França prende jornalista por revelar cumplicidade francesa com execuções de civis no Egito
A jornalista Ariane Lavrilleux passou 39 horas sob custódia da Direção Geral de Segurança Interna (DGSI) francesa
247 — A jornalista Ariane Lavrilleux, que revelou a cumplicidade francesa com execuções de civis no Egito, passou 39 horas sob custódia da Direção Geral de Segurança Interna (DGSI) francesa, gerando indignação na sociedade civil e entidades da imprensa. Sua prisão, ocorrida na última terça-feira, foi o desdobramento de suas reportagens explosivas publicadas em 2021 no portal de investigação Disclose, que expôs a participação do serviço de informações militar francês em execuções de civis no Egito, desencadeadas pela chamada “operação Sirli”.
O trabalho de Ariane Lavrilleux revelou que a “operação Sirli”, conduzida pelo serviço de informações militar francês no Egito, não estava de fato visando combater o terrorismo, como anunciado oficialmente, mas sim envolvida na vigilância do deserto ocidental do país para detectar ameaças terroristas vindas da Líbia. Contudo, documentos secretos aos quais a jornalista teve acesso comprovaram que a verdadeira consequência dessa missão foi a eliminação de civis contrabandistas, com pelo menos 19 bombardeamentos ocorridos entre 2016 e 2018.
O escândalo se intensificou quando ficou evidente que as autoridades francesas foram previamente alertadas sobre a cumplicidade nos crimes dos militares egípcios, mas nada fizeram para interromper essa colaboração com a repressão promovida pelo regime de al-Sisi.
Após a publicação do artigo de Ariane, o governo francês anunciou um inquérito interno que, surpreendentemente, concluiu em poucos meses que não havia irregularidades por parte dos responsáveis pela “operação Sirli”. Além disso, uma queixa por violação do segredo de defesa nacional foi movida, com o objetivo de descobrir a fonte da jornalista que lhe proporcionou acesso aos documentos secretos. A detenção de Ariane Lavrilleux e de um antigo quadro do exército não identificado foi resultado dessa investigação.
A advogada da jornalista e do Disclose expressou sua preocupação com a escalada de ataques à liberdade de informação e as medidas coercivas tomadas contra jornalistas. Logo após a detenção, dezenas de jornalistas e amigos de Ariane se reuniram em frente à esquadra onde ela foi detida para exigir sua libertação e denunciar o ataque à liberdade de imprensa.
Mathias Destal, cofundador do Disclose, comentou sobre a gravidade da situação: “trata-se de uma violação grave e preocupante da confidencialidade das fontes. Este é um novo nível de intimidação e repressão contra jornalistas que estão apenas fazendo seu trabalho.”
Várias organizações e consórcios de investigação, incluindo os Repórteres Sem Fronteiras e o Investigate Europe, também condenaram esse ataque à confidencialidade das fontes dos jornalistas na França. Ambas as organizações organizaram um protesto em solidariedade à jornalista em Paris.
O caso de Ariane não é isolado, pois nos últimos anos, a perseguição a jornalistas que revelam informações desconfortáveis para o Estado francês tem aumentado. Em 2022, o jornalista de investigação Alex Jordanov foi alvo de buscas e detido por dois dias após publicar um livro sobre a DGSI, provocando protestos das organizações de jornalistas contra essa estratégia de intimidação.
Este episódio reacende as preocupações com a liberdade de imprensa na França, especialmente quando jornalistas dedicados ao jornalismo investigativo são submetidos a interrogatórios e detenções por simplesmente cumprir seu papel de informar o público.
Após dois dias na prisão, Ariane Lavrilleux foi libertada na noite de quinta-feira, sem receber acusações formais relacionadas às suas reportagens. A jornalista utilizou o Twitter para anunciar sua libertação e agradeceu o apoio recebido.
A prisão de Ariane provocou uma reação forte das principais entidades de defesa da liberdade de imprensa e de expressão em todo o mundo, incluindo Repórteres Sem Fronteiras, Anistia Internacional e Federação Internacional do Jornalista. Todas manifestaram preocupação com a ameaça à liberdade de imprensa e ao sigilo das fontes, princípios fundamentais do jornalismo investigativo.
A secretária-geral da Anistia Internacional, Agnès Callamard, afirmou: “é profundamente assustador que, quase dois anos após as revelações de que a França foi alegadamente cúmplice nas execuções extrajudiciais de centenas de pessoas no Egito, é a jornalista que expôs estas atrocidades que está no alvo, e não os responsáveis.” A Repórteres Sem Fronteiras, com sede na França, expressou receio de que as ações da DGSI possam minar o sigilo das fontes, um pilar essencial do jornalismo investigativo.
