Grécia entra em 2013 sob austeridade e ascensão neonazista
Próximo ano será decisivo para manter o que resta do tecido social grego, duramente atingido pela crise econômica e pela fragilidade política
Roberto Almeira, da Opera Mundi - Depois de um ano conturbado, com duas eleições parlamentares e a formação de um governo de coalizão alinhado com as políticas de austeridade impostas pela troika, composta por Comissão Europeia, Banco Central Europeu e FMI (Fundo Monetário Internacional), a Grécia entra 2013 sem expectativa de melhora econômica e com um governo que balança no poder.
As últimas votações importantes do ano no Parlamento grego ocorreram em novembro e demonstraram a fragilidade do trio Nova Democracia, PASOK e Esquerda Democrática, que detém a maioria na casa. Ao votar o segundo memorando do FMI, com metas de cortes em troca de um desembolso financeiro para rolar a dívida, 12 deputados governistas deixaram suas legendas por rebeldia à cartilha da austeridade.
Com isso, a maioria que sustenta o premiê Antonis Samaras, do partido Nova Democracia, eleito em junho de 2012, caiu para uma margem de apenas 13 deputados. Além de perder terreno em termos de política local, economistas acreditam que o esforço de Samaras foi nulo - o pacote foi apenas uma maneira encontrada pela União Europeia para ganhar tempo até eleição alemã, em setembro de 2013.
“A decisão de novembro de 2012 foi meramente um pretexto para liberar empréstimos para a Grécia e ganhar um ano e pouco até a Europa remendar, da mesma maneira, sua crise em outros lugares - na Itália e na Espanha em particular. Enquanto isso, a Grécia está condenada a mais um ano de miséria, objetivos não cumpridos, depressão, etc”, afirma o economista grego Yanis Varoufakis.
Em seu comunicado mais recente sobre o país, a Comissão Europeia elogia o governo por ter reforçado a conta bancária que serve exclusivamente para rolagem da dívida, e pela iniciativa de canalizar todo o dinheiro decorrente das privatizações e de parte do superávit primário para esse fim.
“Não somos escravos da [chanceler alemã Angela] Merkel. A Grécia não está à venda e o primeiro-ministro é um traidor. Eles fizeram um programa para comprar toda a Grécia a preço de banana. Todo o povo grego sabe disso”, desabafa a jornalista desempregada Rena Maniou, que protestava na Praça Syntagma no dia da aprovação do memorando.
PIGS e neonazismo
O destino da Grécia está atrelado aos caminhos de Portugal, Itália e Espanha. Os quatro países receberam a sigla nada lisonjeira PIGS, ou porcos em inglês. Todos estão reféns da dívida e de políticas de austeridade, mas entre eles somente a Grécia assistiu ao fenômeno da ascensão neonazista.
Nas eleições de junho, o partido Aurora Dourada, com brasão carregando um meandros, símbolo da uma suposta pureza grega, pintado nas cores do Partido Nacional-Socialista alemão, amealhou 18 cadeiras no Parlamento grego. Seu presidente, Nikolaos Michaloliakos, que tem antigos laços com membros da junta militar que governou a Grécia entre 1967 a 1973, nega o Holocausto e aparece em um vídeo gritando pelas ruas de Atenas que quer “imigrantes fora” de seu país.
Mesmo com toda pressão internacional para deter os avanços do Aurora Dourada, em especial de grupos de direitos humanos, pesquisas recentes mostram um cenário promissor para os neonazistas. Se novas eleições fossem marcadas hoje, eles se tornariam a terceira maior bancada do Parlamento grego, atrás apenas do Nova Democracia, do atual premiê, e da Syriza, a coalizão de esquerda antiausteridade.