HOME > Mundo

Brasileiro vai à guerra da Ucrânia atrás de 'adrenalina', passa fome, perde 28kg, vê amigo morrer e foge desesperado

A rotina no front, de acordo com Redney, foi marcada por escassez

Além da fome, Redney relata que viveu situações constantes de risco (Foto: Reprodução)

247 - Brasileiros deixaram o país para lutar na guerra da Ucrânia e voltaram com relatos de fome, violência e desilusão. A reportagem, exibida pela TV Globo, ouviu ex-combatentes baianos que afirmam que a realidade no campo de batalha é muito diferente da imagem difundida nas redes sociais e em grupos de recrutamento informal.

Entre eles está Redney Miranda, da Bahia, que decidiu viajar sem experiência militar prévia. Segundo contou à reportagem, a motivação vinha de um desejo antigo de servir ao Exército, frustrado no Brasil, e da busca por “adrenalina”. “Desde moleque, assistindo filmes, eu tinha vontade de servir o Exército. Não consegui aqui e não deixei esse sonho para trás”, disse. O plano inicial era permanecer 30 dias, mas ele acabou ficando 172, quase seis meses, em áreas sob bombardeio constante.

A rotina no front, de acordo com Redney, foi marcada por escassez. “A comida era ração militar. Passei a ficar três dias só com o tempero do macarrão instantâneo”, contou. Ao retornar, ele afirma ter perdido cerca de 28 quilos. “Cheguei com 90 quilos e voltei com sessenta e poucos”, afirmou, ao descrever o impacto físico do período em combate.

Além da fome, o brasileiro relata episódios de extremo risco. Em um dos ataques, foi atingido por estilhaços de granada e ficou temporariamente com parte do corpo paralisada. Ele também diz ter presenciado a morte de 17 colegas, entre eles o paranaense Wagner, conhecido como Braddock. “Ele saiu da trincheira sem equipamento e um drone atingiu. Estava sem colete, sem nada", contou.

O retorno ao Brasil, segundo o ex-combatente, não foi simples. Ao tentar deixar a linha de frente, ele afirma que foi perseguido por soldados ucranianos. “A gente teve que correr dos próprios ucranianos. Tivemos que lutar contra eles para conseguir fugir da trincheira e ir para uma cidade mais próxima”, disse. Redney conseguiu deixar o país e voltou ao Brasil em janeiro.

A família acompanhou a situação à distância, sem notícias por meses. A mãe, Jaída Miranda, relatou à reportagem o medo constante de perder o filho. “A gente acha que não vem mais. Só imagina coisa ruim”, disse. Durante o período na Ucrânia, Redney mantinha contato com a filha pequena por chamadas de vídeo, e a criança se referia à trincheira como “buraco”. “Eu não posso sair de casa, que ela fica ligando e fala: ‘Papai, você foi para o buraco de novo?’”, relatou.

De volta ao Brasil, o ex-combatente tenta retomar a rotina, mas diz conviver com lembranças do conflito. “Talvez com a filha por perto as coisas mudem um pouco. Ela deixa o dia mais leve”, afirmou. Casos como o dele, segundo a reportagem, se repetem entre brasileiros atraídos por promessas que não se confirmam no campo de batalha.

A guerra na Ucrânia se aproxima do quarto ano, e os ataques continuam. De acordo com o Ministério das Relações Exteriores, desde o início do conflito, 19 brasileiros morreram na Ucrânia e outros 44 estão desaparecidos. A embaixada da Ucrânia no Brasil informou que não recruta brasileiros e que quem se alista passa a ter os mesmos direitos e deveres de um cidadão ucraniano em serviço militar.