Hecatombe do coronavírus: na África, metade da população pode ficar desempregada
O ginecologista congolês Denis Mukwege falou em entrevista para o jornal italiano La Repubblica sobre as dificuldades de uma política de confinamento nos países africanos
247 - O ginecologista congolês Denis Mukwege, premiado com o Nobel da Paz, depois de fundar um hospital em Bukavu, no Congo oriental, para tratar mulheres estupradas por soldados e rebeldes, afirma que na África a situação do coronavírus. Segundo ele, para os africanos, é difícil estabelecer uma situação de isolamento social, medida aconselhada pela Organização Mundial de Saúde (OMS) para frear a propagação da Covid-19.
"Os africanos são obrigados a sair de casa para buscar comida. Nenhum confinamento é possível e a Covid-19 está se espalhando a uma velocidade recorde", disse em reportagem de Petro Del Re, publicada pelo jornal italiano La Repubblica. Para ele, ainda, é na África que o coronavírus poderá fazer o maior número de vítimas fatais. Como se sabe, o continente ficaria indefeso pela sua economia deteriorada pelos países mais ricos, o sistema de saúde em ruínas e a propagação de diversas outras doenças, como tuberculose, malária, ebola e Aids.
O ginecologista congolês fala em massacre, diante da incapacidade física do continente africano combater o coronavírus."Temo o massacre”, afirmou por telefone. “Ao contrário de outros lugares, o coronavírus será mais agressivo contra as mulheres aqui, porque nos poucos hospitais disponíveis, as infectadas irão para lá sozinhas e ninguém cuidará delas", reforçou.
A tendência, segundo analistas internacionais, é que a próxima onda de propagação massiva do vírus seja no continente africano, onde os hospitais não têm a mínima estrutura para atender os pacientes. "Os sistemas de saúde mais frágeis em breve estarão sobrecarregados pela disseminação do vírus, que abrirá facilmente o caminho entre as camadas mais pobres da população, forçadas a viver em áreas urbanas superlotadas e pobres, muitas vezes sem serviços básicos, sem a possibilidade de isolamento, sem pagamento de salário por afastamento ou sistemas de assistência social", escreve a revista científica inglesa Lancet.
Até agora, de acordo com os dados divulgados pelo Centro de Controle de Doenças da União Africana pelo menos 46 dos 54 países africanos já foram atingidos pela pandemia, com cerca de 5 mil casos de infecção e 150 mortes. Os países mais afetados são a África do Sul, com mais de 400 pacientes, a Argélia com 230, o Marrocos com 230, a Nigéria com 90, o Senegal com 80 e o Quênia com 50, sendo que a maioria das mortes ocorreu no norte do continente - o Egito com 40 mortes, a Argélia com 31 e o Marrocos com 26.
Na África, o coronavírus pode deixar marcas mais profundas que nos outros continentes. Um relatório do Programa das Nações Unidas para o Desenvolvimento mostra que a crise socioeconômica nos países pobres e em desenvolvimento levará anos para ser consertada, a tal ponto que o índice de desemprego pode chegar a metade de toda a população africana.