Governo Trump intensifica ofensiva contra Jerome Powell, presidente do Fed
Ameaça de acusação criminal contra chefe do banco central reacende debate sobre independência monetária nos Estados Unidos
247 - A ofensiva do governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump, contra o Federal ederal Reserve entrou em um novo patamar com a ameaça de uma acusação criminal contra o presidente da instituição, Jerome Powell. A iniciativa aprofunda o embate entre a Casa Branca e o banco central norte-americano em torno da política de juros e provoca reações no Congresso, nos mercados financeiros e entre especialistas em política monetária.
Segundo a agência Reuters, o movimento envolve o uso de instrumentos legais para pressionar o Fed, algo que Powell classificou como uma tentativa de interferência indevida nas decisões sobre taxas de juros. O presidente do banco central afirmou que a medida tem como pano de fundo o desejo do governo Trump de promover cortes agressivos no custo do crédito, contrariando a avaliação técnica da autoridade monetária.
A tensão ganhou contornos mais graves após Powell revelar que o Federal Reserve recebeu intimações judiciais do Departamento de Justiça relacionadas a declarações feitas por ele ao Congresso no ano passado, sobre o aumento de custos de um projeto de reforma do complexo de prédios da instituição em Washington, orçado em US$ 2,5 bilhões. Para o chefe do Fed, a justificativa é apenas um pretexto para ampliar a pressão política.
“As intimações representam uma ameaça de acusação criminal ligada ao meu testemunho perante o Comitê Bancário do Senado”, declarou Powell.
O presidente do Fed fez uma acusação direta ao governo do presidente dos Estados Unidos, Donald Trump. “Essa ação sem precedentes deve ser vista no contexto mais amplo das ameaças e da pressão contínua do governo”, afirmou. E completou: “Essa nova ameaça não diz respeito ao meu depoimento em junho passado nem à reforma dos prédios do Federal Reserve. Também não se trata do papel de fiscalização do Congresso… Esses são pretextos. A ameaça de acusações criminais é consequência do fato de o Federal Reserve definir as taxas de juros com base na melhor avaliação do que atende ao interesse público, e não de seguir as preferências do presidente”.
A reação política foi imediata. O senador republicano Thom Tillis, integrante do Comitê Bancário do Senado, responsável por analisar indicações presidenciais para o Fed, disse que a ameaça de indiciamento coloca em xeque a “independência e credibilidade” do Departamento de Justiça. Tillis afirmou que se oporá a quaisquer futuras indicações de Donald Trump para o Federal Reserve, inclusive a escolha do sucessor de Powell, até que a questão seja esclarecida.
Nos mercados financeiros, o episódio aumentou a cautela dos investidores. Os contratos futuros dos principais índices de ações dos Estados Unidos recuaram cerca de 0,5%, enquanto o dólar perdeu força. Os rendimentos dos títulos do Tesouro americano permaneceram praticamente estáveis, refletindo a incerteza sobre os desdobramentos institucionais do conflito.
Para analistas, o embate ameaça um dos pilares da política econômica moderna: a autonomia dos bancos centrais. “Tonight’s revelations mark a dramatic escalation in the administration’s effort to kick the legs out from under the Fed, and could unleash a series of unintended consequences that go directly against President Trump’s stated aims”, afirmou Karl Schamotta, estrategista-chefe de mercado da Corpay, em Toronto.
O próprio Donald Trump declarou à NBC News que não tinha conhecimento prévio das ações do Departamento de Justiça.
Já um porta-voz do Departamento de Justiça limitou-se a afirmar que a procuradora-geral orientou seus promotores a priorizar investigações sobre possíveis abusos de recursos públicos.
Nomeado para comandar o Fed em 2018 pelo próprio Donald Trump, Powell tem mandato como presidente da instituição até maio, mas não é obrigado a deixar o cargo nessa data. Analistas veem a atual ofensiva como um fator que pode, paradoxalmente, fortalecer sua permanência, ao ampliar o debate público sobre os limites da interferência política na política monetária dos Estados Unidos.


