Good Bye, PPK; que vai acontecer agora?

"PPK se vai pela porta dos fundos num episódio que significa a agonia de uma longa carreira política e empresarial marcada pelo entreguismo e a traição aos interesses nacionais", avalia Manuel Guerra, dirigente do Partido Comunista do Peru sobre a crise que levou à renúncia do presidente Pedro Pablo Kuczynski; "É o momento de a esquerda, o progressismo, os setores patrióticos e democráticos, as diversas expressões do movimento popular agirem para orientar e dar definições no desenlace desta crise política. A convocação de novas eleições é uma demanda que é preciso levantar com força, mas isto deve ser acompanhado pelo protagonismo do povo mobilizado em todo o país", diz ele

Pedro Pablo Kuczynski durante reunão em Lima 6/2/2018 REUTERS/Guadalupe Pardo
Pedro Pablo Kuczynski durante reunão em Lima 6/2/2018 REUTERS/Guadalupe Pardo (Foto: Aquiles Lins)
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Por Manuel Guerra (*), no blog Resistência - PPK se vai pela porta dos fundos num episódio que significa a agonia de uma longa carreira política e empresarial marcada pelo entreguismo e a traição aos interesses nacionais, o cinismo em seu ofício de lobista profissional, a falta de escrúpulos para fazer da política uma atividade de manejos ilícitos e atos de corrupção.

Mas o triste desempenho deste personagem que chegou a ser presidente do Peru não é o voo solitário de uma andorinha; é parte da mistura que vem sendo preparada desde os anos 1990 em que o fujimontesinismo (1), catalizado pelo fermento neoliberal, inaugurou uma nova forma de fazer política: a antipolítica. Lançando mão de um discurso contra os “políticos tradicionais” o fujimorismo criou partidos-kombi que mudavam de nome a cada eleição, entidades em que seus membros não se agrupavam em função de um ideário ou programa que não fosse o cru pragmatismo com a expectativa de ocupar os espaços de governo para saquear o erário público.

O assistencialismo e a manipulação midiática foram os principais mecanismos para captar adeptos e contar com uma base social que lhes permitisse a continuidade; o autoritarismo, a ferramenta para manter a oposição à margem.

A degradação da política com sua plêiade de usurários, trânsfugas e medíocres foi o resultado disso, gerando-se as condições para que se destampasse a gigantesca corrupção que sobreveio, terreno favorável para que as grandes empresas expandissem seus negócios em um contexto no qual o Estado se havia transformado em subsidiário do mercado, contando em seu interior com funcionários de primeiro escalão convertidos em seus voluntariosos operadores, dispostos a entregar o país em troca de uns quantos milhões de dólares.

A queda do fujimorismo depois do escândalo dos vladivídeos (2) e dos protestos populares que tiveram seu ponto culminante na Marcha de los cuatro suyos (3), devia inaugurar um caminho de regeneração moral no país, o que equivalia a desmontar a estrutura política soerguida pelo fujimorismo e sustentada pela espúria Constituição de 1993. Não foi o que ocorreu. Toledo, Garcia, Humala, e agora PPK, continuaram nos mesmos trilhos e se aproveitaram dessa estrutura para seus próprios fins.

Hoje, com a queda de PPK, temos um cenário similar, ou seja, a grande oportunidade para abrir um novo rumo ao país. De nada vai adiantar se depois de PPK se erige o fujimorismo em sua versão keikista (4) como força dominante, ou se a direita neoliberal consegue canalizar o descontentamento cidadão para uma saída que permita ao modelo permanecer intocado.

É o momento de a esquerda, o progressismo, os setores patrióticos e democráticos, as diversas expressões do movimento popular agirem para orientar e dar definições no desenlace desta crise política. A convocação de novas eleições é uma demanda que é preciso levantar com força, mas isto deve ser acompanhado pelo protagonismo do povo mobilizado em todo o país.

Não é suficiente mudar o Governo e o Parlamento para não termos mais do mesmo, é o momento de agir com força para conquistar um governo democrático, patriótico, de regeneração moral; é inadiável ganhar a correlação de forças políticas, sociais e culturais para exigir uma nova Constituição, a mudança do modelo econômico e fundar uma nova República. A situação do país necessita de mudanças profundas, grandeza de visão e atuação dos políticos. Se não o conseguirmos, cairemos novamente no círculo vicioso que condena o Peru ao atraso permanente.

(*) Membro da direção do Partido Comunista del Peru (Patria Roja); publicado no sítio do partido www.patriaroja.pe; tradução da redação do Resistência.

Notas da tradução

(1) Dos nomes de Alberto Fujimori e Vladimiro Montesinos. Fujimori foi presidente do Peru de 28 de julho de 1990 a 17 de novembro de 2000. Seu período de governo foi uma ditadura de fato. Perseguiu, sequestrou e assassinou opositores. Vladimiro Montesinos foi chefe de fato do Serviço de Inteligência Nacional do Peru (SIN) e assessor presidencial de Alberto Fujimori.

(2) Vladivídeo é como ficaram conhecidos os vídeos que mostravam como Vladimiro Montesinos subornava dirigentes políticos, empresários, donos de veículos de comunicação e governantes locais para que se colocassem à disposição do governo. A descoberta desses vídeos teve no Peru um forte impacto e foi um dos detonadores da crise que levou à queda do fujimorismo do poder.

(3) A Marcha de los Cuatro Suyos, realizada em 26, 27 e 28 de julho de 2000, com nome inspirado pelos quatro pontos cardeais do império inca, foi organizada por Alejandro Toledo, Carlos Ferrero Costa e David Waisman, líderes do partido político peruano Peru Posible. Contou com o apoio e a participação de movimentos sociais, partidos de esquerda e setores liberais da direita. Foi um protesto de massas que se deslocou de vários pontos do país à capital, Lima, contra a reeleição de Fujimori. O motivo do protesto foi a acusação de fraude à terceira reeleição consecutiva para a Presidência da República. Os manifestantes pretendiam dirigir-se às sedes do Congresso e do Governo. Mas foram barrados pelo forte aparato policial, o que gerou violência.

(4) Alusão a Keiko Fujimori, ex-parlamentar e ex-candidata derrotada à Presidência da República.

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