Estados Unidos correm o risco de viver "apocalipse eleitoral"

Com a proximidade da eleição presidencial, os EUA podem reprisar – em grande escala - o caos ocorrido na Flórida, em 2002, quando o vencedor foi declarado pela Suprema Corte. Presidente Donald Trump já levantou suspeitas de fraudes no pleito contra o democrata Joe Biden por causa do voto pelo correio, que será usado em massa devido ao coronavírus

Joe Biden e Donald Trump
Joe Biden e Donald Trump (Foto: REUTERS/Tom Brenner | REUTERS/Leah Millis)
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Por InfoMoney - Trinta e seis inacreditáveis dias. Esse foi o tempo que durou a apuração dos votos das eleições americanas em 2000, quando o democrata Al Gore e o republicano George W. Bush se enfrentaram nas urnas.

Dezoito anos depois da lambança na apuração dos votos na Flórida, o risco de um novo caos eleitoral aumenta a cada dia que os Estados Unidos se aproximam do pleito de 3 de novembro, quando os eleitores escolherão entre o republicano Donald Trump e o democrata Joe Biden.

Dessa vez, a confusão pode ocorrer em vários estados, não em apenas um. “Podemos assistir à reprise não de uma, mas de várias ‘Flóridas 2000’”, afirma Maurício Moura, pesquisador da Universidade George Washington e CEO da Ideia Big Data, instituto de pesquisa especializado em opinião pública.

O fato de Trump ter contraído coronavírus não deve mudar o cenário, considerando, claro, que ele e sua esposa — Melania, também infectada com Covid-19 –, passem pela doença sem gravidade. “Quem já ia votar nele, não deverá deixar de votar, nem o contrário. A polarização está muito alta e a margem de indecisos é baixa, entre 8% e 10% da população”, diz Moura.

Um possível apocalipse eleitoral pode ser desencadeado pela demora no processo de apuração dos votos. Em razão da pandemia, espera-se que grande parte de eleitores vote pelo correio para evitar aglomerações. Em 2016, cerca de 31 milhões de pessoas enviaram seus votos por correspondência. Este ano, pode-se chegar ao triplo disso e ninguém sabe quanto tempo a contagem de votos pode levar.

Fora a questão da apuração em si, as eleições deste ano têm um agravante: o presidente Donald Trump, que, há meses, está atrás nas pesquisas de intenção de votos.

O republicano vem dando sinais cada vez mais fortes de que pode contestar o resultado das urnas. Durante o debate com Biden na terça-feira (29), Trump usou as palavras “fraude”, “vergonha” e “desastre” para classificar o processo de votação por correspondência.

Perguntado pelo moderador se pedirá paciência a seus apoiadores e se aguardará até o final da apuração sem se declarar vitorioso, o republicano se esquivou de responder. Disse que há milhões de cédulas sendo enviadas pelo correio sem que os eleitores tenham pedido (o voto não é obrigatório), e finalizou com a frase: “Isso não vai acabar bem”.

Dias antes, o atual ocupante da Casa Branca já havia se recusado a dizer se fará uma transição de governo amistosa, caso seja derrotado nas urnas por Biden. Ao repórter que lhe questionou, respondeu com um vago “Vamos ver o que acontece”.

A chance de confusão é tão alta, que as eleições americanas ficaram em primeiro lugar no ranking dos principais riscos geopolíticos de 2020, no relatório anual elaborado pela consultoria Eurasia. “O risco de contestação do resultado das eleições é muito alto e, se isso ocorrer, as instituições americanas serão testadas como nunca antes”, afirma Christopher Garman, diretor-executivo para as Américas da Eurasia.

Não há evidências de fraudes nas eleições americanas com os votos pelo correio. O que há é um número maior de cédulas descartadas por erros de preenchimento.

As pesquisas, porém, mostram que há mais democratas dispostos a votar pelo correio do que republicanos. Esse seria o motivo de Trump tentar desqualificar a votação por correspondência. Diante desse cenário, não será surpresa se Trump aparecer na frente durante a apuração das urnas presenciais e, depois, for ultrapassado por Biden na contagem dos votos enviados pelo correio.

A confusão pode piorar se o presidente começar a cantar vitória antes do final da apuração. É claro que uma autodeclaração não tem validade legal, mas mobiliza a base de apoio e gera tumulto. Em um ambiente polarizado como o atual – que inclui recentes episódios de conflito entre republicanos e democratas, em razão de protestos antirracistas –, gestos e discursos extravagantes podem provocar impasses.

Para complicar ainda mais, o sistema eleitoral americano é cheio de peculiaridades. Cada estado é responsável pela eleição, com regras de votação e apuração próprias. Após a contagem de votos feita no estado, governador e assembleia legislativa comunicam o resultado ao Congresso americano. Junto com isso, governador e assembleia enviam a chapa de delegados que votará no colégio eleitoral, já que o voto nos Estados Unidos não é direto.

Em uma hipótese extrema, no caso de uma votação muito apertada, um governador pode reconhecer Trump como vencedor, enquanto a assembleia legislativa dá a vitória de Biden. O conflito pode surgir, por exemplo, na definição dos critérios para descartar os votos com problemas de preenchimento enviados pelo correio.

As possibilidades de problemas são inúmeras e podem chegar à Suprema Corte, como aconteceu em 2000.

A apuração na Flórida foi marcada por problemas, entre eles, 44 mil votos descartados porque as máquinas leitoras não conseguiram ler as cédulas. Na ocasião, Bush venceu Gore na Flórida por 537 votos em um universo de 6 milhões eleitores. Com isso, ganhou todos os delegados do estado e venceu a eleição no colégio eleitoral.

A Suprema Corte da Flórida determinou a recontagem manual dos votos desprezados, mas, em seguida, a Suprema Corte federal derrubou a decisão e deu vitória a Bush.

Na época, o presidente era Bill Clinton, que não concorria ao cargo, e o candidato democrata Al Gore reconheceu a decisão da mais alta instância do Judiciário. Neste ano, o presidente é Trump, que, aparentemente, não se importa em jogar gasolina na fogueira.

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