HOME > Mundo

Governo Trump intensifica ofensiva contra Jerome Powell, presidente do Fed

Ameaça de acusação criminal contra chefe do banco central reacende debate sobre independência monetária nos Estados Unidos

Presidente dos EUA, Donald Trump, observa o chair do Fed, Jerome Powell 02/11/2017 (Foto: REUTERS/Carlos Barria)

247 - A ofensiva do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Federal ederal Reserve entrou em um novo patamar com a ameaça de uma acusação criminal contra o presidente da instituição, Jerome Powell. A iniciativa aprofunda o embate entre a Casa Branca e o banco central norte-americano em torno da política de juros e provoca reações no Congresso, nos mercados financeiros e entre especialistas em política monetária.

Segundo a agência Reuters, o movimento envolve o uso de instrumentos legais para pressionar o Fed, algo que Powell classificou como uma tentativa de interferência indevida nas decisões sobre taxas de juros. O presidente do banco central afirmou que a medida tem como pano de fundo o desejo do governo Trump de promover cortes agressivos no custo do crédito, contrariando a avaliação técnica da autoridade monetária.

A tensão ganhou contornos mais graves após Powell revelar que o Federal Reserve recebeu intimações judiciais do Departamento de Justiça relacionadas a declarações feitas por ele ao Congresso no ano passado, sobre o aumento de custos de um projeto de reforma do complexo de prédios da instituição em Washington, orçado em US$ 2,5 bilhões. Para o chefe do Fed, a justificativa é apenas um pretexto para ampliar a pressão política.

“As intimações representam uma ameaça de acusação criminal ligada ao meu testemunho perante o Comitê Bancário do Senado”, declarou Powell. 

O presidente do Fed fez uma acusação direta ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”, afirmou. E completou: “Essa nova ameaça não diz respeito ao meu depoimento em junho passado nem à reforma dos prédios do Federal Reserve. Também não se trata do papel de fiscalização do Congresso… Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base na melhor avaliação do que atende ao interesse público, e não de seguir as preferências do presidente”. 

A reação política foi imediata. O senador republicano Thom Tillis, integrante do Comitê Bancário do Senado, responsável por analisar indicações presidenciais para o Fed, disse que a ameaça de indiciamento coloca em xeque a “independência e credibilidade” do Departamento de Justiça. Tillis afirmou que se oporá a quaisquer futuras indicações de Donald Trump para o Federal Reserve, inclusive a escolha do sucessor de Powell, até que a questão seja esclarecida.

Nos mercados financeiros, o episódio aumentou a cautela dos investidores. Os contratos futuros dos principais índices de ações dos Estados Unidos recuaram cerca de 0,5%, enquanto o dólar perdeu força. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano permaneceram praticamente estáveis, refletindo a incerteza sobre os desdobramentos institucionais do conflito.

Para analistas, o embate ameaça um dos pilares da política econômica moderna: a autonomia dos bancos centrais. “Tonight’s revelations mark a dramatic escalation in the administration’s effort to kick the legs out from under the Fed, and could unleash a series of unintended consequences that go directly against President Trump’s stated aims”, afirmou Karl Schamotta, estrategista-chefe de mercado da Corpay, em Toronto.

O próprio Donald Trump declarou à NBC News que não tinha conhecimento prévio das ações do Departamento de Justiça.

Já um porta-voz do Departamento de Justiça limitou-se a afirmar que a procuradora-geral orientou seus promotores a priorizar investigações sobre possíveis abusos de recursos públicos.

Nomeado para comandar o Fed em 2018 pelo próprio Donald Trump, Powell tem mandato como presidente da instituição até maio, mas não é obrigado a deixar o cargo nessa data. Analistas veem a atual ofensiva como um fator que pode, paradoxalmente, fortalecer sua permanência, ao ampliar o debate público sobre os limites da interferência política na política monetária dos Estados Unidos.

Artigos Relacionados