Para onde vão os diários goianos

Nossos jornais mudaram com a chegada da internet. Até em Goiás, onde tudo acontece com atraso

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Mainz é uma cidade alemã encostadinha em Frankfurt, quase na fronteira com a França. Passaria bonitinha e despercebida se Gutemberg não tivesse inventado lá, há 500 anos, a impressão em larga escala em papel. Em outras palavras, a imprensa. Depois de cinco séculos, jornais e revistas enfrentaram o rádio, o cinema, a televisão e agora a internet. Nada que conhecemos será capaz de acabar com a imprensa. Quem proclama seu fim se esquece que, numa perspectiva histórica, os meios de comunicação surgem, mudam, se mesclam, adaptam mas não morrem.

Nossos jornais mudaram com a chegada da internet até em Goiás, onde tudo acontece com atraso. Idem no Chile, onde não se vê mais nenhum grande diário em formato standard, apenas tabloide. Em Nova Iorque há dois diários distribuídos de graça nas entradas dos metrôs. Para segurar a circulação, Folha de São Paulo e outros adotaram a política de vender aos leitores, a preços baixos, brindes qualificados e de alto valor cultural (enquanto isso, em Goiás, O Popular aposta em carrinhos de plástico e livros de culinária). Os portais de notícia e mesmo jornais na internet proliferam. Internamente temos dois veículos consolidados, aredacao.com.br e goias247.com.br. Publicações pequenas de entidades ou bairros sobrevivem localmente sem complicações, com tiragens e distribuição limitadas mas constantes.

Com sua habitual verve ácida, o editor do Jornal Opção, Euler Belém, costuma dizer que Goiás não tem um líder de mercado. Há o primeiro disparado (O Popular) e o último (Diário da Manhã). Inegavelmente, O Popular possui a vantagem de uma marca poderosíssima, cultivada em mais de 70 anos. Seus classificados são imbatíveis, sua seriedade e circulação inquestionáveis e o apoio da maior emissora de TV do Brasil (Anhanguera/Globo) um diferencial competitivo inalcançável pela concorrência. Mas há fissuras sérias que minam a publicação cotidianamente. A começar pela página na internet, que, além de fechada, não consegue ir além do impresso. Um ex-editor me contou das várias vezes em que se sentiu envergonhado ao tentar mostrar O Popular no exterior que, além de pobre no visual e no conteúdo, ainda é sabidamente lento de se navegar. Entretanto, nada atesta mais a pobreza de nossa imprensa do que o caderno Magazine, de O Popular, quase todo voltado para o que acontece fora do Estado, especialmente em São Paulo, como se nas fronteiras goianas a produção cultural fosse de oitava categoria.

A isso soma-se uma política comercial muitas vezes inflexível e dispendiosa se comparada com qualquer concorrente. Talvez por isso, na edição de 13 de abril, uma sexta-feira, havia apenas quatro páginas de anúncios pagos para um total de 34 de conteúdo jornalístico, ou menos de 20%. Sem os classificados, a conta provavelmente não fecharia.

Do mesmo grupo, o Daqui virou um fenômeno de vendas. É moderno no tamanho (tabloide), inteligente no público que atinge (classes C e D) e sofrível nos textos curtos, sem profundidade e com chamadas de gosto duvidoso. Por isso mesmo, não costuma ser respeitado pelos jornalistas. Mas não se pode negar a tendência, a força e o sucesso de um veículo dirigido a um público menos instruído mas de bom poder de consumo. O que se discute é se um meio de comunicação pode abrir mão da profundidade e qualidade de seus textos a favor de um jornalismo de mais fácil assimilação.

Bem lá atrás vem o Diário da Manhã, cambaleando numa série histórica de erros. Feito quase totalmente por estudantes sem salário ou que recebem parcos e inconstantes vales, acostumou-se com a mística de que é um jornal-escola, como se isso o isentasse dos pagamentos mensais. Não tem o respeito do mercado publicitário pois ao longo dos anos não honra o BV. Ligado a interesses políticos pontuais, é penalizado financeiramente todas as vezes que os ventos do poder sopram em direção contrária. Por incrível que pareça é eficiente na internet, com o conteúdo aberto e uma gigantesca vantagem: a reprodução do impresso, o que permite visualizar os anúncios. De graça e completo na rede é o mais lido de Goiás, embora não saiba aproveitar comercialmente este feito.

Interessante que mesmo com a tão falada crise da imprensa, Goiás tenha visto o surgimento de diários no interior, o mais significativo deles O Hoje, ligado a Aparecida mas com circulação na capital. Entre erros e acertos, todos sobrevivem. Quem pegar tanto O Popular como o Diário da Manhã há 20 anos, constatará que ambos não perderam conteúdo nem a força na sociedade. Todos terão de mudar e se acomodar aos novos tempos. Mas a internet não será o anjo exterminador de nenhum deles.

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