Crise da obesidade

Nos EUA, problema ameaça não apenas as contas de saúde do país, mas o futuro de toda uma geração, principalmente os jovens

Os Estados Unidos, desde 2008, enfrentam uma das piores crises econômicas da história. Mas existe uma outra crise, que ameaça não apenas as contas de saúde daquele país, mas o futuro de toda uma geração, principalmente os jovens. E que deverá ter um impacto negativo importante nas projeções futuras daquela economia.

“Embora ninguém fale sobre isso, a América tem um problema de saúde muito, muito grave e debilitante chamado "obesidade". Não se trata de encarar “gordinhos simpáticos”, mas a verdadeira doença, que, inevitavelmente, mudará a equação demográfica, reduzindo a expectativa de vida e, ao mesmo tempo, alterando todos os prognósticos futuros”. A afirmação é do respeitado analista de investimentos, de Nova York, Barton Biggs, em relatório divulgado a clientes de bancos.

Segundo ele, os Estados Unidos é o país mais gordo e mais acima do peso no mundo. Como resultado, os encargos médicos podem ser muito maiores do que qualquer previsão, um enorme fardo, que talvez mine a capacidade de crescimento econômico. São responsabilidades que irão impactar, a longo prazo, qualquer avaliação que se faça da economia americana.

Para o analista, cerca de 35% da população dos EUA são obesos e, por razões inexplicáveis​​, na última década a porcentagem está crescendo a um ritmo acelerado. Os americanos estão se tornando gordos mais cedo e cada vez com menos idade. Como resultado, doenças relacionadas como diabetes, doenças do coração e pressão alta estão alcançando proporções epidêmicas.

"Cerca de dois em cada três americanos está com sobrepeso ou obeso". Richard H. Carmona, M.D., M.P.H. Department of Health and Human Services

Existe um outro problema que ronda a saúde dos jovens, alerta o analista. Recente artigo do New York Times apontou que a expectativa de vida por volta de 1980, em muitas áreas de baixa renda e, presumivelmente, menos educadas do país, onde o consumo de sanduíches, alimentos gordurosos (chamados junk food) foi alta, era de cerca de 60 anos, enquanto nas áreas mais ricas e educadas chegava perto de 78-80 anos. Atribui-se a maior parte dessa discrepância aos hábitos alimentares pouco saudáveis ​​e ao consumo de refrigerantes açucarados. Esta combinação e a falta de exercício levaram a um aumento impressionante na obesidade, diabetes, pressão alta e depressão relacionadas com o aumento do peso.

Observa Barton Biggs, na análise, que estudo mais recente indica que agora as pessoas nas áreas mais pobres estão se tornando atingidas com diabetes e doenças cardíacas em idades mais jovens, embora sua expectativa de vida tenha subido para 66 anos de idade. No caso dos mais ricos, houve poucas mudanças nas estatísticas de saúde ou longevidade.

Efeito colateral

As melhorias na expectativa de vida das classes mais baixas é atribuída ao desenvolvimento e uso amplo de estatinas, que abaixam o colesterol e aos avanços na cirurgia cardíaca. A taxa de colesterol e pressão arterial elevada nos obesos caiu drasticamente nos últimos 20 anos. Mas a obesidade trouxe outros problemas que acabam impactando o orçamento da saúde. O corpo humano e suas articulações não foram projetados para suportar pessoas com sobrepeso e a obesidade resultou em um enorme incremento no número de cirurgias do quadril e dos joelhos. Nos dois casos, são procedimentos complicados e sujeitos a sequelas.

Mas o analista de investimentos vê com pessimismo o futuro até mesmo da geração mais jovem, nascida na era do culto ao corpo e das academias. “Mais e mais americanos estão engordando mais jovens. Mas graças aos avanços médicos, a expectativa de vida das classes mais pobres e menos educadas provavelmente vai continuar subindo”. Entretanto, diz ele, ela caminha para ser uma enorme subclasse de pessoas com sobrepeso, que será parcialmente deficiente, letárgica, e sofrendo de uma perda da autoestima. Eles caminham para exigir cada vez mais atenção médica.

O analista de investimentos viu esse exemplo em hospital que ele frequentou no último verão. “O hospital de reabilitação estava lotado com 300 outros pacientes se recuperando de próteses de joelho e quadril. Eram quase todos entre 40 e 70 anos de idade. Para a grande maioria não era esporte ou exercício que havia causado a falência de seus quadris, joelhos e, em alguns, problemas nas costas. Eles simplesmente tinham comido mal e, presumivelmente, muito. E tinham feito muito pouco exercício.

O triste, segundo ele, foi que após a cirurgia de substituição bem sucedida, os pacientes estavam tendo problemas terríveis de reabilitação para recuperar a mobilidade, porque estavam muito acima do peso. Além disso, esses pacientes serão alvos de nova cirurgia de substituição, ainda nos próximos dez anos, por causa de seu peso. Este não é um problema menor. Em 2012, haverá 550 mil operações de substituição do quadril nos EUA, com contas bastante onerosas de cirurgias, hospitais e reabilitação, o tempo todo ou, eventualmente, pagas com o dinheiro dos contribuintes.

Juventude ameaçada

O alarme não é apenas dos analistas econômicos. Pediatras e médicos das escolas alertam para uma epidemia de obesidade em crianças e jovens. O que tem criado outro problema. Uma explosão de cirurgias de redução do estômago em jovens. Cerca de 220 mil cirurgias têm sido feitas por ano, nos Estados Unidos, em pacientes com menos de 18 anos, a um custo de 6 bilhões de dólares por ano.

Artigo do New York Times, publicado em 7 de janeiro, afirma que o aumento desse tipo de cirurgia decorre também de imposições que a sociedade atual coloca sobre o jovem, entre eles a obsessão pela beleza, o culto a perfis cada vez mais magros e, o lado perverso, também ao bullying, outra praga que incomoda, não apenas os adolescentes que destoem do padrão de beleza, mas também educadores e donos das escolas.

Mas a eficácia, a longo prazo, da perda de peso por meio de cirurgia, particularmente a de redução do estômago, ainda está em questão. O procedimento encontra resistência de médicos, que dizem ser muito drástico operar pacientes cujos corpos ainda podem estar se desenvolvendo e que não tenham dado muito tempo para perder alguns quilos por conta própria.

"Eu acho que é uma medida muito extrema mudar a anatomia de uma criança, quando você nem sequer abordou outros elementos", disse Dra. Wendy M. Scinta, médica de família em Manlius, subúrbio de Syracuse, nos EUA, especialista em perda de peso pediátrico. Ao contrário dos pacientes mais velhos, ela disse, "não se justifica essa pressa para corrigi-los, como se eles fossem morrer".

Um a dois por cento de todas as operações de perda de peso, ou bariátricas, são em pacientes menores de 21 anos, mas os estudos estão em andamento para avaliar os resultados da cirurgia em crianças a partir dos 12. A banda de silicone que pode ser inserida cirurgicamente, contraindo o estômago para fazer o paciente se sentir saciado rapidamente, busca autorização do Food and Drug Administration para ser comercializada com pacientes tão jovens quanto 14 anos, quatro anos mais novos do que atualmente é permitido. Hospitais em todo o país abriram centros bariátricos para adolescentes nos últimos anos.

"Se o número de obesos individuais continuar crescendo nos EUA, nos níveis atuais, metade dos americanos adultos será obeso em 2030". Caroline Scott-Thomaz

"A maioria de nós é testemunha de que médicos dão sempre o mesmo conselho para crianças que estão acima do peso - elas só precisam de dieta e jogar e brincar mais na rua", disse Dr. Thomas Inge, professor de cirurgia e pediatria na Universidade de Cincinnati. "Eu gostaria que fosse assim tão simples. Mas todos nós sabemos que não é".

Barton Biggs conclui que “os americanos têm reduzido drasticamente o cigarro e o charuto, o que é uma grande coisa. Agora, a longo prazo, um outro tsunami de saúde ainda mais perigoso parece estar vindo da obesidade. Fumar reduz a expectativa de vida, e esta nova epidemia não pode reduzi-la, mas vai sobrecarregar-nos com uma população gorda, parcialmente aleijada e enfraquecida. Basicamente os americanos estão se tornando um povo menos saudável”. Crescimento real do PIB é o crescimento da força de trabalho mais produtividade. A obesidade ameaça ambos e, portanto, o crescimento do PIB real. (JJF)

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