Egito sinaliza que pode entrar em guerra na Líbia

Egito ameaça Líbia com guerra caso surjam terroristas na fronteira comum pedindo, contudo, que facções líbias negociem. Há uma trégua, não por mérito egípcio, mas pela retoma do diálogo russo-turco

(Foto: REUTERS/Esam Omran Al-Fetori)
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Sputnik - Egito ameaça Líbia com guerra caso surjam terroristas na fronteira comum pedindo, contudo, que facções líbias negociem. Há uma trégua, não por mérito egípcio, mas pela retoma do diálogo russo-turco. Haverá uma saída para o impasse líbio, traduzido na existência de dois Estados de fato?

Ao inspecionar tropas egípcias estacionadas na fronteira com a Líbia, o presidente egípcio Abdel Fattah al-Sisi assegurou que "se o povo líbio pedir para intervir, o Cairo ajudará", protegendo as fronteiras comuns dos terroristas.

O presidente egípcio exigiu também que as tropas do Governo de União Nacional (GNA) – liderado por Fayez al Sarraj e reconhecido pela ONU – parem a ofensiva contra Sirte e al-Jufrah.

Sirte e al-Jufrah, são o portão de entrada para região líbia onde se situam os terminais responsáveis pela exportação de 60% do petróleo líbio.

Em janeiro, o Exército Nacional Líbio (LNA) do marechal Khalifa Haftar, que controla o leste do país, fechou esses terminais, privando de receitas o governo de Sarraj, que controla a parte ocidental do país.

Em resposta, com auxílio turco e de mercenários sírios, tropas leais ao GNA empurraram o exército de Haftar para longe de Trípoli na direção do leste do país, só sendo detidas em El Jufrah.

Iniciativas de guerra e paz

Os combates cessaram após intervenção de mediadores internacionais. Moscou e Ancara retomaram suas negociações bilaterais sobre a Líbia e o governo egípcio – tradicional apoiante de Haftar – tentou intermediar conversações entre ambas as facções.

O presidente al-Sisi exortou a comunidade internacional a ajudar na reconciliação entre as facções ocidental e oriental, exigindo ao mesmo tempo o fim da ingerência turca, a retirada dos mercenários sírios e o desmantelamento dos grupos armados ilegais.

Politicamente, o Egito propôs um período de transição – a durar até 2022 – com a criação de um conselho presidencial composto por representantes das regiões, que asseguraria a realização de eleições e a elaboração de uma nova constituição.

Termos do armistício

Muito tem se discutido internacionalmente sobre o problema líbio, multiplicando-se inclusive os acordos de cessar-fogo, prontamente quebrados.

No entanto, os apelos do Cairo para o fim das hostilidades foram bem aceitos pelos Emirados Árabes Unidos, Arábia Saudita, Rússia, EUA e UE.

Mas as condições da trégua apresentadas por al-Sisi, não colheram unanimidade. Turquia e a Argélia expressaram seu descontentamento por o Egito exigir unicamente o desmantelamento e desarmamento das tropas do GNA.

Fayez al Sarraj – acalentado pelo ascendente sobre as tropas rivais – reagiu de forma dura e categórica às propostas egípcias.

"Haftar é um criminoso de guerra, deve ser punido. Nós não vamos parar até acabarmos com o inimigo", garantiu o líder do governo reconhecido pela ONU.

As-Sisi respondeu ameaçando invadir a Líbia para ajudar as tribos do leste.

Zona tampão

O cientista político líbio Mustafa Fetouri vê as ameaças de al-Sisi como uma reação ao fracasso de sua proposta para a região.

Em declarações à Sputnik, ele assegurou que "muitos líbios acharam estranho que a paz estivesse sendo solicitada pelo Egito, que por sua vez está armando Haftar".

Segundo o especialista, se o Egito introduzir tropas na Líbia, não será em grande distância. "O Cairo está provavelmente planejando criar uma zona tampão na fronteira com a Líbia, de 20-30 quilômetros de profundidade, no máximo".

Para Fetouri, o preço a pagar pelo Egito seria demasiado alto, quer doméstica quer internacionalmente, caso ocorresse uma invasão em grande escala.

Já Kirill Semyonov, chefe do Centro de Pesquisas Islâmicas do Instituto para o Desenvolvimento Inovador da Rússia, duvida que os egípcios sequer atravessem a fronteira. Ele vê as declarações de al-Sisi como uma tentativa de salvar Haftar.

"Se Sarraj tomar o controle de todo o país […] os grupos islâmicos vão se fortalecer na Líbia. [...] A influência da Turquia, onde o poder há muitos anos que pertence aos islamistas moderados, vai aumentar. O Egito não pode permitir isso", afirmou Semyonov.

Para o especialista, a chave do conflito não está tanto nas mãos do Cairo, mas mais nas da Rússia e da Turquia, pois se Erdogan tem o poder de influenciar Sarraj, já a Rússia tem a vantagem de ter pontes de diálogo abertas com ambas facções.

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