Britânicos versus Murdoch

A crise no império murdochiano e no governo britânico já está instalada. Rebekah, que foi presa nesta semana e liberada após pagar fiança, é amiga e vizinha do atual premiê, David Cameron

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O todo-poderoso Rupert Murdoch nem precisava ter dito que ontem foi o dia mais humilhante de sua vida. Nas ruas, londrinos já lhe haviam desferido palavras como “nojento” e expressões como “que vergonha”. Uma reação compreensível, depois da série de revelações sobre ilegalidades cometidas pelo jornal News Of The World, administrado pelo barão da mídia. Se príncipes, artistas e atletas eram grampeados com frequência pelo tabloide, como assegurar que cidadãos comuns estavam protegidos das escutas clandestinas? Claro que o “phone hacking” virou assunto principal dos britânicos, em tom uníssono de reprovação.

Dezenas de ingleses sem qualquer credencial da realeza ou do mainstream também eram alvo dos grampos ilegais, segundo uma das vítimas mais notórias da prática. Depois de ter suas fantasias sexuais publicadas na capa do News Of The World, o ex-presidente da Federação Internacional de Automobilismo (FIA) Max Mosley passou a ajudar financeiramente pessoas que não tinham dinheiro para processar o jornal por invasão de privacidade. Ele chegou a custear ações de até três milhões de libras. Um alerta para toda a Inglaterra de que ninguém mesmo estaria imune ao esquemão murdochiano.

Parlamentares do Reino Unido já consideram a crise do “phone hacking” como o maior escândalo da política britânica nos últimos 75 anos. Afinal, as relações entre o governo e o conglomerado de Murdoch foram bastante próximas desde os anos 80, quando Margaret Thatcher abriu as portas de seu gabinete para o magnata. A demora da Scotland Yard em investigar incontáveis denúncias de grampos ilegais também aponta para um cenário em que poder e dinheiro eram os fios condutores da “apuração jornalística” na redação do News Of The World.

Os britânicos não estão convencidos com o depoimento de Murdoch ao Parlamento. “Eu não sabia de nada, mas sim as pessoas em quem eu confiava”, lulou o barão. Sua fiel escudeira e editora do jornal fechado há dez dias, Rebekah Brooks, tampouco assume responsabilidade. Disse que ficou chocada ao saber que o celular de Milly Dowler havia sido grampeado, em 2002, e mensagens, apagadas. Ironicamente, a BBC chama Rupert Murdoch, James (seu filho, também ouvido pelo Parlamento nesta terça) e Rebekah de “os três mosqueteiros”.

A crise no império murdochiano e no governo britânico já está instalada. Rebekah, que foi presa nesta semana e liberada após pagar fiança, é amiga e vizinha do atual premiê, David Cameron. Apesar de ela ter negado ontem que teria conversas “inapropriadas” com o primeiro-ministro, os parlamentares querem ouvi-lo sobre essa relação e sobre a contratação de um ex-editor do News Of The World como gerente de comunicação dele.

Cameron encurtou estadia na África e voltou às pressas ao Reino Unido para participar de um novo debate sobre o escândalo dos grampos nesta quarta-feira no Parlamento. Num enredo com tortas (quase) na cara, morte misteriosa, poder e dinheiro, o clímax da história dos três mosqueteiros fica para logo mais.

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