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Rafinha Bastos: o riso do bebê

Quem faz humor, ou pelo menos tenta fazer, sempre é uma caricatura de si mesmo. É uma personagem

Desde criança, o humor fez parte da minha vida. A começar pelas brincadeiras debochadas entre amigos, passando pelas imitações de personagens televisivos e terminando nas piadas, tudo era passível de ser achincalhado. Não havia o politicamente correto. Respirava-se o ar tal como ele se apresentava. O ambiente não era “higienizado”.

Quem faz humor, ou pelo menos tenta fazer, sempre é uma caricatura de si mesmo. É uma personagem, mesmo que se apresente em cena como sendo “ele próprio”. Sempre foi assim, desde a Grécia Antiga. Nada há de novo nisso, portanto.

Mas voltando às piadas, quando eu era criança, havia quem contasse as tradicionais “de salão” e os que se arriscavam mais, contando, digamos, as mais “picantes”. E no fim, só poderia haver dois resultados para o humorista: vitória (fazer rir) ou derrota (não fazer rir). Neste jogo cênico não havia empate, tampouco em suas regras havia “advertência” ou “expulsão”.

Mas hoje, para a maioria das pessoas, aparentemente tudo se apresenta de outro modo e, para elas, a regra do jogo parece ter mudado.

Hoje, o que menos importa é a piada, já que as pessoas não se bastam (sem trocadilho) a rir ou deixar de rir. Hoje, para essas pessoas, o que importa, mais ainda do que a própria piada, é quem a conta.

Rafinha Bastos não está sendo “expulso” do jogo pela piada pontual que contou, mas pelas piadas que vem contando. Neste caso, presta-se mais atenção no sujeito do que no objeto, quando deveria ser o oposto. A repulsa das pessoas é com Rafinha Bastos, não com as piadas.

Um exemplo: diversos humoristas escondem o dedo mindinho e imitam Lula. Outros vários, imitam Roberto Carlos e mancam. Nunca vi ninguém se indignar. Agora, fosse Rafinha Bastos a desempenhar tal papel, lá estariam os indignados a se insurgirem, dizendo: “isso não pode” ou “passou dos limites” ou “faltou respeito”.

A propósito da piada em questão, feita por Rafinha Bastos no programa “CQC” sobre Wanessa Camargo e seu bebê, tenho somente a dizer que não me fez rir. Ponto final. Não faço juízo de valor sobre piadas, tampouco sobre quem as conta. Sobre este episódio, penso o que sempre pensei sobre quando se conta uma piada: Ou o espectador ri, e o humorista vence ou não ri, e o humorista perde.

Aos que ficaram indignados com o episódio da piada de Rafinha, peço que voltem ao tempo bem remoto, de quando ainda eram bebês. Mesmo antes de falar, de andar, de escrever ou de ter a capacidade de se indignar, muito antes de tudo isso, o bebê já sorria.

Voltem a ser crianças, ou melhor, voltem a ser bebês: riam mais e indignem-se menos. 

Hoje é dia de riso, bebê!

Luciano Gil é advogado formado pela Faculdade Mineira de Direito da PUC-Minas