Professor critica cobertura da mídia: depois de um atentado dos EUA, a preocupação é com o regime iraniano?

Para o professor de Direito Internacional da FGV Salem Nasser, a mídia convencional desviou o foco na cobertura midiática do assassinato do general iraniano Qassem Soleimani, promovido por Donald Trump. O destaque, que deveria ser a ilegalidade do ataque norte-americano, foi puxado para outro lado, o de que Soleimani era um terrorista e de que o governo do Irã é autoritário

Hassam Rohani, Donald Trump e Salem Nasser
Hassam Rohani, Donald Trump e Salem Nasser

247 - O professor de Direito Internacional da FGV Salem Nasser conversou com a TV 247 acerca da cobertura midiática do assassinato do general do Irã Qassem Soleimani, orquestrado pelo presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. Para o professor, a mídia convencional jogou a atenção da população para um suposto envolvimento de Soleimani com ataques terroristas e para o regime autoritário iraniano enquanto o fato a ser discutido seria o ataque norte-americano.

Nasser analisou as transgressões cometidas pelos EUA no assassinato de Soleimani. “O Iraque é, a princípio, um aliado dos Estados Unidos, tem um acordo com os Estados Unidos para efeitos da luta contra o Estado Islâmico, o terrorismo e assim por diante. Esse acordo tem seus termos, e os EUA ao atacarem um visitante oficial de um outro país que vai em visita oficial ao Iraque, e junto com ele matam um comandante de uma força iraquiana, sem avisar as autoridades iraquianas, além de ser uma violação do direito internacional como um todo é uma violação do acordo específico que eles têm com o Iraque, é uma descortesia absoluta, além de ser um erro estratégico”.

Em decorrência das condições nas quais Soleimani foi morto, o professor Salem Nasser questionou que a atenção do público tenha se voltado para as críticas ao regime do Irã, visto como autoritário e autocrático, sendo que o fato relevante é o ataque sem precedentes ordenado por Trump. “É incrível como a força de atração dessa narrativa oficial ganha força logo em seguida, ela se recupera. Nós começamos a ver mais notícias ligando pretensamente o Soleimani a um ataque terrorista e volta um pouco a demonizar o Irã, volta às manifestações contra o regime, um regime que é imperialista e autocrático. Está todo mundo autorizado a pensar o que quiser, mas que isso seja o que te interessa justamente 24 horas depois da grande potência hegemônica cometer um ato de extrema ilegalidade, você resolver pensar nesse momento que o caráter do regime iraniano é autoritário, tem algo nessa narrativa que é estranho em termos de momento do que você resolver dizer e como você resolve dizer”.

O professor também disse que as distorções em coberturas geopolíticos como a da morte de Soleimani acontecem por diversos fatores, entre eles a falta de conhecimento de jornalistas. “Há vários componentes que determinam o conteúdo da nossa cobertura. Às vezes é falta de conhecimento por parte dos jornalistas, às vezes é o domínio das grandes agências de notícias, que manda para todo mundo basicamente o mesmo conteúdo, então se tem uma leitura preponderante nessas agências essa leitura passa praticamente para todos os jornais do mainstream. Não é surpreendente que a gente veja nos grandes jornais brasileiros a mesma cobertura e os mesmos argumentos”.

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