Irã vê “começo do fim” de Israel após guerra com EUA, diz intelectual iraniano
A guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos pode marcar uma mudança profunda no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio
247 - A guerra envolvendo Irã, Israel e Estados Unidos pode marcar uma mudança profunda no equilíbrio geopolítico do Oriente Médio. Para o intelectual iraniano Mohammad Marandi, professor da Universidade de Teerã e especialista em geopolítica, os ataques recentes demonstraram uma vulnerabilidade inédita de Israel e das forças norte-americanas na região. A avaliação foi feita em entrevista concedida ao portal Brasil de Fato, em meio à escalada militar que já dura quase duas semanas.
Segundo Marandi, os danos causados pelos contra-ataques iranianos ao território israelense e a bases militares norte-americanas podem ter consequências históricas para o futuro da região. Em sua avaliação, os impactos vão além do campo militar e atingem diretamente a percepção global sobre o poder de dissuasão de Israel.“O dano causado ao regime israelense é irreversível. No futuro, ninguém vai investir em Israel porque sabem que ele sempre será vulnerável. Acredito que estamos vendo o começo do fim do regime israelense”, afirmou.
Nos últimos dias, o conflito entrou em uma nova fase após uma série de ataques iranianos atingir alvos estratégicos ligados aos Estados Unidos e a Israel no oeste da Ásia. Autoridades iranianas afirmam que bases militares e sistemas de defesa foram atingidos, enquanto analistas ocidentais também relatam sinais de desgaste nas defesas aéreas israelenses.De acordo com Marandi, o desempenho militar iraniano surpreendeu analistas e serviços de inteligência ocidentais, que teriam subestimado a capacidade do país de sustentar uma campanha prolongada de ataques. Ele afirma que, até agora, o Irã tem utilizado majoritariamente armamentos mais antigos.
“Os iranianos têm usado primeiro todos os seus estoques antigos. E mesmo essas armas antigas têm causado danos devastadores. Elas não apenas esgotaram grande parte das defesas aéreas americanas e israelenses, mas muitas delas também conseguiram passar”, declarou.Segundo o professor, o país ainda dispõe de tecnologias mais avançadas que podem ser empregadas caso a guerra se prolongue. Ele afirma que a estratégia iraniana envolve desgastar gradualmente as defesas adversárias antes de ampliar o uso de armamentos mais sofisticados
.Outro fator que, na visão do analista, fortalece a posição iraniana é a capacidade do país de sustentar o conflito por um período prolongado. Para ele, essa resistência estaria relacionada ao desenvolvimento tecnológico interno e à estratégia conhecida como “economia de resistência”, promovida pelo antigo líder supremo Ali Khamenei.“O aiatolá Khamenei foi a figura-chave que promoveu a economia de resistência. Na verdade, essa expressão foi algo que ele começou a usar publicamente”, explicou.
Segundo Marandi, o investimento em educação superior, ciência e tecnologia ao longo das últimas décadas permitiu ao Irã desenvolver capacidades próprias em áreas estratégicas, como tecnologia militar, indústria e inovação.“Os iranianos optaram por desenvolver suas próprias capacidades, sejam elas civis ou militares, escolheram um caminho independente na política externa, escolheram um caminho de independência na agricultura, na indústria e nos campos de alta tecnologia”, afirmou.
O analista também comentou o impacto político da guerra nos Estados Unidos, especialmente para o presidente Donald Trump. Segundo ele, o discurso recente do líder norte-americano sugerindo que a missão militar estaria próxima do fim poderia indicar uma tentativa de saída do conflito.
“Acho que a razão pela qual ele disse que a missão está quase concluída e que eles venceram a guerra, apesar do fato de que, obviamente, eles estão perdendo, os Estados Unidos estão perdendo feio nesta guerra, é porque ele está buscando uma saída”, disse.Ainda segundo Marandi, a decisão de Washington de apoiar militarmente Israel estaria ligada a pressões políticas internas e à influência de aliados próximos ao governo.“Trump assumiu com uma plataforma declarando que não haveria mais guerras. Mas ele está profundamente sob a influência dos sionistas”, afirmou.A guerra também ocorre em um momento delicado para a política iraniana.
Logo nos primeiros dias do conflito, o líder supremo Ali Khamenei foi morto em um bombardeio atribuído a forças israelenses. Segundo Marandi, a decisão do aiatolá de permanecer em seu escritório durante os ataques teve forte impacto simbólico no país.“Ele se recusou a sair porque disse às pessoas que muitos iranianos, devido às sanções, estão passando por dificuldades e não têm para onde ir. Enquanto eles não tiverem para onde ir, eu não vou embora”, relatou.
O professor afirma que a morte de Khamenei acabou fortalecendo a mobilização nacional no Irã e reforçando o sentimento de resistência diante da guerra.“Esse sacrifício que fez teve um enorme impacto na sociedade iraniana e fortaleceu a resistência e a resiliência do povo iraniano. Uniu-os ainda mais do que antes”, declarou.
Em meio à escalada do conflito, Marandi também destacou a aproximação estratégica entre Irã, Rússia e China, embora tenha ressaltado que a maior parte das capacidades militares iranianas foi desenvolvida internamente.“As capacidades do Irã são principalmente autóctones. Os mísseis, os drones, as bases subterrâneas, as fábricas subterrâneas que produzem mais mísseis e drones. A tecnologia autóctone está por trás de tudo isso”, afirmou.
Para ele, o principal objetivo estratégico de Teerã é impedir que os Estados Unidos continuem exercendo hegemonia militar sobre o Oriente Médio.“Sim, o Irã quer garantir que, no futuro, os Estados Unidos não possam mais impor sua hegemonia sobre esta região e que se comportem como um país normal”, disse.Marandi conclui afirmando que os acontecimentos recentes podem ter efeitos duradouros sobre a ordem internacional e fortalecer países que contestam a influência dos Estados Unidos.“O sucesso impressionante do Irã nas últimas semanas é uma grande vitória para a humanidade. E é uma ótima notícia para a maioria global, porque lhes dará poder diante do império. Isso criará uma maior autoconfiança entre as nações.”