O circo da violência via satélite

Dizer que a violência é mantida como prato principal na TV porque o público gosta disso é como justificar a obesidade dos filhos alegando que eles insistem em consumir doces

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No picadeiro em tempo real, o apresentador-comunicador anuncia a próxima atração: um homem esquartejado encontrado na comunidade! Na plateia, o público-telespectador se arruma na cadeira, enquanto almoça, à espera das “cenas chocantes” antecipadas em alerta pelo mediador da atração. A mídia brasileira – em especial a TV – tem vivido dias de “circo dos horrores” como nunca visto antes. Na programação dos pseudo-noticiários, a tônica parece ser ‘quanto mais sangue, mais audiência’. E, pior, a premissa parece funcionar.

O processo de midiatização da violência, da baixaria midiática, do abraço apertado ao jornalismo sensacionalista tem se aprimorado de modo a ganhar adeptos dentro e fora dos meios de comunicação de massa e dificultado o trabalho de quem busca e deve combatê-lo. Qualquer pessoa ou instituição que se coloca em oposição ao “show” é taxado pelas celebridades fantasiadas de comunicadores como censores, tolhedores da liberdade de expressão.

Não há, definitivamente, liberdade na TV – especialmente quando a audiência, não à toa chamada ‘massa’, está imperceptivelmente mergulhada nesse mar de lama que seduz, aliena e manipula. Além da confusão entre liberdade de expressão e permissividade, o sistema focado exclusivamente na audiência cria um jogo de compartilhamento perverso com o público e joga todas as suas cartas para manter o maior número de pessoas ligadas em sua programação. Nem que para isso seja necessário expor uma cena de violência sexual, uma cabeça degolada, um tiro à queima-roupa.

Dizer que a violência é mantida como prato principal na TV porque o público gosta disso é como justificar a obesidade dos filhos alegando que eles insistem em consumir doces e guloseimas e, por isso, os pais abastecem os pequenos com o que há de mais açucarado no mercado. Há pontos importantes a serem considerados aqui. Primeiramente, existem códigos que precisam ser respeitados. Um deles, o Código de Ética do Jornalismo, vai de encontro a esse noticiário grotesco de hoje e, evidentemente, é descaradamente ignorado. Outro documento importante é o Estatuto da Criança e do Adolescente – esse, então, desrespeitado ao extremo pelos neo-comunicadores e seu jogo da audiência.

Outra ponderação essencial: canais de rádio e TV são concessões públicas que devem ser utilizadas em prol (nunca contra) do público. A cada período de 10 (rádios) e 15 (TVs) anos essas concessões precisam ser renovadas. Para continuar explorando esse canal, as emissoras devem privilegiar a educação, a cultura nacional e regional, entre outras exigências. Assim, por uma questão visivelmente legal – ética, então, nem se fala –, muitas concessionárias da mídia brasileiras já deveriam ter saído do mercado. Se isso não acontece, por questões de interesse que o brasileiro conhece bem, há que se propor um debate amplo sobre o escárnio moral a que a sociedade, como verdadeira dona desses canais de informação, tem sido submetida.

Aliado a isso, cabe-nos combater a baixaria, a violência, a exposição de crianças e adolescentes a sessões do circo dos horrores televisivo – seja nas instâncias político-administrativas, seja em conversas com amigos, seja especialmente a partir da nossa própria casa.

Henrique França é jornalista, mestre em Ciência da Informação e professor universitário. Autor do blog #CotidianaMente

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