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Israel aposta em guerra prolongada no Oriente Médio

Estratégia israelense amplia presença militar em Gaza, Líbano e Síria enquanto EUA e Irã negociam acordo de paz

Fumaça sobe após ataque de Israel a Beirute, no Líbano 04/03/2026 REUTERS/Claudia Greco (Foto: REUTERS/Claudia Greco)

247 - A ampliação da presença militar de Israel em territórios vizinhos, como Gaza, Líbano e Síria, indica uma nova estratégia de guerra baseada na criação de zonas tampão, mesmo enquanto Estados Unidos e Irã buscam consolidar um cessar-fogo. O movimento sugere a preparação para um conflito prolongado no Oriente Médio, com foco em conter ameaças regionais consideradas persistentes.

Segundo fontes ouvidas pela Reuters, Israel passou a operar sob a lógica de uma guerra de longo prazo, diante da avaliação de que movimentos de resistência como Hamas, Hezbollah e milícias apoiadas pelo Irã não podem ser totalmente eliminados.

O analista Nathan Brown, da Fundação Carnegie para a Paz Internacional, afirmou que “os líderes de Israel concluíram que estão em uma guerra sem fim contra adversários que precisam ser intimidados e até mesmo dispersos”. A avaliação reforça a percepção de um conflito estrutural, sem perspectiva imediata de solução definitiva.

Apesar de Washington e Teerã terem concordado em suspender os combates enquanto negociam um acordo mais amplo, Israel mantém operações contra o Hezbollah, movimento de resistência apoiado pelo Irã. 

O objetivo, segundo uma autoridade militar israelense ouvida pela Reuters sob condição de anonimato, é estabelecer uma zona de segurança de até 10 quilômetros além da fronteira, afastando cidades israelenses do alcance de ataques. 

Essa interpretação tem levado à destruição de residências de civis consideradas posições militares. Muitas dessas localidades, situadas em áreas elevadas, oferecem visão direta sobre cidades israelenses, o que reforça sua relevância estratégica para operações militares.

A criação de zonas tampão marca uma mudança na doutrina de guerra israelense. O general reformado Assaf Orion afirmou que “as comunidades fronteiriças não podem ser protegidas a partir da fronteira”. Ele acrescentou: “Israel não espera mais que o ataque aconteça. Ele vê uma ameaça emergente e a ataca preventivamente”.

Atualmente, Israel mantém controle de mais da metade da Faixa de Gaza, além de presença militar em partes da Síria, do Líbano e da Cisjordânia ocupada. Em declaração divulgada em 31 de março, o primeiro-ministro Benjamin Netanyahu afirmou: “Estabelecemos cinturões de segurança muito além de nossas fronteiras”.

Ele detalhou: “Em Gaza — mais da metade do território. Na Síria, do Monte Hermon até o rio Yarmuch. No Líbano — uma ampla zona tampão que impede a ameaça de invasão e mantém o fogo antitanque distante de nossas comunidades”.

O plano para o Líbano ainda não foi formalmente apresentado ao gabinete israelense, segundo fontes ouvidas pela Reuters. Paralelamente, integrantes da ala mais à direita do governo defendem a expansão territorial. O ministro das Finanças, Bezalel Smotrich, declarou que Israel deveria estender sua fronteira até o rio Litani e já fez comentários semelhantes sobre a anexação de Gaza.

Por outro lado, autoridades militares indicam que a zona tampão no Líbano não necessariamente representará uma nova fronteira permanente, mas sim uma área monitorada com operações pontuais.

O ministro da Defesa, Israel Katz, comparou a estratégia no sul do Líbano ao modelo adotado em Gaza. “As casas das aldeias adjacentes à fronteira, que servem como postos do Hezbollah, serão destruídas de acordo com o modelo de Rafah e Khan Younis, para remover a ameaça das cidades israelenses”, afirmou.

Especialistas em direito internacional alertam para possíveis violações. Eran Shamir-Borer, do Instituto de Democracia de Israel, afirmou que “a destruição generalizada de casas no sul do Líbano que não seja baseada em análise individual seria ilegal”.

Internamente, a sociedade israelense demonstra ceticismo em relação a acordos de paz duradouros. Pesquisa do Pew Research Center de 2025 indica que apenas 21% dos israelenses acreditam na coexistência pacífica com um futuro Estado palestino. Outro levantamento aponta que apenas 26% veem o cessar-fogo em Gaza como caminho para estabilidade prolongada.

Para o pesquisador Ofer Shelah, do Instituto de Estudos de Segurança Nacional de Tel Aviv, a criação de zonas tampão pode reduzir ameaças imediatas, mas traz desafios operacionais. “Seria melhor eventualmente retornar à fronteira internacional e manter defesas móveis além dela, sem postos fixos”, afirmou.

O cenário atual sugere que, mesmo diante de negociações diplomáticas em andamento, a dinâmica no terreno aponta para a continuidade de um conflito prolongado, com impactos diretos sobre a estabilidade regional.

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