Concheiro: estão abertos horizontes de esperança na América

Futuro vice-ministro de Educação Superior do México, Luciano Concheiro, concedeu entrevista exclusiva ao 247 na tarde dessa quinta-feira (20); atualmente, Concheiro integra o governo de transição do recém-eleito presidente do México, Adrés Manuel López Obrador, que tomará posse no próximo dia 1 de dezembro para um mandato de seis anos; além de falar sobre as perspectivas e desafios para a educação mexicana, Concheiro tratou do significado da vitória de um governo progressistas no México e comentou as eleições presidenciais no Brasil

Concheiro: estão abertos horizontes de esperança na América
Concheiro: estão abertos horizontes de esperança na América

247 - Em passagem por São Paulo, o futuro vice-ministro de Educação Superior do México, Luciano Concheiro, concedeu entrevista exclusiva ao 247 na tarde dessa quinta-feira (20). Atualmente, Concheiro integra o governo de transição do recém-eleito presidente do México, Adrés Manuel López Obrador, que tomará posse no próximo dia 1 de dezembro para um mandato de seis anos.

Além de falar sobre as perspectivas e desafios para a educação mexicana, Concheiro tratou do significado da vitória de um governo progressistas no México e comentou as eleições presidenciais no Brasil. Confira a íntegra da entrevista:

247 - Na sua avaliação, o que representa a vitória do governo popular e progressista do presidente, Andrés Manuel Lopez Obrador, para o México?

Luciano Concheiro: A vitória total de Lopez Obrador, poderíamos dizer assim, significa em primeiro lugar uma vitória do povo do México. Temos que dizer que as eleições no México se converteram em uma eleição com uma participação popular muito importante e, entre uma série de candidatos, o povo elegeu Andrés Manuel Lopez Obrador para a transformação do México.  Isso é muito importante destacar: o povo votou para além do programa de Lopez Obrador.

Sua eleição foi quase plebiscitária e ele recebeu um pouco mais de 53% dos votos. Entretanto, hoje em dia, as pesquisas dão a ele uma aceitação e uma expectativa, fundamentais para a transformação no México, da ordem de 75% em média. Isso significa que o México disse um basta para a política do medo, para a política de terror em que o país vive, para a política do neoliberalismo e para o empobrecimento do povo mexicano, em favor do enriquecimento de uma oligarquia internacional e nacional voraz.

Nessa perspectiva, podemos dizer que a vitória de Lopez Obrador representa um mandato para a quarta transformação do México. As três anteriores foram: a guerra de independência, a revolução de reforma, na qual triunfaram os radicais liberais sob a liderança de Benito Juárez, e a Revolução Mexicana de 1910 – 1940. Para a gente, então, representa a uma verdadeira transformação do México, a abertura dessa oportunidade.

247 – E qual o impacto geopolítico dessa vitória para os países da América Latina, especialmente em um momento de crescimento do conservadorismo e da direita em quase todo mundo?

Concheiro: O impacto geopolítico desse triunfo parece que nos coloca em um novo paradigma da ação social e popular na América Latina e podemos nos atrever a dizer, porque não, em nível mundial? Ou seja, representa quem sabe não somente a recuperação do ciclo dos governos progressistas na nossa América, como dizia José Martí, como também, e isso temos que destacar, a crise do modelo neoliberal e dessa globalização excludente.

Essa participação popular, em meio de uma guerra sem fim, que deixou 240 mil mortos no México nos últimos 10 anos, mas não apenas isso, como também 65 mil desaparecidos, um país que está entre os primeiros lugares nos casos de feminicídios em nível mundial e nesse lugar especificamente, que é a 14º economia do mundo, ou seja, uma economia rica, mas com um povo muito, muito pobre, em que mais de 50% da população está em uma situação de pobreza, das diversas pobrezas, incluindo a pobreza patrimonial, estamos falando, então, de uma ruptura histórica.

Acreditamos que, nesse sentido, o questionamento a essa globalização excludente, que aparece a partir do governo mundial das transnacionais e da imposição de política gerais, abre um sentido de esperança não só para o povo mexicano, mas também naquilo que queremos compartilhar, que é precisamente um horizonte de esperança para o conjunto de povos do nosso continente e também para além dele. Vemos assim e acreditamos que é um triunfo dos povos do mundo, não somente do povo mexicano.

247 - E a respeito das eleições presidenciais brasileiras? Vocês têm acompanhado? Qual sua avaliação e perspectivas?

Concheiro: A política do nosso governo é de respeito aos processos que se vivem nos países. Pessoalmente, tenho acompanhado de perto, porque se houvesse uma correspondência na perspectiva do que foi gerado de um sentido progressista, de um sentido de humanidade, de um sentido de compromisso com os interesses populares nos parece central o que acontece, hoje, no Brasil. É evidente que em termos geopolíticos, se  conseguirmos somar a implementação do que acontece agora no México, de um horizonte de esperança, um encontro com o Brasil seria um tema central.

As perspectivas que eu vejo, analisando as diferentes pesquisas, é óbvio, digamos assim, que “cavalo que alcança, ganha”, nesse sentido, considero Haddad e Manuela. Com base nos números, também considero que Bolsonaro está encontrando seu teto de crescimento. Por isso, eu creio que será um segundo turno muito interessante no Brasil, respeitando o processo e vendo os números é o que me atrevo a comentar, o que não quer dizer que eu defina essa ou aquela perspectiva, pois, insisto nisso, para nós é fundamental o respeito aos processos internos dos países, porque queremos que nos respeitem e que nós mesmos possamos definir os nossos processos.

Isso também não quer dizer que não tenhamos uma perspectiva geopolítica a compartilhar com os candidatos de esquerda, progressistas, que têm uma perspectiva de mudança para o Brasil, que podem ajudar a aprofundar as grandes transformações que aconteceram até agora neste maravilhoso país.

247 – Entrando na pauta da educação superior mexicana, pasta que o senhor será dirigente, quais são os principais desafios do governo Obrador neste campo?

Concheiro:  No México, apenas 38% dos estudantes conseguem acesso à educação superior. Ou seja, mais de 60% dos jovens ficam sem educação, em um país, no qual a taxa de desemprego também é elevadíssima. Nesse sentido, o desafio da educação superior é enorme. Antes de tudo, nós queremos enfrentar essa desigualdade, pois a educação superior representa um espaço de busca pela paz no México, um espaço para o desenvolvimento da ciência e tecnologia e um espaço para a formação da cidadania, em um sentido radicalmente oposto ao que tem hoje em dia. Para gente é fundamental enfrentar esse grande desafio.

Também temos que dizer que, hoje em dia, possuímos10 universidades estatais muito poderosas, que possuem ao redor de 700 mil estudantes, que hoje se encontram em uma condição de quebra econômica, quase a ponto de irem para a greve. Nessa perspectiva, esse representa um desafio fundamental. A dívida estrutural dessas universidades passa de US$ 1 bilhão. Isso representa a herança de uma crise largamente construída contra universidades, que tem sofrido um processo crescente de privatizações de muitas de suas funções, um ataque direto à educação pública no México, uma desaceleração do crescimento da oferta e das matrículas e, portanto, uma queda importante no que podemos chamar de qualidade na educação superior.

O investimento em ciência e tecnologia no México tem se mantido e estaríamos enfrentando efetivamente um abandono paulatino e deliberado da educação superior pública para colocá-la em uma crise, como a que expressam essas 10 universidades. Hoje, enfrentamos esse grande desafio de conseguir tirar essas universidades de suas crises e fazer uma transformação estrutural para que elas não voltem a cair nessa condição.

Temos que dizer também que, hoje, enfrentamos uma greve universitária na principal universidade do país. Estamos falando da greve da Universidade Nacional Autônoma do México, que tem cerca de meio milhão de estudantes. E essa greve representa, singularmente, uma rejeição a violência no campus da universidade. Estamos falando diretamente de uma agressão que sofreram 12 estudantes, no dia seis deste mês. Eles foram atacados por grupos parapoliciais, que constroem todo um sentido de violência dentro da própria universidade, e estiveram a ponto de perder a vida, ficando em estado muito grave no hospital. Esse ataque se deu quando esses estudantes, mais umas vezes, se manifestavam contra feminicídio de uma estudante de nível médio superior.  Por isso, enfrentamos também essa grande manifestação cívica e pacífica dos estudantes, que exigem acabar com a violência nas universidades e o mais importante acabar com a violência do nosso país.

Então, hoje, a educação superior tem o desafio muito importante de se ligar com um processo de desenvolvimento da paz no México. O que quero dizer com isso é não estamos falando da educação superior apenas como ensino e a vinculação social, mas estamos falando também do papel da universidade na construção de um país radicalmente diferente, de um país em que haja liberdade, em que haja equidade, em que haja igualdade, em que, digamos, possamos viver em paz.

247 – E diante dessa realidade, o senhor preparou alguma estratégia para a inclusão dos mais pobres e de segmentos historicamente excluídos da educação superior mexicana nas universidades?

Concheiro:  Temos uma proposta muito importante de inclusão dos mais pobres, mas também de combate direto às desigualdades que existem em termos de gênero e, ainda, o que é muito importante, atacar o racismo, que prevalece na prática de nossas universidades. Não podemos esquecer que 20% da população mexicana se declara indígena, os povos originários, e que se nós olharmos a população de indígenas que estão nas universidades, vamos nos deparar com um grande déficit que temos que cobrir.

Nessa perspectiva, a proposta central se encontra ao redor de todo um planejamento de políticas inclusivas, de inclusão dos povos originários e de seus jovens e também de atacar a tremenda desigualdade que existe entre homens e mulheres nas nossas universidades. Hoje, existem mais mulheres nas nossas universidades, mas elas são excluídas em uma proporção de 1.5 em relação aos homens. Isso quer dizer que de cada 100 homens que desejam ingressar na universidade 10 conseguem, enquanto, no casado das mulheres, para cada 150 que querem entrar na universidade só 10 conseguem.  Nesse sentido, há uma amostra concreta de uma reinvindicação social, que passa por uma política de gênero.

Também poderíamos falar de uma exclusão de ordem econômica. Para isso, temos uma proposta de como incluir os jovens dos segmentos mais pobres a partir de uma política de bolsas muito forte. Temos planejado para o conjunto dos jovens 11 milhões de bolsas ao redor do país, com distintas características, dentre as quais são muito importantes as bolsas para trabalhar e estudar ao mesmo tempo. Não só um modelo de universidade dual, mas também a partir da integração das universidades, da vinculação territorial das universidades para o apoio ao desenvolvimento de fontes de trabalho, uma vez que se convertem em fontes de estudo, em um modelo muito importante.

Queremos impulsionar, e já temos prontas, 100 novas universidades, escolas de educação superior poderosas surgidas das organizações sociais. Dessas 100, 73 se encontram em municípios basicamente indígenas e vão responder não só por uma educação em suas línguas, não só por uma perspectiva intercultural, mas também vão obedecer a uma lógica de desenvolvimento comunitário decidido pelas próprias comunidades. Esse modelo de educação superior que surge a partir dos territórios nos parece fundamental.

A terceira ação dentro dessa mesma tem a ver com um sistema de bolsas para a educação superior, basicamente a educação pública. Só entre 4 e 6% das bolsas pensamos em destinar para as universidades privadas, para aquelas que fazem da educação não um negócio, mas para aquelas que se propõe efetivamente a realizar uma educação ao lado do povo, para a formação do povo, para aquelas universidades que tem uma vocação para a integração cidadã dos jovens. Poderíamos dizer, ainda, que nessa perspectiva, acaba sendo fundamental o propósito de ampliar fortemente a matrícula para conseguirmos chegar a cobrir, em dois anos, 50% da demanda e seguir crescendo ao longo dos seis anos de governo do presidente López Obrador.

247- Dentro dessa perspectiva, a adoção de políticas afirmativas, como a definição de cotas para indígenas ou por renda, por exemplo, está no horizonte do governo Obrador?

Concheiro: Sim. Temos políticas afirmativas tanto para indígenas, como bolsas para indígenas, como para os mais pobres. Queremos induzir o acesso dessas populações as universidades mexicanos. Esse é um imperativo ético para o nosso governo. É, também, um de nossos pontos centrais para formar toda essa condição na qual se encontra a população mexicana a respeito da educação superior.

Quero acrescentar que existe um pequeno espaço das universidades interculturais. São universidades bilingues, que na verdade só atendem a formação dos indígenas, para que aprendam espanhol, dentro de uma perspectiva em que nós que falamos espanhol também aprendamos com a cultura indígenas. Estamos falando não só da metade dos indígenas de nosso continente, que se encontram no México, mas do segundo país de maior diversidade de povos originários, depois apenas da Índia.

Por isso, é fundamental recuperar essa questão. Não para os indígenas, porque isso não é um problema deles, é um problema de como concebemos o México, ou seja, a partir da diversidade como um problema. Entretanto, para nós, uma gigantesca riqueza de reserva moral, e até mesmo intelectual do México, se encontra na nossa diversidade, nos povos originários do México. Por isso, vamos projetá-los.

Então, podemos dizer que uma política afirmativa nada mais é do que uma política que nos transforme cultural, profunda e definitivamente em um país mais juntos. Também em um país que se construa a partir da diversidade e não da homogeneização negativa e falsa, que só polariza ainda mais nosso país. 

247 – Existe algum planejamento para a expansão e para a interiorização das universidades mexicanas?

Concheiro: Estamos, neste momento de transição, justamente planejando como vamos conseguir expandir a educação superior do México, com princípios de qualidade. Para gente é importante não fazer um crescimento sobre a base do tratamento diferenciado, portanto, desigual, de crescer na pobreza ou na falta de universidades de qualidade. Nessa perspectiva, estamos trabalhando em modelos, temos três grandes subsistemas de educação superior e neles nos encontramos planejando, junto com as junto das universidades de cada um desses subsistemas, uma formar de crescer, que nos permita avançar rapidamente nos nossos compromissos com o povo mexicano.

Eu menciono, por exemplo, no caso da Universidade Autônoma do México ou do Instituto Politécnico Nacional, que são autônomos e descentralizados, ou da Universidade Nacional Autônoma, que é a terceira universidade nacional do país, ou de outras que possuem características semelhantes, estamos trabalhando com eles, respeitando a autonomia de cada uma dessas instituições, mas com o propósito de crescer na oferta de matrículas, de forma que nos permita avançar nos termos de um incremento de ofertas e na consolidação da qualidade. Outro quesito que nos parece fundamental é a vinculação das universidades com os problemas nacionais. 

Mais um subsistema é o das universidades estatais. Uma grande parte da oferta se encontra nas universidades consideradas estatais. Isso é, o governo de cada um dos 33 estados mexicanos mantém universidades estatais. Para essas universidades estatais, particularmente várias delas como as dos 10 estados que se encontram em crise, como já mencionei, há toda uma proposta de como ajudá-las e também expandir suas ofertas e consolida-las. É nesse sentido que estamos avançando.

Outro subsistema importante é o de instituições superiores tecnológicas, que foi o mais atacado pela política neoliberal, que recebe, atualmente, menos dinheiro, que foi esvaziado em importância e que engloba quase 1 milhão de estudantes. É aqui, quem sabe, que teremos o maior desenvolvimento e há uma grande disposição, porque é todo um sistema, aí sim, coordenado em nível nacional. Por isso, consideramos que pode ter uma rápida ligação, precisamente por sua inserção local, por sua relação com a indústria, com os camponeses, com os serviços e que podemos ter aí um amplo crescimento.

O terceiro subsistema é o de educação normal, que também foi um dos mais atacados no México. Se reduziu a quantidade de matrículas a quase a terceira parte do quer era no princípio do governo que está terminando agora. Passamos de 170 mil estudantes para apenas 65 mil estudantes. O subsistema se encontra um pouco estabilizado, mas também aqui queremos dar um novo sentido à educação nacional, isso é a formação de professores com nível universitários. Queremos, ainda, entrar em toda uma dinâmica, uma verdadeira reforma educacional, a partir do apoio que é esse subsistema de professores em nível universitário, isso é: aqueles que incidem diretamente na própria educação.

Vamos reabrir pelo menos uma das universidades de educação normal, uma normal do campo, que tinha muita importância política e que foi atacada e fechada diretamente pelo regime. Também vamos recuperar outras normais que, até agora, se mantem com mensalidades ou pedidos, digamos que tem aportes dados pela própria sociedade, isso é, que na prática foram privatizadas.

E, nesse sentido, dentro da crise profunda que vive o sistema de educação superior mexicano em seu conjunto, que pretendemos efetivamente, a partir do planejamento pensando com a participação dos atores centrais, que queremos desenvolver. Temos que somar a esse conjunto, ainda, as universidades privadas e temos tido junto a elas uma série de reuniões de organização da educação superior privada para que ela eleve sua qualidade.

247 –  E como ocorre o acesso as universidades no México? O país possui algum exame republicano e universal, como Enem no Brasil, por exemplo?

Concheiro: No México, cada uma das universidades possuí um programa próprio de acesso e seus exames próprios. Apenas em uma universidade o ingresso ocorre por meio de sorteio, que é a Universidade Autônoma da Cidade do México, que foi fundada na época em que o presidente López Obrador foi chefe de governo da cidade do México. Por isso, em razão da autonomia universitária, cada uma tem seu processo de admissão e temos entramos em prática sobre o caráter de um desses exames de admissão, sobre o qual estão dispostos façamos sua revisão nos termos da integração dos jovens. Seguem prevalecendo, em muitos desses exames, condições de memória e não realmente de formações processuais, que são elementos centrais.

Então, concretamente, não temos um sistema republicano que seja para todo mundo ao mesmo sistema de acesso e uma distribuição republicana e aberta de ingresso na universidade. Essa alternativa nos parece interessante, mas quero lembrar que uma das maiores greves universitárias, no início dos anos 90, foi justamente para rechaçar a construção de um sistema de ingresso muito mais universal e seletivo, que continha cotas diferenciadas para ingresso nas universidades.

Com isso, digo que nossa condição de universalização passará por uma reforma, no artigo 3º da nossa Constituição, para que os jovens possam ingressar na universidade com absoluta gratuidade. Temos que garantir que não existam mensalidades para os jovens em nenhuma de nossas universidades públicas e que não prevaleça essa condição diferenciada entre algumas que cobram mensalidades, nunca como em outros países, é preciso dizer que no México a universidade é quase grátis, mas temos que eliminar esse quase.

Não acredito que experiências como o Enem estejam em nosso horizonte imediato, mas acredito que possa ser planejado em médio prazo, quando estejam integrados os subsistemas para o interior em uma relação horizontal com o sistema do ensino médio e com o sistema da educação básica. Isso é, queremos romper a divisão existente e o tratamento de subsistemas e de sub sub sistemas para conseguir uma leitura de outra ordem na educação. Uma leitura que corresponda realmente a uma dinâmica importante da educação no sentido inovador e de transformações profundas da nossa realidade e junto com ela de nossas universidades.

247 – Como o senhor avalia a experiência dos governos Lula e Dilma na educação? Programas estratégicos como o ProUni e o Fies podem ser aplicados à realidade mexicana? Vocês têm essa intenção?

Concheiro: A experiência dos governos Lula e Dilma na educação, especialmente na educação superior, é impactante. Temos lido e tido a oportunidade de receber no México universitários brasileiro em programas de formação sanduiche comuns com a gente e estamos impressionados com os tipos de jovens que nos chegam. Não estou falando dos números, mas sim das pessoas, do contato direto com jovens maravilhosos, de pessoas que chegam até a gente e que nos abrem um horizonte radicalmente diferente.  Com essa sorte, já posso julgar essas políticas por seus resultados e seus resultados vivos de carne e osso.

Nessa visão, acreditamos que programas como o de financiamento estudantil nas universidades privadas ou todo o planejamento o ProUni, por exemplo, são muito interessantes. Vamos nos aprofundar nas suas aplicações, mas, particularmente, a polarização entre as universidades públicas  e aquelas que se construíram nos termos das universidades privadas, que cresceram vertiginosamente no México, nos obriga a pensar com calma em como integrar todo esse universo da educação superior. É evidente que a ofensiva neoliberal afetou o sistema universitário, mas não o atingiu em seu conjunto. Por isso, hoje em dia, teríamos que olhar para políticas públicas par ao financiamento, a busca de uma ampliação das matrículas, que inclua a educação privada.

Também é preciso considerar que nos dois países existem condições políticas diferentes. Acredito que nem o Brasil e nem nós pensamos que se possa copiar as coisas da mesma forma que seu deu no outro país. Entretanto, como um espelho, vocês nos dão uma inspiração fundamental para também enfrentarmos os problemas de uma forma original, em uma perspectiva inovadora e de compromisso com o país.

247 –  Como se dá a relação das universidades privadas com o Estado mexicano? Há regulação? Como vocês pretendem tratar este tema:

Concheiro: A regulação das universidades privadas é, realmente, muito pobre. Não existe uma regulação efetiva, mas há uma intenção da federação das mais importantes universidades privadas, com quem temos mantido contato, de entrar em um regime que permita a eles mesmo protegerem a educação privada de um crescimento desordenado e do crescimento na pobreza de sua oferta. Quer dizer que essas universidades que se multiplicam como fungo, que praticam quase que uma venda de títulos, são prejudiciais ao próprio sistema das universidades privadas, que tem uma perspectiva distinta.

Então, temos que avançar na regulação e na autorregulação. Vamos avançar com eles também na expansão das matrículas para permitir o ingresso de jovens de estratos sociais menos favorecidos, para que consigam entrar nas universidades particulares, em termos de construção da cidadania. Estou convencido que há uma disposição de discutir essa questão, porque a pobreza e a violência, que acompanha essa pobreza, exigem atacar a polarização em que se contra o México.  Tenho certeza que essa condição é fundamental para projetarmos uma educação inclusiva e de construção da cidadania, em um sentido diferente do que existe hoje.

A questão dos indígenas e de gênero, a qual já me referi, também foi discutida com essas universidades, que apreciaram o tema. Por exemplo, no sistema dos jesuítas de educação, temos propostas extremamente interessantes de como regular a relação com a população de menos recursos de forma que se amplie a matrícula.

Por isso, é preciso dizer que estamos em uma discussão aberta com o sistema de universidades privadas para entrarmos em um projeto de educação dual com a indústria, atendendo a grandes revoluções em nível técnico, que estão acontecendo no México e que enfrentam um problema gigantesco. Hoje, os empregos oferecidos na indústria são de muito baixa remuneração e, portanto, os jovens das universidades privadas acabam enfrentando as mesmas condições dos das universidades públicas, ou seja: não há emprego para os formados na educação técnica e profissional. Esse é um problema comum e queremos enfrenta-lo com uma grande política de salários em nível federal.

247 -  O Estado mexicano possui algum mecanismo de controle e avaliação da qualidade da educação superior? Como o governo Obrador tratará dessa questão?

 Concheiro: Existem diversos mecanismos de avaliação, mas representam uma parte do que foi privatizado da educação superior pública e privada no México. O que queremos dizer é que cresceram uma série de empresas privadas para a avaliação das carreiras e isso se converte em um processo importante, mas que não tem permitido o desenvolvimento efetivo de um sistema de avaliação que retroalimente a própria educação.

Não acreditamos que possa haver uma educação superior de qualidade sem processos de avaliação muito mais consistentes e com um amplo controle social e governamental de como retroalimentar a qualidade. Por isso, vamos tratar essa questão de uma forma que nos permita avançar efetivamente na avaliação para transformar.

Para isso, iniciamos uma série de consultas com todas as universidades sobre o tema e acreditamos que é difícil deixar para trás o sistema de avaliação privado, mas podemos gerar condições para garantir que esse sistema sirva de retroalimentação. Então, há roda uma proposta de avaliação e de autoavaliação e se não encararmos o tema a partir da perspectiva da autonomia universitária será muito difícil avançarmos na linha do efeito que deveria ter um sistema de avaliação, mesmo que mais adiante seja convertido, como nos EUA, eu um gigantesco negócio.

247 – Um dos grandes desafios da educação superior brasileira é a expansão descontrolada da educação à distância sem qualquer controle de qualidade. Como está essa questão no México?

Concheiro: A experiência da educação à distância é muito pobre na educação superior. No médio superior, em um sistema que chamamos de preparatório, é muito mais forte e se converteu em um sistema descontrolado como aqui no Brasil, com muito baixa qualidade, o que requer uma maior engenharia nesse maior nesse nível.

A educação à distância na educação superior tem pouco mais de quatro anos de existência e ainda não podemos fazer uma avaliação dele mesmo, mas há uma perspectiva interessante. Até agora há um compromisso para revisitá-la, mas não vamos chegar destruindo tudo só porque vem dos governos neoliberais. Vamos recuperar os projetos importantes e vemos na educação à distância uma possibilidade efetiva de crescimento, especialmente nas regiões em que vamos demorar para ter uma infraestrutura de outra ordem.

Também há propostas de diversas universidades de gerar sistemas semipresenciais e aí nos parece que há um campo muito interessante. Já estamos recebendo três grandes propostas, que representam cada uma em torno de 20 mil estudantes, ou seja que não englobam todos os estudantes, mas pelo tipo de proposta, nos parece inovadora nos novos campos de educação ligados à indústria, ligados à uma dinâmica de desenvolvimento regional e com uma inovação interessante na relação da universidade com o seu entorno, isso é com as áreas onde se desenvolvem, depois de muitos anos de separação das universidades com o que as rodeia. O isolamento das universidades é um dos piores efeitos das políticas neoliberais.

Então, com relação a essa perspectiva podemos ser relativamente otimistas, no que se refere a busca no que se está almejando, com a vantagem de serem sistemas massivos, que podem incluir com uma perspectiva distinta em uma condição importante de qualidade. Além disso, que se encontre com a capacidade e com as formas com que os jovens, hoje, aprendem e se integram aos sistemas de informação. Não se trata apenas de outra forma de comunicação ou de novas tecnologias, mas também como por meio desses mecanismos se poder gerar toda uma integração de empresas e outras condições que nos parecem muito importantes.

247 -  Há alguma perspectiva de expansão do financiamento público para a educação? Como será essa estratégia de ação?

 Concheiro: Para este ano, estamos discutindo uma linha de expansão e de estabilização do orçamento da educação superior. O primeiro compromisso do nosso governo é que as universidades recebam pelo menos a mesma quantidade que recebiam até este ano.  Houve uma quebra em 2016 muito forte e outra anterior, em razão da queda do preço do petróleo.

O que pretendemos, hoje, é recuperar o nível do orçamento, que existia na educação superior mexicana antes do atual governo, que era pelo menos uma tendência estável, que permitia não apenas que o gasto de operação ocupasse a grande maioria do orçamento das universidades.  O que queremos dizer é que cerca de 88% dos orçamentos das universidades é para pagar salários e prestações, o que faz com que outras funções fundamentais da universidade, como a pesquisa, a produção universitária, entre outros sejam um pouco enfraquecidas. Por isso, queremos modificar essa realidade.

A segunda questão do orçamento é recuperar as 10 universidades que estão quebradas e algumas estão indo para o mesmo caminho. Por isso, teremos um programa emergencial para a questão.

Para o segundo ano, o planejamento é iniciar sobre uma base de compromisso efetivo com os próprios agentes da educação superior para podermos expandir as matrículas com qualidade, para investir em ciência e tecnologia, para recuperar o sentido das grandes equipes de pesquisa, a partir do modelo de bolsas que recebem os professores universitário e reorientar o Sistema Nacional de Pesquisa, que se contra estagnado e que trouxe a destruição completa de todos os coletivos de pesquisa e de trabalhos em grupos nas universidades.

247 – Qual a política do governo Obrador para a pós-graduação e a internacionalização do conhecimento?

Concheiro: Devido a algumas políticas de incentivo, a pós-graduação tem crescido, no México, em um ritmo de expansão mais importante do que a de matrículas de licenciatura. Entretanto, essa expansão se concentra em algumas áreas que estão saturadas no mercado e as condições de qualificação não vem correspondendo em nível salarial. Por isso, há uma estabilização nas demandas por pós-graduação, mesmo que esse seja um requisito para professores receberem bolsas nas universidades.

Não há uma política efetiva para o desenvolvimento da pós-graduação. Acreditamos que é fundamental, frente as reinvindicações que existem diante das novas realidades no México e em todo mundo, que nos obriguemos a pensar na formulação de uma política específica para este nível.

Essa estratégia está relacionada a internacionalização do conhecimento, que também inclui o nível das licenciaturas. Acreditamos que esse é um campo de discussão fundamental que devemos atender. Hoje, já existe um sistema de bolsas de mobilidade, mas está concentrado em universidades com maiores recursos. Com isso, queremos dizer que a desigualdade se reproduz entre algumas poucas universidades públicas e a maioria das demais.

Para se ter uma ideia dessa polarização, em 4 estados do país se concentram 70% de toda oferta educativa, ou seja, há uma hiperconcentração geográfica e algumas universidades concentram a maioria da oferta educativa. Se nos voltarmos para a pós-graduação, vemos que essa grave concentração não é diferente.

Hoje em dia é preciso atenção para conseguirmos um desenvolvimento que foque não só na quantidade ou em uma avaliação quantitativa de mera eficiência de final de curso ou de alguns outros elementos que aproximam a avaliação do impacto social e de mercado de trabalho, mas que aprofundem o importante efeito social que podem ter as pós-graduações ou o impacto efetivo de uma política de ciência e tecnologia. Acreditamos que, atualmente, essa estratégia deve caminhar em conjunto com um projeto de internacionalização, que nos permita ser inseridos e compartilhar conhecimento em nível internacional.

Nesse sentido, Brasil e Argentina são fundamentais para conseguirmos essa integração. Quero dizer que começa a ser deficitária nossa relação com o Brasil, por que há mais brasileiros em nossas universidades do que mexicanos no Brasil. Assim como ocorre com a Argentina.

Nossa abertura é basicamente para universidades dos EUA e Canadá, especialmente EUA, e isso tem uma relação direta com o que costumamos chamar de fuga de cérebros e possui, ainda, um viés particular que abarca elementos culturais, elementos de uma cidadania latino-americana, que queremos desenvolver. 

247 –  O senhor gostaria de fazer mais algum comentário? Há algo que deixamos de perguntar?

Concheiro: Quero comentar a tremenda esperança que existe agora no México de transformar nossa realidade. É incrível! O povo verdadeiramente depositou sua confiança no Movimento Regeneração Nacional, Morena, no presidente Andrés Manuel López Obrador, na Câmara dos Deputados e no Senado, onde conseguimos formar uma maioria absoluta.

Essa grande confiança sobre as transformações, nos levou a uma realidade, nas palavras do próprio presidente López Obrador, de que não temos o direito de nos equivocarmos. Isso é algo muito forte e nos leva a um imperativo ético de fazer a grande transformação que o México precisa.

Quero dizer que não vamos usar nossa maioria para fazer igual a direita e aos conservadores e impor mudanças para além do que está no nosso plano de governo, que o povo apoiou. Podemos ir além, mas a partir de mecanismos importantes de participação popular, como plebiscitos e referendos.

Sabemos que essa esperança não é só do povo mexicano. Estão abertos horizontes de esperança em nossa América. Os olhos do mundo estão voltados para o povo do México e para suas reinvindicações e estamos convencidos que o povo mexicano vai participar de sua autoemancipação. Por fim, vale a pena a redundância de dizer que efetivamente essas grandes transformações têm que ser do povo, com o povo e para o povo. 

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