NY Times: um casal gay desnorteia extrema-direita do Brasil

Jornal The York Times publicou reportagem destacando como o casal formado pelo jornalista Glenn Greenwald, fundador do The Intercept Brasil, e pelo deputado David Miranda (PSOL-RJ) vem atrapalhando os planos do governo de extrema deireita de Jair Bolsonaro

247 - O jornal The York Times publicou reportagem destacando como o casal formado pelo jornalista Glenn Greenwald, fundador do The Intercept Brasil, e pelo deputado David Miranda (PSOL-RJ) vem atrapalhando os planos do governo de extrema deireita de Jair Bolsonaro. 

"David Miranda, vereador socialista do Rio de Janeiro que tinha se candidatado ao Congresso Nacional, tomou todas naquela noite de outubro para lamentar sua perda eleitoral. Seu marido, Glenn Greenwald, um implacável jornalista norte-americano, tomou um calmante. A era política que iniciava parecia um soco no estômago para o casal gay e birracial", diz o New York Times. 

Leia, abaixo, a reportagem na íntegra, traduzida para o 247 por Carolina Ferreira: 

A antítese de Bolsonaro”: um casal gay desnorteia a extrema-direita do Brasil.

Por Ernesto Londoño

20 de julho de 2019

Rio de Janeiro - Os votos foram contados, e os céus do Rio de Janeiro explodiam com fogos de artifício enquanto apoiadores celebravam a eleição decisiva de um populista de extrema-direita, Jair Bolsonaro, como presidente do Brasil.

Mas nem todos estavam exultantes. David Miranda, vereador socialista do Rio de Janeiro que tinha se candidatado ao Congresso Nacional, tomou todas naquela noite de outubro para lamentar sua perda eleitoral. Seu marido, Glenn Greenwald, um implacável jornalista norte-americano, tomou um calmante. A era política que iniciava parecia um soco no estômago para o casal gay e birracial.

"Somos a antítese de Bolsonaro", disse Miranda em uma entrevista. "Somos tudo o que eles odeiam".

Desde então, os dois encontram-se nas linhas de frente da divisão política cada vez mais amarga do país. Em junho, o veículo de comunicação de Greenwald publicou reportagens sugerindo que o principal opositor de Bolsonaro na corrida presidencial tinha sido preso de forma inadequada apenas seis meses antes da eleição, levantando sérias dúvidas sobre a legitimidade da vitória de Bolsonaro e testando a força das instituições democráticas brasileiras.

Agora, Greenwald e Miranda - que finalmente ocupou um assento no Congresso - estão sendo atacados por Bolsonaro e seus aliados. Eles enfrentaram ameaças de morte e, de acordo com um site conservador brasileiro, a Polícia Federal está investigando as finanças de Greenwald. Autoridades governamentais não confirmaram nem negaram a reportagem, mas a mera sugestão de que Greenwald esteja sendo alvo do Estado por causa de suas reportagens provocou protestos em favor da liberdade de imprensa no Brasil.

Greenwald - um dos dois jornalistas que obtiveram e divulgaram um tesouro de documentos de inteligência secreta vazados por Edward Snowden, que denunciou a Agência de Segurança Nacional em 2013 - disse que duvidava que ele fosse, novamente, publicar mais um furo de reportagem com tantas consequências. As revelações de Snowden desencadearam um debate global sobre vigilância governamental e privacidade.

Mas as apostas dessa exposição no Brasil parecem mais altas em alguns aspectos, ele disse.

A informação publicada pelo The Intercept Brasil, um veículo de notícias co-fundado por Greenwald, desafiou a integridade de uma ampla investigação sobre corrupção que enredou algumas das figuras mais poderosas do establishment político e empresarial do Brasil nos últimos cinco anos, colocando muitos deles na prisão.

Entre eles está o ex-presidente de esquerda, Luiz Inácio Lula da Silva, que foi preso e impedido de participar da corrida presidencial na qual ele tinha uma grande vantagem sobre Bolsonaro.

O homem que presidiu a investigação, o juiz federal Sérgio Moro, tornou-se uma espécie de herói popular para muitos brasileiros incomodados com corrupção e violência. Posteriormente nomeado por Bolsonaro para ser Ministro da Justiça, Moro se tornou um dos mais populares membros de seu gabinete, dando legitimidade à promessa do presidente de combater o crime desenfreado e reprimir a corrupção.

Mas um enorme arquivo de mensagens privadas entre membros do judiciário envolvidos na investigação da corrupção sistemática, obtido pelo The Intercept Brasil a partir de uma fonte não revelada, contém trocas de mensagens nas quais Moro parece cruzar limites éticos e legais em sua maneira de lidar com o caso do ex-presidente Lula.

As mensagens mostram que Moro ofereceu conselhos estratégicos aos promotores e transmitiu uma pista investigativa. Os juízes devem ser árbitros imparciais de acordo com a lei brasileira. Moro negou ter cometido delitos.

"Sou um grande defensor da imprensa livre, mas essa campanha contra a Lava Jato e a favor da corrupção está beirando o ridículo", disse Moro em um comunicado, referindo-se ao nome do escândalo de corrupção.

O fluxo constante de artigos do Intercept Brasil provocou pedidos pela renúncia de Moro, e fez de Greenwald, 52, o principal alvo de elogios e fúria daqueles que estão em lados opostos da divisão política do Brasil.

O escândalo também se tornou o primeiro teste de resiliência das instituições democráticas brasileiras sob a liderança de um presidente que passou grande parte de sua carreira política posicionando-se contra a democracia e louvando o período de 21 anos de regime militar repressivo no Brasil que terminou em 1985, Greenwald disse.

"Há uma grande dúvida sobre o tipo de país que o Brasil será", disse Greenwald durante uma recente entrevista em sua casa fortemente vigiada no Rio de Janeiro. "Será um país com instituições democráticas funcionando, ou será o Estado autoritário e repressivo que Bolsonaro deseja e almeja?"

Greenwald provavelmente não teria investido tanto no futuro do Brasil se não fosse por um dia, em fevereiro de 2005, em que ele estava sentado sozinho em uma praia de Ipanema, afogando as mágoas de seu coração partido, e um jovem acidentalmente derrubou sua bebida com uma bola.

Miranda, que tinha então 19 anos, pediu mil desculpas em um inglês macarrônico. Greenwald, que tinha 37 anos, aceitou o pedido de desculpas e convidou o jovem brasileiro para jantar. Três dias depois, os dois basicamente foram morar juntos, para o espanto de amigos de ambos, que somente viam sinais de alerta enquanto duas vidas radicalmente diferentes começavam a se fundir.

Greenwald tinha um escritório de advocacia em Nova York. Miranda, filho de uma prostituta que morreu quando ele tinha 5 anos, foi criado por uma tia no Jacarezinho, uma favela no Rio, e abandonou a escola aos 13 anos.

"Eu jamais fui do tipo que se apaixona por alguém à primeira vista", disse Greenwald. "Mas a paixão, a intensidade de David, foi como dois asteróides colidindo."

Miranda logo se matriculou na faculdade e Greenwald começou a escrever sobre segurança nacional e questões legais em um blog chamado Unclaimed Territory. Entre seus muitos leitores fiéis estava Snowden, que entregou a Greenwald e à documentarista americana Laura Poitras um enorme arquivo de documentos de inteligência secreta.

Em agosto de 2013, quando Miranda transportava um drive de memória com arquivos de Snowden da casa de Poitras na Alemanha para o Brasil, ele foi interrogado durante horas e ameaçado de prisão durante uma escala em Londres.

A experiência levou Miranda, 34, a liderar uma campanha para que o governo brasileiro oferecesse asilo a Snowden, um esforço que despertou seu interesse em concorrer ao cargo de deputado. Logo depois, Greenwald começou a escrever sobre a política brasileira. A dupla logo cruzou o caminho de Bolsonaro, que representava o Estado do Rio de Janeiro no Congresso.

Em 2014, Greenwald decidiu traçar o perfil de Bolsonaro no The Intercept Brasil, que na época era um novo site de notícias financiado por Pierre Omidyar, o bilionário americano que fundou o eBay.

Coube a Miranda entrevistar Bolsonaro, um ex-capitão do Exército que na época era um representante sem grande poder de influência e notório por fazer comentários polêmicos sobre mulheres, gays e negros. A história foi publicada com a manchete: “O deputado eleito mais misógino e odioso do mundo democrático: o brasileiro Jair Bolsonaro”.

Em 2017, quando Bolsonaro estava se preparando para concorrer à presidência, ele e Greenwald trocaram farpas no Twitter. Depois que o jornalista se referiu a Bolsonaro como um “cretino fascista”, o político respondeu com uma referência grosseira ao sexo anal.

Miranda acabou ocupando um assento no Congresso em fevereiro, depois que um legislador gay de seu partido, ao qual foram enviadas ameaças de morte, deixou o país em um auto-exílio. Logo depois que Miranda foi empossado, uma das maiores aliadas de Bolsonaro no Congresso, a deputada Joice Hasselmann, começou a sugerir que ele havia comprado sua cadeira no Congresso.

A alegação é absurda, afirmam Miranda e Greenwald, mas isso aconteceu justamente quando Miranda se esforçava para se posicionar no Congresso, onde a maioria dos legisladores é branca e vem de famílias privilegiadas. Na primeira vez em que ele pegou o microfone para falar, sua mão tremia, disse.

"Eu estava me sentindo como se não pertencesse àquele lugar", disse. "Todo mundo passava a impressão de que sabia o que estava fazendo."

Em abril, a solidão e o isolamento que ele sentiu em Brasília o levaram a um colapso.

"Eu não estou bem", disse Miranda ao seu terapeuta, que prescreveu antidepressivos. O legislador tirou duas semanas de folga e ficou em casa com os dois filhos que ele e Greenwald adotaram no ano passado.

Logo depois que Miranda retornou à capital, o establishment político foi abalado pelo vazamento das primeiras mensagens da Lava Jato.

Ameaças e insultos contra Miranda e Greenwald mantiveram o casal extremamente confinado em sua casa. Eles se aventuram a sair apenas com guardas armados, dormem pouco, têm o sono leve e temem pela segurança de seus filhos.

No entanto, os dois disseram que não se arrependem por terem assumido essa causa, considerando-a um momento decisivo para o Estado de Direito no Brasil.

"Isso pode acabar fortalecendo a democracia", disse Miranda. "Dependerá de como as instituições decidirão agir."

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