Enquanto a França complica, o Canadá contrata

Desde o dia 31 de maio, o governo francês instituiu, sem alardes, uma lei que tende a limitar a possibilidade de os universitários estrangeiros trabalharem na França. Um desperdício de talentos em um país que sofre de falta de mão de obra qualificada



Assim que Nicolas Sarkozy foi eleito presidente da França, em 2007, todos os estrangeiros em solo francês se deram conta de que algo iria mudar. A obtenção de vistos ficou um pouco mais rigorosa, as fronteiras menos flexíveis e as ajudas sociais não tão acessíveis. Mas com o agravamento da crise econômica no País, o sentimento de xenofobia logo se aflorou e os não-franceses se tornaram alvo principal do governo.

Peço permissão a uma amiga para contar sua história. Brasileira, médica, dois anos de residência em cardiologia, francês fluente e casada com um brasileiro que vive e trabalha na França legamente há mais de 10 anos. Há um ano ela deu entrada no visto de reagrupamento familiar, um direito concedido a famílias geograficamente separadas, com capital comprovado e um mínimo de conhecimento da cultura francesa. Hoje ela está na França com visto de estudante. Veio terminar uma formação em língua francesa. Mas a poucos dias do prazo expirar, ela foi informada, depois de muita insistência, de que seu dossiê foi perdido pela administração francesa. Sem o novo visto, ela não pode permanecer no País, por mais que tenha direito a isso. E o mais irônico de tudo : a poucos metros de sua casa, um posto de saúde procura desesperadamente um médico há meses.

O descaso da burocracia francesa pode fazer o País perder dois profissionais – no caso, ela e seu marido, que decidiu voltar para o Brasil para não ver sua família separada - altamente qualificados e de importância vital para seu desenvolvimento, já que falta mão-de-obra especializada no mercado.

Esse é apenas um caso em muitos que têm ocorrido por aqui. Desde o dia 31 de maio deste ano, o governo francês instituiu, sem alardes, uma lei que tende a limitar a possibilidade de os universitários estrangeiros permanecerem na França para trabalhar. Eles podem vir, se aperfeiçoar, contribuir indiretamente para grandes descobertas científicas, mas depois, devem deixar o território assim que o visto expirar. “Na guerra internacional dos talentos, todo país que complique a obtenção de vistos para estudantes, a possibilidade de trabalhar durante os estudos ou de viver uma primeira experiência profissional após a formatura, está dando um tiro no pé”, alertou John Quelch, reitor da China Europe International Business School (CEIBS).

A medida causou muita polêmica entre os países que mantêm acordos interculturais com a França, como o Brasil, o Marrocos e a China. Para baixar a poeira, o primeiro-ministro francês, François Fillon escreveu uma carta no dia 22 de novembro garantindo que os estudantes estrangeiros que obtiverem pelo menos um mestrado na França poderão permanecer para uma primeira experiência profissional sem que a situação de emprego possa ser usada contra eles. “Nosso objetivo é atrair os melhores estudantes do mundo”, disse. Mas separar o “joio do trigo” não é algo simples de ser feito e pode fazer o país perder grandes gênios.

Quem ganha com isso é o Canadá. O fluxo de estudantes e profissionais estrangeiros francófonos para o país aumentou muito no último ano por sua política receptiva e organizada. Basta entrar no site do governo, se cadastrar e esperar algumas semanas para as oportunidades de emprego surgirem. Na França, se depender de sua administração arcaica e empoeirada, você ficará esquecido em alguma gaveta.

 

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