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Gringos honestos?

O caso Murdoch, a exploração de trabalho infantil pela Nike e diversos outros casos mostram que a falta de honestidade não é uma exclusividade nossa

Esta semana, eu e mais alguns amigos pegamos um trem de Gotemburgo, na Suécia, até a cidade de Copenhague, na Dinamarca. Deixamos nossas mochilas no maleiro do trem localizado exatamente acima de nossas cabeças. Nas mochilas havia passaportes, dinheiro e computadores pessoais. Ficamos acordados a viagem toda e quando chegamos em Copenhague constatamos que as mochilas não estavam mais lá. O choque foi grande, pois havíamos sido furtados em um dos países que é considerado um dos mais seguros do mundo.

Fomos até a polícia dinamarquesa fazer o boletim de ocorrência e fomos tratados com rispidez, para dizer o mínimo. A truculência era inesperada, pois achava que policial escandinavo era educado.  O policial nos informou que todos os dias aparecem pessoas e mais pessoas vítimas do mesmo tipo de furto. Eu soube, ainda, que as estações de trem ao redor da Escandinávia estão cada vez mais perigosas e o furto de pertences é mais comum do que se imagina. Estivéssemos no Brasil ou qualquer outro país latino-americano, jamais deixaria passaporte e dinheiro em uma mochila. Talvez, não ficaria andando com o laptop por todos os lados. Ao imaginar que estava em um país seguro, abri mão de cuidados elementares.

Ao saber do roubo, escandinavos invariavelmente diziam que imigrantes estavam promovendo este tipo de ação em seus países. Os locais faziam um movimento de afirmação da própria identidade, como se apenas os estrangeiros roubassem e os escandinavos fossem puros, honestos e decentes. Não há como afirmar que um imigrante roubou minha mochila. A demonização dos estrangeiros é um fenômeno antigo e cruel, como o holocausto nos mostrou.

A Guerra do Iraque e todo o envolvimento das empresas ligadas ao vice-presidente dos Estados Unidos Dick Cheney nos contratos de reconstrução do Iraque, a exploração de trabalho infantil pela Nike, o caso Enron, a associação espúria entre primeiros-ministros ingleses e o magnata das comunicações Rupert Murdoch, a forte presença da Yakuza no Japão e tantos outros casos mostram que a falta de honestidade não é uma exclusividade nossa.

Recordo de quando passei nove meses observando trabalhadores em uma grande empresa na Inglaterra para uma pesquisa e testemunhei funcionários furtando chocolates e pastéis da cantina diariamente, fazendo tráfico de remédios de venda proibida e tantas outras ilegalidades. Gente desonesta existe no mundo tudo, mas constrói-se uma imagem de que apenas nós que vivemos em países em desenvolvimento somos os "fora da lei".

O roubo dos meus pertences me fez lembrar que apesar de todas as evidências do contrário, existe uma visão estabelecida de que brancos de países desenvolvidos não cometem crimes. A ideia geral é que apenas nós, subdesenvolvidos, somos criminosos. A mesma visão é reforçada por nós brasileiros, como se fôssemos todos desonestos e os gringos fossem decentes. Edward Said escreveu um livro magistral, chamado Orientalismo, em que ele mostra como ao longo da história as artes, a literatura e demais formas de expressão cultural europeia construíram uma imagem das pessoas dos árabes como um povo bestial e subdesenvolvido.

Basta assistirmos à mesma notícia pela Al Jazeera e pela CNN para observarmos este mecanismo em ação. A visão preconceituosa dos 'desenvolvidos' a respeito dos demais perpassa a grande maioria das relações em que tais culturas diferentes se encontram. Temos problemas em nossos países, não restam dúvidas. Somos um dos países mais violentos do mundo, também não podemos contestar. Porém, generalizações são sempre perigosas, ainda mais quando colocam alguns povos como decentes e outros como o contrário disso. Caráter é muito mais uma questão de indivíduo do que de nação.

Rafael Alcadipani é professor adjunto da Escola de Administração de Empresas de São Paulo da Fundação Getulio Vargas