Integração regional e importância do Mercosul

Os investimentos diretos estrangeiros na América Latina, em especial na América do Sul, registraram a maior alta em 2010, segundo levantamento da UNCTAD — foram 56% maiores, totalizando US$ 86 bilhões

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Há quase duas décadas, a formação de blocos comerciais entre países era apontada como caminho inexorável no cenário internacional, ancorada no processo de globalização. A maior referência é, sem dúvida, a União Europeia. Mas a crise econômica de 2009, cujos efeitos ainda assolam fortemente a Europa, levantou algumas dúvidas sobre os processos de construção de blocos de países.

A despeito do que os críticos do Mercosul podem imaginar, o rol de questionamentos não inclui o abandono do bloco, mas, sim, as maneiras mais adequadas de concretizar essa integração regional. Assim, a perspectiva de formação de blocos se mantém. Mas, por óbvio, podemos aprender com as dificuldades dos europeus, mesmo sabendo que as melhores saídas para os nossos problemas necessariamente virão do próprio Mercosul, e não de fora. 

Em recente análise sobre o momento do bloco sul-americano, Félix Peña, diretor do Instituto de Comércio Internacional da Fundação Standard Bank*, questiona se a crise na UE é, no fundo, de caráter monetário, de governabilidade ou de identidade e legitimidade social do bloco —já que, por exemplo, muitos cidadãos de outros países não percebem as dificuldades da Grécia como sendo comuns. Em suma, uma das grandes questões que Peña apresenta é saber o quanto o bloco se projeta nas complexas relações internacionais como uníssono.

De fato, é uma questão que norteia o Mercosul também, um dos desafios colocados aos países que compõem o bloco. Afinal, como o próprio exemplo europeu nos ensina, construir uma voz comum e representativa do Mercosul é tarefa árdua, mas que deve ser preservada como objetivo maior. Antes, há outros desafios mais práticos a serem superados, ainda que complexos.

Com efeito, aperfeiçoar a união aduaneira, equacionar as assimetrias, promover a integração produtiva e coordenar negociações com países estrangeiros ou outros blocos são alguns desses desafios colocados para os membros do Mercosul. Caminhar para a superação desses desafios é fortalecer a capacidade de atuar em conjunto, nos termos da reflexão de Peña.

Nesse sentido, há uma pauta internacional, especificamente valiosa para os países que integram o Mercosul, que passa pelas questões que envolvem: autonomia energética, meio ambiente e alimentos; desenvolvimento tecnológico e inovação; crescimento econômico com fortalecimento industrial; estratégias de defesa; e ampliação das relações comerciais. Esses serão temas decisivos para cada país em particular, mas para o bloco igualmente.

A importância do Mercosul para o Brasil tem se mostrado cada vez maior. Mas a região também tem aumentado sua relevância para o restante do mundo. Basta verificar que os investimentos diretos estrangeiros (IED) na América Latina, em especial na América do Sul, registraram a maior alta em 2010, segundo levantamento da UNCTAD, a agência da ONU para o comércio e o desenvolvimento —foram 56% maiores, totalizando US$ 86 bilhões. Os dados preliminares de 2011 indicam que as entradas de IED na América Latina continuam aumentando.

O quadro, portanto, pede urgência na revisão do Mercosul para avançarmos na integração industrial e regional, com efetiva institucionalização do mercado comum. Ademais, é preciso associar outros países, como Venezuela, Bolívia e Equador. Nossa política de integração regional —que, aliás, já avançou muito com a Unasul (União das Nações da América do Sul)— é extremamente promissora. As oportunidades se espalham por diversos setores, com ênfase aos investimentos em infraestrutura e em energia.

Não podemos retroceder nesse caminho, porque é nele que está nosso maior potencial de desenvolvimento —e, aqui, falo olhando o Brasil, mas também nossos vizinhos. A crise na UE não pode nos demover da construção de um Mercosul forte. Isso só será possível se o bloco regional for valorizado e, nesse sentido, o Brasil tem grande responsabilidade.

José Dirceu, 65, é advogado, ex-ministro da Casa Civil e membro do Diretório Nacional do PT

 

* Disponível em: http://www.felixpena.com.ar/index.php?contenido=negociaciones&neagno=informes/2011-07-mercosur-mundo-grandes-espacios-economicos

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