Quando o jornalista vira notícia

Não é hora de subir no palanque e transformar o colega em mártir da perversa indústria das comunicações; quem é repórter sabe que o risco faz parte da profissão

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A morte do cinegrafista Gelson Domingos da Silva, abatido no domingo (6) com um tiro de fuzil supostamente deflagrado por um traficante, quando cobria operação policial na Favela de Antares, zona oeste do Rio de Janeiro, traz de volta a eterna discussão sobre os limites de segurança individual que o jornalista deve obedecer no exercício da profissão. Foi assim também com o jornalista Tim Lopes, 52, repórter da TV Globo, torturado e morto por bandidos encastelados no Complexo do Alemão, subúrbio carioca, em junho de 2002. Mais uma vez, sindicatos e entidades que representam a categoria proferem os discursos de sempre, chamando a atenção para os riscos a que nos expomos no dia a dia e que só se tornam notícia quando um de nós vira estatística. Acabei de saber, por exemplo, que o Brasil é o segundo no ranking de países campeões em morte de jornalistas por motivos associados à profissão. Só perde para o México e seu cartel de narcotraficantes assassinos.

Mas sejamos realistas e desapaixonados. Pelo menos, uma vez. Claro que jornais, tevês e revistas devem zelar pela segurança de seus profissionais e terminam por ter coparticipação em boa parte das mortes anunciadas de jornalistas. Entretanto, se nos dispusermos a ser honestos conosco mesmos vamos ver que – como em toda boa reportagem – a história tem pelo menos dois lados. Não é hora de subir no palanque e transformar o colega em mártir da perversa indústria das comunicações. Quem é jornalista (e não estou aqui me referindo a relatores de dossiês, mas a repórteres que vão atrás da notícia) sabe que o risco faz parte da profissão. É como se o perigo exercesse uma atração irresistível sobre nós.

Tenho uma dúzia de histórias que comprovam essa nossa tendência de estar sempre flertando com o perigo. Mas vou me ater a apenas uma. Era março de 1981. Ainda estudante de Comunicação/Jornalismo pela Ufba, eu trabalhava como repórter do hoje extinto Jornal da Bahia, que ocupava um prédio inteiro na Baixa dos Sapateiros, trecho do Largo da Barroquinha, centro de Salvador. Havia acabado o plantão do sábado e conversava com um grupo de colegas num boteco próximo ao jornal. O assunto era o clima de tensão que vivia a cidade por conta da greve de oficiais e praças da Polícia Militar. Segundo dados da época (tive que pesquisar, para não ser traída pela memória, pois lá se vão 30 anos), eram quase 11 mil os amotinados, dentre os aproximadamente 13 mil policiais que compunham o efetivo da PM-BA. O motivo da rebelião era a exigência de equiparação salarial com as Forças Armadas.

A greve havia sido decretada na quinta-feira, apesar de o então governador Antonio Carlos Magalhães fazer de tudo para desacreditar o movimento. Ao desdenhar dos manifestantes, ACM atirou lenha à fogueira. Afinal, não se tratava de um simples desconforto de praças, mas uma reação encabeçada pelo oficialato, o que exigiria, ao menos, certa cautela do Executivo estadual. Mas, fiel ao estilo “manda quem pode, obedece quem tem juízo”, naquela sexta-feira 13 – para os místicos, um dia sempre carregado de maus presságios – Sua Excelência lançou uma cartada decisiva: num misto de demonstração de força e exercício de autoridade pediu apoio às Forças Armadas.

A tensão estava no ar. A então pacata cidade da Bahia parecia uma praça de guerra com soldados do Exército, Marinha e Aeronáutica ocupando as ruas com suas armas de artilharia e veículos de combate. A Polícia Civil também reforçava o policiamento ostensivo, atribuição constitucional da Polícia Militar. Nós, jornalistas, nos deparávamos a cada esquina com o perigo. Naquele tempo, colete balístico não era considerado equipamento de proteção individual obrigatório, nem mesmo para policiais em serviço.

Foi nesse clima que aconteceu a tragédia. Um office boy do jornal chegou ao boteco com um recado do editor de plantão: “Tem tiroteio na Calçada e ele está mandando um fotógrafo pra lá”. Neste ponto, a memória me prega uma peça. Não lembro exatamente de quem foi a ideia, mas, quando dei por mim, estava a caminho da zona de conflito com a também repórter Maria Isabel Santos e com o chefe de reportagem, Chico Vasconcellos, companheiro aqui do Bahia 247. Pelo rádio, ouvíamos notícias do front. O confronto armado, que envolvia policiais militares e fuzileiros navais, já havia produzido duas baixas significativas: o tenente PM Valmir Alcântara dos Santos, morto com vários tiros, e João Mário de Almeida, gravemente ferido. Ambos de 31 anos.

Quando chegamos ao Largo da Calçada, o lugar parecia uma praça de guerra, cenário que só conhecia de filmes. Esgueirávamo-nos por trás das colunas de concreto da estação ferroviária e, a cada passo, esbarrávamos com um soldado fortemente armado. Foi a primeira vez que vi de perto uma baioneta. A adrenalina fazia o sangue ferver. Eu tremia, mas, nem por um momento, pensei em voltar para o carro de reportagem e ir para um lugar seguro.

Vivi outras situações de risco e posso dizer: na maioria das vezes, não foi o chefe que me pôs cara a cara com o perigo. Quando o editor do JBa. nos pediu para ir ver o que estava acontecendo na Calçada, ele não nos disse para nos colocarmos na linha de tiro. Mas, como relatar uma emoção em toda a sua intensidade, se nós próprios não tivermos a oportunidade de vivenciá-la?

Leio no noticiário referente à morte de Gelson que ele filmou a própria morte. Estava em busca da melhor imagem, do melhor ângulo e acabou se transformando em notícia. Recebeu um tiro de fuzil. Poderia ter recebido mais um prêmio de reportagem.

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