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Chile comprova: a juventude está sempre na vanguarda

A persistir o quadro atual no Chile, pouco a pouco os protestos se intensificarão. E se a reação do governo for violenta ou desproporcional, a tensão tende a aumentar

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A crise econômica internacional parece estar produzindo novos movimentos de protesto ao redor do mundo. De maneira não coordenada entre si, vimos em diversas partes —Egito, Síria, Espanha, Tunísia— grandes manifestações de rua na luta por transformações profundas nos sistemas políticos e nas políticas públicas de seus países. Mais recentemente, esse movimento eclodiu no nosso vizinho Chile.

Desde maio, quando a presença era quase que exclusiva de estudantes, os chilenos vão as ruas pedir educação superior gratuita para toda a população e o fim do atual modelo educacional do Chile. Nesta semana, a Universidade de Santiago registrou 100 mil estudantes e professores, nas maiores manifestações populares do Chile em 20 anos.

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O modelo do país prevê mensalidade tanto em universidades públicas quanto privadas, de até US$ 400. Os programas de crédito estudantil têm altas taxas bancárias e de juros, o que resultou em uma massa de estudantes endividados. Foi contra a cobrança dessas dívidas e por um sistema gratuito que os protestos começaram.

Mas a crise no Chile pode ter raízes mais profundas. O ex-senador Carlos Ominami —pai do candidato Marco Enríquez-Ominami, que teve 20% dos votos para presidente— avalia que os protestos dos estudantes são apenas a ponta do iceberg, pois o Chile vive um esgarçamento social e grande insatisfação com a crise econômica e com o governo Piñera.

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De fato, a situação política chilena é singular. Sebastián Piñera assumiu a Presidência do país em 2010, colocando fim a um ciclo de 20 anos de governos da coalizão cristã-socialista Concertación. E na contramão do restante da América do Sul, que vem elegendo representantes de centro e de esquerda.

Pouco mais de um ano de governo se passou, e o representante da direita conservadora já enfrenta a fúria dos estudantes. Os estudantes chegaram a ocupar a TV Chilevision, cujo dono é exatamente o presidente Piñera, afastado para exercer seu mandato.

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A marcha em defesa da educação superior gratuita tem sido marcada também pela reação negativa do governo, que se utiliza de um decreto da ditadura de Augusto Pinochet para exigir avaliação prévia do governo para a realização de reuniões públicas. Um verdadeiro absurdo e que contribuiu para fortalecer o movimento dos estudantes, ampliando-o.

A luta por educação de qualidade, universal e gratuita sempre envolve o interesse de toda a população. A persistir o quadro atual no Chile, pouco a pouco, os protestos se intensificarão. E se a reação do governo for violenta ou desproporcional, a tensão tende a aumentar.

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De todo modo, é de se elogiar a fibra, coragem e vanguarda estudantil. Como em várias partes do mundo, e tantas vezes na história, os estudantes são os porta-vozes a externar com suas manifestações a insatisfação que permeia o restante da sociedade. No caso, e neste momento, a chilena.

José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

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