Somos todos Griseldas?

A capa de Veja desta semana no uma reportagemsobre tica,comportamento oumesmo sobre a televiso brasileira; ela , antes de tudo, um manifesto poltico de quem se pretende porta-voz da luta contra a corrupo e acredita ser a vanguarda de um pas que no tolera mais o lulismo

Somos todos Griseldas?
Somos todos Griseldas? (Foto: Divulgação)
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247 – Sutileza, nem sempre, é o ponto forte da Editora Abril. Na capa de Veja, desta semana, dedicada à personagem Griselda, da novela Fina Estampa, as intenções políticas já são reveladas na chamada de capa – “a atriz Lilia Cabral encanta a nova classe média brasileira como um exemplo de ética e valores familiares”.

Sim, Griselda, ou “Pereirão”, é uma espécie de faz-tudo, na trama de Aguinaldo Silva, que representa a chamada “nova classe média” brasileira. A mesma classe média, que, segundo o sociólogo Fernando Henrique Cardoso, caberia ao PSDB reconquistar, uma vez que o “povão”, como disse FHC, já pertence ao PT.

Onde estaria, então, a esperança de alternância política? Na nova classe média, formada pelos brasileiros honestos, “que trabalham e pagam impostos”, e não toleram mais tantos escândalos. E que também prezam “valores familiares” – como Deus, a família e a liberdade.

Se a capa já insinua as primeiras intenções de Veja, a Carta ao Leitor, assinada pelo diretor Eurípedes Alcântara, as escancara:

“Fina Estampa se ancora na popularidade de Griselda, cuja retidão e ética inabaláveis dão voz aos brasileiros que, na falta de exemplos de padrão de conduta na vida real, em especial na esfera pública, foram buscar um modelo na ficção. O sucesso de Griselda é mais uma evidência de que milhões de brasileiros que trabalham, estudam e progridem querem um norte moral, querem um país em que a meritocracia seja a base do êxito pessoal, mesmo quando bafejam os ares da sorte. Não é porque ganhou na loteria que Griselda perderá seus valores. Pelo contrário, eles se tornarão mais fortes. Pereirão é o oposto de Odete Roitman. O retrato de um Brasil que não tolera mais o vale-tudo.”

Traduzindo, agora, as mensagens subliminares:

1) A falta de exemplos de conduta na vida real, em especial na esfera pública, revela que o ar se tornou irrespirável, pela corrupção, desde que “os petralhas” chegaram ao poder.

2) O norte moral é que o Veja (e talvez o PSDB) se dispõe a oferecer aos seus leitores.

3) O país meritocrático é o oposto do país do apadrinhamento e dos favores distribuídos pela “cumpanheirada”.

4) Se a nova classe média enriqueceu, bafejando os ares da sorte, isso não se deve ao crescimento redistributivo da era Lula nem deve colocar em xeque os sólidos valores morais do povo brasileiro.

Num país de Griseldas, hoje seria dia, portanto, de lotar as praças públicas do Brasil nas marchas contra a corrupção. Mas a nova classe média brasileira, que, sim, enriqueceu nos últimos anos, tem preferido gastar o tempo livre em atividades mais prazerosas, de lazer e consumo.

Se a chamada de capa e o editorial não disfarçam o caráter político da reportagem de Veja desta semana, a matéria em si deixa tudo às claras. Há, ali, num quadro que explica “como os planetas se alinharam” para o sucesso de Griselda, uma foto do ministro defenestrado Orlando Silva.

Segundo Veja, a “virada ética” explica por que a personagem de Lilia Cabral faz tanto sucesso. Diz o texto que “nos últimos meses, as sucessivas quedas de ministros envolvidos em escândalos, como Wagner Rossi, da Agricultura, e Orlando Silva, do Esporte, sugeriram aos brasileiros que as denúncias de corrupção já não são respondidas com indiferença cínica”. Prossegue ainda afirmando que o autor deu vida à personagem “no oportuníssimo momento em que se fala de uma faxina ética” que vai “ao encontro das ansiedades e esperanças do público”.

De acordo com Veja, a batalhadora e incorruptível Griselda é quem queremos ser no futuro. E Griseldas não votam em Lula e assemelhados. Montadas em suas vassouras, costumam votar em Jânio Quadros.

Ocorre, porém, que o Brasil, terra de Dercy Gonçalves, não é o país dos Pereirões. E a nova classe média – que, sim, é honesta – também é capaz de detectar falsos moralismos e hipocrisias.

A capa de Veja desta semana não tem nada a ver com comportamento, ética ou mesmo televisão. Trata apenas de política.

As usual.

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