto da Paz, em Itapecerica da Serra (SP), a partir das 11h, com cerimônia de cremação às 14h.

Domingo deixa a esposa Cátia e os filhos Caco e Paula Alzugaray.

247 reproduz, abaixo, trechos de um perfil publicado em dezembro de 2012, quando a Editora Três completou 40 anos:

Os 40 anos da Três começaram em 2 fevereiro de 1972, quando Domingo Alzugaray, vindo de uma profícua carreira na Editora Abril, e os parceiros Luiz Carta e Fabrizio Fasano criaram uma empresa que, pouco tempo depois, já deixaria profundas marcas no mercado de revistas brasileiro. O marco zero da editora foi a coleção de fascículos culinários MENU, lançada apenas dois meses depois da fundação. A impressionante agilidade – ninguém, naquela época e provavelmente até hoje, se arriscava na praça sem antes preparar o terreno, em projetos que, para ir adiante, levavam meses, às vezes anos – se tornaria a marca registrada da cultura empresarial da Três. Hoje, a conta de exemplares produzidos pela editora, somando-se fascículos e revistas mensais e semanais, chega a quase seis bilhões de unidades.

Em setembro de 1972, apenas seis meses depois que os três sócios haviam alugado um pequeno escritório no centro de São Paulo, nascia a PLANETA, título que persiste até hoje. Inspirada na “Planète”, criada por dois intelecutais franceses, ela seria comandada pelo jornalista e escritor Ignácio de Loyola Brandão. Foi aí que outra bela tradição começou: em sua história, a Três contratou e teve entre seus colaboradores alguns dos mais brilhantes cérebros do País. Glauber Rocha, Jorge Amado, Rubem Braga, Millôr Fernandes, Carlos Drummond de Andrade, João Ubaldo Ribeiro e Paulo Francis são alguns dos nomes que ajudaram a construir as páginas publicadas pela Editora Três.

Em 1974, Alzugaray teve uma ideia. Mesmo diante dos limites impostos pela ditadura, por que não criar uma revista provocadora, com fotos de mulheres lindas e despidas e reportagens do tipo que prende o leitor do início ao fim? Surgiu assim, em agosto daquele ano, a STATUS, a primeira revista masculina do Brasil. “A STATUS não tinha só nudez, mas inteligência da primeira à última página”, diz o jornalista Gilberto Mansur, diretor de redação da revista durante quase uma década. “Isso se deve principalmente ao Domingo Alzugaray.” A STATUS trazia imagens insinuantes de ícones femininos da época como Sandra Brea, Sonia Braga e Xuxa, mas ia muito além. Mansur lembra que a primeira publicação brasileira a trazer textos do argentino Julio Cortázar, um dos maiores escritores latino-americanos de todos os tempos, foi a STATUS, mas isso não tem nada a ver com o diretor de redação, que, aliás, havia sido professor de literatura. “Ninguém no Brasil sabia quem era o Cortázar, só o Domingo. Ele me pediu para ir atrás dos direitos de publicação e consegui fazer com que o Cortázar se tornasse conhecido no País.” Mansur lembra de outro traço da personalidade de Alzugaray: o charme irresistível. “Por um período, deixei a STATUS para trabalhar com Tancredo Neves em Minas Gerais”, diz o jornalista. “Pouco tempo depois, o Domingo, com aquela conversa sedutora dele, me convenceu a deixar o Tancredo para voltar para a Editora Três.”

Capitalizado pelo sucesso comercial da STATUS, o editor Domingo decidiu apostar mais alto. Era hora de criar uma revista de informações abrangentes. Surgiu assim a ISTOÉ, primeiro em uma versão mensal, mas que logo se transformaria na primeira semanal da editora, com direção do jornalista Mino Carta, fundador da “Veja”. “Era uma época dura, de pouca liberdade para a imprensa, mas entramos sem medo”, diz Alzugaray. Reportagens que denunciavam as mazelas nacionais – corrupção, miséria, violência – se tornaram frequentes nas páginas da revista, que logo começaria a deixar sua marca no mercado. “Era delicioso, com aquela equipe mínima, dar um calor na concorrência”, afirma o jornalista Nirlando Beirão, integrante dos primeiros times que fizeram a revista e hoje diretor de projeto da STATUS. O regime militar ia relutantemente se abrindo e ISTOÉ aproveitava, com suor e talento, cada brecha. Beirão lembra que as reuniões de pauta pareciam comícios, de tanta vibração política. “Participavam das reuniões convidados como Fernando Henrique Cardoso.”

Foi nessa época que ISTOÉ descobriu, e pôs na capa, um irrequieto líder metalúrgico do ABC, apelidado de Lula. Foi a primeira das grandes contribuições da Editora Três para cristalizar a democracia no País. Com a ISTOÉ, milhões de leitores descobriram que o verdadeiro jornalismo nasce da contradição e do debate, e não do pensamento único e estratificado. Esse espírito moveu e move a revista em toda a sua história. Foi graças a uma denúncia da publicação semanal da Três que Fernando Collor, primeiro presidente eleito pelo voto direto depois da ditadura militar, começou a contar seus dias no cargo máximo do País. A edição de 8 de julho de 1992 trazia uma reportagem de capa, intitulada “Eriberto, um brasileiro”, em que o motorista revelava, em reportagem exclusiva, que PC Farias, ex-caixa de campanha de Collor, bancava as despesas da família do presidente. Depois do depoimento de Eriberto à CPI, Collor caiu. “Durante todo o processo, a ISTOÉ deu um show de coragem, independência e competência”, diz João Santana, à época diretor da sucursal da revista em Brasília e que mais tarde se tornou marqueteiro das campanhas presidenciais de Lula e Dilma.

A história de ISTOÉ não está ligada apenas à vida política. Com vocação inovadora, a revista foi a primeira do País a abrir espaço para assuntos de interesse geral. “Ampliamos as áreas de comportamento e cultura e logo fomos imitados pelos concorrentes”, diz o jornalista Tão Gomes Pinto, que dirigiu a revista entre 1993 e 1996. Quem conhece de perto Domingo Alzugaray sabe que o empresário sempre instigou os jornalistas. “Ele nos convidava a ousar”, diz o hoje escritor Mário Prata, editor da revista Careta, uma publicação bem-humorada de cultura que durou pouco, mas que, com colaboradores do porte de Luis Fernando Verissimo, Plínio Marcos e Angeli, iluminou o mercado editorial brasileiro.

De todos os grandes barões da imprensa brasileira, Domingo Alzugaray é certamente o mais acessível. Afeito a uma boa conversa, costumava chamar jornalistas para trocar impressões em sua sala, ao som de algum belo tango argentino. Certamente em alguns desses encontros surgiram projetos que mais tarde se revelariam bem-sucedidos. Em sua vida empreendedora, Alzugaray colocou no mercado dezenas – ou centenas, considerando os fascículos – de títulos. Foi ele quem teve a ousadia de lançar, em 1997, uma revista semanal de economia, negócios e finanças, a ISTOÉ DINHEIRO, quando o senso comum dizia que não havia espaço, no Brasil, para um veículo desse tipo. O projeto da DINHEIRO, desenvolvido pelo jornalista Carlos José Marques, atualmente diretor editorial da Três, rapidamente conquistou empresários e leitores interessados em receber informações da área sem o velho ranço do jornalismo econômico. Foi sucesso imediato. “Numa tarde o Domingo me chamou e disse: ‘Vamos fazer a DINHEIRO’. Dois meses depois, a revista estava na banca”, diz Marques.

A DINHEIRO cresceu, consolidou-se como marca e acabaria fazendo história também com seus filhotes. No ano 2000, em uma festa no Hotel Transamérica, em São Paulo, organizada para comemorar o lançamento de uma edição especial chamada de “Cem Maiores Lucros”, Alzugaray teria entre seus convidados o presidente Fernando Henrique Cardoso. Horas antes do evento, um assessor de FHC ligou de Brasília perguntando se ele poderia levar um convidado – o presidente argentino Fernando de la Rúa. Vieram os dois, Fernando Henrique e De la Rúa, e a festa da Três se tornaria manchete nos jornais do dia seguinte.

Também foi histórico o encontro, em dezembro de 2002, entre FHC e Lula, que acabara de ser eleito presidente da República. Em uma verdadeira lição de democracia, ambos foram recepcionados por Alzugaray na festa do prêmio “Brasileiros do Ano”, em São Paulo, no que se tornaria o primeiro encontro público entre eles pouco antes da transmissão, para Lula, do cargo de presidente da República. “A marca da Editora Três e de sua trajetória é o jornalismo independente, fiscalizador do poder, de qualidade e responsável, praticado sem ressalvas ao longo dos 40 anos por obra e visão do Domingo e do Caco Alzugaray”, diz Carlos José Marques, diretor editorial da Três.

Filho de Domingo, Caco Alzugaray começou a trabalhar na Editora Três em 1988. Primeiro foi assistente de redação na revista Hippus e depois passou por todos os departamentos da empresa. Foi redator coordenador de promoções, coordenador de marketing, gerente de marketing, gerente de produto, diretor de marketing, diretor executivo de marketing e diretor executivo antes de assumir a presidência, em maio de 2007. Como o pai, Caco Alzugaray exerce o controle da empresa com gentileza e elegância, envolvendo-se diretamente e de forma diária na atividade editorial. “Nesses anos todos, desenvolvi a convicção de que uma empresa de comunicação só tem um patrão: o leitor.” Caco já deixou algumas marcas na Três. Em 2008, quando o mundo mergulhava numa crise financeira e muitos duvidavam da capacidade do País para atravessá-la, ele teve a ideia de fazer uma capa, em ISTOÉ, com a mensagem “Acredite no Brasil.” Foi um marco institucional. “Quem, como nós, confiou que era possível, saiu mais forte dessa fase.” A mesma e histórica mesa de madeira de lei que viu seu pai, Domingo Alzugaray, receber os brasileiros mais ilustres, agora assiste a Caco debater o País com personalidades da vida política e empresarial e de diversos setores da sociedade. Aquela mesa é realmente um lugar privilegiado de se ver o mundo.

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