"Estamos indefesos no seio de uma sociedade aberta"

Palavras da jornalista Anne Palmers, em relato ao editor Lus Pellegrini, do 247, minutos depois da exploso em Oslo

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Por Luis Pellegrini_247 – São 18 horas de sexta-feira, 22 de julho, e acabo de receber o e-mail que transcrevo abaixo, mandado por minha amiga e colaboradora, a jornalista sueca Anne Palmers:

“... de acordo com informação que acaba de chegar da Noruega... houve um tiroteio num camping de veraneio onde estavam vários membros da ala jovem da social democracia norueguesa, na ilha de Utöya, a cerca de 100 quilômetros da capital Oslo. Tripulantes de um helicóptero contaram cerca de 25 cadáveres boiando no mar e muitos outros corpos mortos na praia. Um homem de nacionalidade desconhecida, disfarçado com um uniforme de oficial da polícia, abriu fogo diretamente contra a multidão reunida na praia... A Escandinávia está em estado de choque. O que poderemos esperar a seguir? Fontes oficiais dizem que se trata de um ataque à soberania norueguesa... A Suécia reforçou suas fronteiras e o controle de todos os edifícios oficiais... Vocês já publicaram algum artigo sobre o Apocalipse? Estou muito preocupada, como já te escrevi outras vezes. Os maus estão em nosso território europeu e nos querem ver mortos. Estamos indefesos, no seio de uma sociedade muito aberta. Até agora já contaram uma dezena de mortos no atentado em Oslo. A capital da Noruega está praticamente fechada neste momento, e a polícia advertiu o povo para que permaneça fora do centro, pois mais bombas são esperadas...”

Poucas horas antes, havia recebido um outro e-mail de Anne Palmers, anunciando o atentado a bomba ocorrido hoje em Oslo. Transcrevo também o texto dessa mensagem:

“...meu filho acaba de me chamar de Oslo, do seu escritório na NRK, a companhia estatal norueguesa de rádio e televisão... ele tinha acabado de chegar a sua casa, às 3H50 da tarde, situada cerca de 30 minutos do centro da capital, quando uma terrível explosão abalou os edifícios ao seu redor. A Noruega é um membro da OTAN, a Organização do Tratado do Atlântico Norte, está engajada na guerra do Afeganistão, e é uma forte aliada dos Estados Unidos. O edifício do governo central e vários outros prédios vizinhos foram severamente atingidos – duas bombas e um carro estacionado perto do escritório do Primeiro Ministro explodiram no centro da cidade. Há vários mortos e feridos, mas por sorte é a tarde de uma sexta-feira e muitos funcionários do governo estão de férias; o Primeiro Ministro Jens Stoltenberg está a salvo.

Se você pensava que esta era uma parte tranquila do mundo, mude já de idéia. Se você tivesse vindo à Escandinávia como tínhamos previsto, eu tinha programado uma visita a Oslo no dia de hoje, com um almoço exatamente no lugar onde a bomba explodiu! Como adverti várias vezes, não sabemos para onde vamos na Europa. Um grande abraço nórdico, Anne”

 

Explico: Anne Palmers, escritora e jornalista sueca, vive na cidade de Gotemburgo e é matriarca de uma inteira família – os Palmers – dedicada à mídia escrita, falada e televisiva nos países escandinavos. Eu a conheci há quatro anos, a bordo de um navio norueguês, durante uma visita de 3 semanas à Antártica. Ficamos muito amigos, e desde então eu a convido a escrever para as publicações que edito. Por sinal, ela é a autora da próxima matéria de capa da Revista Oásis, publicada aos domingos em Brasil247, e que trata exatamente da crise financeira europeia. Anne deu a ela o título “Europa – Salve-se quem puder”. Terminou de redigi-la ontem, será publicada amanhã. Há jornalistas que parecem ter o dom da profecia. Anne deve ser um deles.

A viagem prevista à Escandinávia a que ela se refere diz-me respeito diretamente. Tinha combinado com Anne uma visita À Suécia e à Noruega, com partida marcada para o dia 14 de julho, há uma semana. No último momento não pude viajar por causa de um problema de saúde sem maiores consequências. E, segundo o programa de Anne, exatamente no dia de hoje estaríamos em Oslo, almoçando com seu filho, que é diretor da televisão estatal norueguesa, num restaurante situado no... local da explosão. Meu ataque de sinusite talvez nos tenha salvado, os três, dos estilhaços da bomba...

 

E fico imaginando as horas difíceis que o povo escandinavo deve estar passando. Estive na Noruega o ano passado, em outubro, e fiquei literalmente de queixo caído com o que vi. Cenários naturais de tirar o fôlego, cidades belíssimas, pequenas, civilizadas, nas quais as pessoas caminham pelas ruas sorridentes, bem nutridas e bem vestidas. Miseráveis, nem pensar. Os únicos que ocasionalmente se aproximam para pedir uma moeda são alguns poucos adeptos do crack. Destes, nem o paraíso nórdico está livre.

A Noruega viveu quieta e isolada durante séculos, à sombra da vizinha Suécia, mais evoluída e sofisticada, que se divertia ao chamar os noruegueses de bando de caipiras. Caipiras que viviam sobretudo da pesca, da indústria de transformação do pescado e da pequena indústria, já que o clima muito frio nunca permitiu grandes arroubos agrícolas, à exceção de um número infindável de macieiras rústicas, que surgem em toda parte, da quais se extrai uma forte aguardente, a bebida nacional norueguesa.

De repente, há poucas décadas, a descoberta do petróleo e o desenvolvimento de uma forte indústria de seus derivados veio subverter essa ordem multimilenar. O país hoje é riquíssimo, mais rico que todos os outros da região, nele não há pobreza, e seus índices de delinqüência e atraso na educação e na saúde são simplesmente ridículos diante dos nossos.

Será, como indica Anne Palmers, que todo esse mundo edênico, apesar do clima frio, será derrubado pelo terrorismo internacional? Acompanharemos com preocupação os próximos capítulos.

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