“Lula agiu como estadista”

Em entrevista, Cesare Battisti afirma que o ex-presidente cumpriu com sua obrigação ao lhe conceder abrigo

“Lula agiu como estadista”
“Lula agiu como estadista” (Foto: Ramiro Furquim/Sul21)
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247 – Cesare Battisti, considerado “terrorista” por uns e “ativista político” por outros, é um personagem que catalisou intensos debates políticos no Brasil, na França e na Itália nos últimos anos. Leia, abaixo, a entrevista que ele concedeu à revista Carta Maior e que foi reproduzida no Sul21:

Caio Sarack, Igor Ojeda, Isabel Harari e Joaquim Palhares
Da
 Carta Maior

O escritor e ex-guerrilheiro italiano Cesare Battisti não tem dúvidas: só ficou livre no Brasil por três anos porque a França não o queria preso. Mais precisamente, era o então ministro do Interior Nicolas Sarkozy que não queria. Não até 2007, quando disputou as eleições presidenciais. “Ele jogou essa carta contra a concorrente dele, a Ségolène Royal, que me defendia”, disse, em entrevista à Carta Maior no Rio de Janeiro – a um quarteirão apenas de onde foi preso, nas proximidades do Oceano Copacabana Hotel, na rua Hilário Gouveia.

Ex-integrante do PAC (Proletários Armados pelo Comunismo), grupo armado que atuou durante os chamados “anos de chumbo” na Itália, Battisti foi – desde sua prisão, em uma operação conjunta da Interpol e as polícias brasileira, italiana e francesa – o pivô de uma crise diplomática que envolveu o Brasil e país mediterrâneo, que queria sua extradição. Lá, havia sido condenado pelo assassinato de quatro pessoas – para seus defensores, em um processo judicial viciado.

No Brasil, o caso ocupou um espaço importante na agenda do governo Lula e gerou tensões com alguns ministros conservadores do Supremo Tribunal Federal (STF), órgão que decidiu pela extradição de Battisti, embora tenha definido que a decisão final seria do presidente brasileiro. Assim, ele ficou preso até 2010, quando Lula, no último dia de seu mandato, 31 de dezembro, negou o pedido do governo de Silvio Berlusconi. Battisti só foi solto meses depois, após o Supremo Tribunal Federal (STF) negar os recursos do governo italiano. O escritor, então, ganhou o status de imigrante e teve sua permanência no país garantida.

No entanto, em 2 de agosto deste ano, o juiz federal Alexandre Vidigal, da 20ª Vara da Justiça Federal no Distrito Federal, determinou que a Polícia Federal (PF) divulgasse, em até cinco dias, a atual localização do escritor. Caso ele não seja encontrado nos endereços cadastrados, a PF deverá encontrá-lo no prazo de um mês. Tal decisão pode ser uma indicação da abertura de um novo inquérito contra Battisti.

Na entrevista a seguir, ele fala também da esquerda, das lutas sociais de hoje, do seu mais novo livro e diz que é vigiado até hoje. “O objetivo deles é demolição psicológica.”

Carta Maior - Você foi preso há cinco anos, não é?
Cesare Battisti - Fui preso em 18 de março de 2007, perto daqui, em frente ao Hotel Oceano Copacabana. Estavam me vigiando desde quando entrei no Brasil. Eram o serviço de inteligência francês e o grupo antiterror daqui, articulados, e por último se juntou o serviço de inteligência italiano. A França organizou tudo. Tudo vinha de lá, porque era tudo em perspectiva da eleição de Nicolas Sarkozy. Ele jogou essa carta contra a concorrente dele, a Ségolène Royal, [do Partido Socialista] que me defendia. Não quero dizer que ele ganhou por minha causa, embora naquele momento eu fosse uma carta a ser jogada. Mas em uma semana ganhou quatro pontos nas pesquisas. No último mês o slogan do Sarkozy foi que a Ségolène Royal defendia terroristas e ele os pegava. Eu era monitorado 24 horas por dia. Não cheguei aqui para fugir, cheguei para me entregar, só que sempre acontecia algo que me impedia.

CM Uma hipótese para o fato de ter demorado tanto para você ser detido seria que eles estavam esperando para ver se você estava envolvido com alguma coisa.
CB - O Sarkozy demorou para me prender porque estava esperando as eleições.

CM Circulou o boato de que a então primeira-dama Carla Bruni fez gestões em seu favor no Brasil.
CB - Me surpreende o fato de que a Carla Bruni tenha feito uma coisa dessas, não teria razão para isso. Porém, na França haviam muitos exilados que o governo não podia permitir que fossem deportados porque eram pessoas que tinham posições fortes econômica, política, intelectualmente. O Sarkozy não poderia se permitir extraditar essas pessoas. Se o Brasil extraditasse Cesare Battisti, poderiam dizer: “se até o Brasil extraditou o Battisti, por que a França não pode extraditar os outros? Então, pode ser que o Sarkozy tenha pedido ao Lula: “guarde esse cara aqui”. Mas é uma suposição, não posso afirmar isso.

CM Isso confirma o maquiavelismo de Sarkozy.
CB - Ele é maquiavélico. Passou por cima de todo mundo, traiu seus próprios camaradas, passou de um lado para o outro. Ele só quer poder, ele é um gaullista de direita, estava à direita de Chirac [Jacques Chirac, presidente da França entre 1995 e 2007]. Ele traiu Chirac. Quando eu fugi de Paris a revista L’Express escreveu: “como 40 agentes deixam escapar assim?”. A Itália acusou a França de me ajudar a fugir. Eu li isso e pensei: “que bobos, como a França me ajudaria a fugir?” Porém, depois, quando cheguei a Fortaleza e aconteceu o que aconteceu pensei: “não será verdade que a França me ajudou?”.

CM Como foi a fuga de Paris?
CB - Não posso falar sobre isso porque posso envolver amigos. Mas foi através de vários países. Foi de carro, a pé, de navio, de avião. Não foi nada fácil. Isso foi em 2004.

CM Quanto tempo durou a fuga?
CB - Uns dois meses e meio.

CM E como foi chegar aqui?
CB – Cheguei de Cabo Verde a Fortaleza de avião. E quando cheguei, nem tive que passar pela aduana. Dois homens e uma mulher loira se dirigiram a mim falando perfeitamente francês. A mulher era brasileira, mas falava francês perfeitamente. Eu estava na fila e eles se aproximaram de mim e falaram: “monsieur”. Pensei: “acabou”. Me levaram a uma sala do aeroporto e disseram: “O problema é que o código de barras de seu passaporte está desativado. Vamos ter que ativá-lo. Tome um cafezinho”. Depois, saí por não sei que saída e lá estava um táxi com a minha mochila. Disseram “bem-vindo ao Brasil” e me liberaram. Depois disso, nunca me largaram. Continuei a ver essa loira durante anos, em São Paulo, na Bahia… durante esses três anos [entre a chegada ao Brasil e sua prisão], identifiquei umas 25 pessoas. Eu tinha fotos deles, que eu tirava com um celular. Estavam todo o dia em cima de mim, era um Big Brother.

CM Você sente falta da participação política?
CB - Sinto tanta falta que não consigo escrever, porque para escrever preciso ter um projeto político. Não escrevo romances rosas, escrevo romance social. Se não tenho uma visão política clara, não tenho inspiração. Não é possível escrever um livro sem tema.

CM Hoje está muito difícil militar no Brasil. Há pouco debate, os espaços são escassos… Você teve militância durante muito tempo…
CB – Eu tenho de respeitar o estatuto [de refugiados]. Não posso fazer atividade política. Mesmo que pudesse me envolver em política não vejo nada que possa ser interessante para mim, uma luz. Estamos navegando nas mesmas águas de sempre. De uma visão política arcaica, dogmas que hoje não têm mais aplicação assim tal como são. E acho que, pelo menos nos países desenvolvidos, estamos andando numa direção de superação das classes. Hoje o movimento revolucionário tem que ser transversal, não pode mais se basear na luta de classes assim como Marx a entendeu. Mas também Marx entendeu que isso era por ser superado.

CM Mas você acha que esse modo de politica transversal é possível hoje?
CB - Claro que é. Na realidade sempre foi assim. Todos os movimentos revolucionários pegaram desde o nobre, o príncipe, até o lúmpem. Sempre foi assim.

CM Quais são as principais lutas políticas do mundo hoje?
CB - Eu acho que até agora todos os movimentos revolucionários que triunfaram tentaram estabelecer a igualdade, mas se esqueceram da liberdade. E essas coisas têm de estar juntas. O mais importante hoje é fazer um processo enorme de educação, de formação cultural. Essa é a arma.

CM Qual o paralelo você traça entre a Itália do seu tempo de militância com o mundo que você vê hoje?
CB - Falando a posteriori é sempre muito fácil. Mas acredito, primeiro, que éramos muitos, e quando há centenas de milhares de pessoas na rua é muito fácil se entusiasmar e fazer qualquer coisa. Naquele momento tinha que ser assim, não podia ser de outra maneira. Agora, foram feitas coisas que estrategicamente e políticas foram erradas, um desastre politico, um tiro no pé. O homicídio de Aldo Moro [líder da democracia cristã italiana, sequestrado e assassinado em 1978 pela organização Brigadas Vermelhas] foi um tiro no pé.

CM Você acredita na tese de algumas pessoas de que a Brigadas Vermelhas estava infiltrada?
CB - Não. Não acredito. A Brigadas Vermelhas era burra, nada mais. Manipulada externamente através de jogos políticos. A máfia queria que Moro desaparecesse, o Vaticano também, o papa também… o mais mafioso era o papa. Mas que havia um Mario Moretti [líder da organização] ou outro infiltrado, fazendo jogo duplo, não tinha não. Eles mataram o Aldo Moro porque na cabeça deles, por terem matado quatro ou cinco proletários de farda, não poderiam deixar vivo o chefe deles. Nós chamávamos eles de cabeça de madeira. Era o PCI [Partido Comunista Italiano] armado. Tinham uma leitura de Marx reduzida a quatro slogans. Sempre pensei isso da Brigadas Vermelhas. Mas todo mundo errou. O problema maior foi que nós tomamos 1968 como o início de algo. Acho que 68 foi o fim de uma época. E depois tinha que começar outra época, que é esta de hoje.

CM Como seria uma politização depois de 1968?
CB - Pela educação, por meio de uma visão global. Já havia tentativas de fazer isso, mas com os mesmos parâmetros da Revolução Soviética. Havia relação, mas só logística, de solidariedade… não se tinha uma visão global do mundo. Em 1968 havia cérebros para começar o que se está fazendo hoje.

CM Mas isso é coerente com o que você disse, que hoje ainda estamos navegando em águas do passado?
CB - Há alguns movimentos políticos que se comportam e pretendem espalhar uma política que acho que é superada. Esses movimentos políticos participam da Cúpula dos Povos, do Fórum Social Mundial, para recrutar. Eu espero que eles sejam os recrutados.

CM Como seria uma nova política?
CB - Boa pergunta. Eu gostaria de saber também.

CM Você acha que teria que haver uma relação entre todas esses movimentos no mundo hoje para haver uma mudança? Entre a praça Tahrir, Wall Street etc.? Alguns intelectuais no Brasil dizem que a revolução para os egípcios é a social-democracia. Aqui no Brasil essa fórmula não funciona. São maneiras de protesto semelhantes entre eles, mas com objetivos completamente diferentes.
CB - No Brasil, já temos a social-democracia.

CM Agora a gente vê como está falida. Não responde mais a nossas demandas. Parece um movimento meio alienado.
CB - Será que talvez sejam etapas necessárias? Como poderia a URSS fazer a revolução comunista em 1917 quando era o país mais pobre da Europa? Eu acho que o comunismo, na maneira nobre do termo – que é o máximo da democracia, da igualdade e da liberdade – se constrói sobre a riqueza, não sobre a pobreza. Hoje podemos fazer comunismo em um país rico, não em um país pobre. Não se faz uma revolução pedindo pão, se faz uma revolução pedindo Mercedes! Pedindo um apartamento, não uma quitinete. O Brasil é um país rico, educado, que pode chegar a uma sociedade comunista. Isso seria o ideal, o máximo da democracia. O comunismo não é a ditadura do proletariado. O comunismo é uma conscientização tão alta que eu não preciso obrigar você a respeitar as regras, você respeita porque sabe que tem que respeitar. Como construir uma coisa dessas em 1917 ou em Cuba? Não se pode construir o comunismo. Estão construindo a igualdade, mais ou menos, mas onde está a liberdade? Comunismo seria construir a liberdade com igualdade. Se não, não é comunismo.

CM Para as mulheres, antes a liberdade era votar; hoje é outra. Existe um processo de liberdade em si, e me parece que existe uma vontade de liberdade conceitual e não factual. Desprendida da realidade. Você acha que hoje existe uma liberdade esvaziada?
CB - Liberdade é poder agir livremente para o seu bem ou o bem dos outros, e a sua liberdade termina onde começa a do outro. A sua liberdade ensina ao outro o que é liberdade. Eu não sou teórico politico, eu sou uma pessoa que sempre foi engajada socialmente – mesmo quando não podia fazer política, fazia iniciativas culturais. Qual é a fronteira entre a cultura e a política? Não deveria existir, mesmo porque a política é uma consequência da cultura. A política deveria estar a serviço da cultura. A política em seu sentido mais nobre. Mas hoje não existe isso. Onde tem um estadista hoje? Um verdadeiro homem de Estado? Em qual país? Eu posso citar dois: Lula e [François] Mitterrand [presidente da França entre 1981 e 1995, já falecido]. Um estadista, uma pessoa que sabe o que é política, tem que ser cínico em certos momentos, porque tem que fazer política. Não faz política pelas pessoas que votaram nele, não é um administrador, não é um empresário, é um estadista. Ele tem que ter coragem de tomar decisões impopulares. Hoje, qual é o presidente da República tem coragem de tomar decisões impopulares? Não temos mais estadistas, temos empresários. Obama é um estadista? Não pode falar uma palavra senão todos vão contra ele. Ele é um palhaço, como todos os outros. Eu acho que o Lula, de alguma maneira, se aproximou da figura de um estadista. O Lula fez política mesmo, foi destratado por todos os lados, mas ele levou o país aonde ele queria levar. Eu estava ainda na França quando Lula foi eleito, via o Brasil de longe, e a imagem do país mudou radicalmente. E continua mudando até agora. Pagou um preço por isso: a esquerda o acusa de ser um traidor, a direita o acusa de ser um revolucionário que ajuda os terroristas.

CM Você sente alguma gratidão ao Lula por conta da decisão que ele tomou de não te extraditar?
CB - Eu sinto mais gratidão ao Lula como estadista. Lula fez o mínimo de seu dever. Ele sabia como estavam as coisas, se tivesse tomado uma decisão contrária seria algo não nobre. Ele teria sujado sua imagem, porque ele sabia de A a Z tudo. Ele sabia, mandou assessores para todos os lados, fez o seu dever, mas demorou muito.

CM Por quê?
CB - Ele tinha muitos adversários, e os meus adversários são muito poderosos. Ele limitou os desgastes. Mandou recados para mim, indiretamente, pela televisão. Eu entendia, mas ao mesmo tempo estava preso. Na prisão, as notícias chegam muito depois, distorcidas. Na prisão você tem momentos de grande esperança e, instantes depois, você está desesperado. Quando a razão de Estado não existe, não existe palavra, não existe nada. Quando eu fiz a greve de fome, o Lula mandou dois sinais pelos meios de comunicação. O primeiro foi: “ele deveria parar de fazer isso”. Uma semana depois, falou: “já disse para ele que este não é o momento”. Continuei mais dois dias e parei. Eu o vi falando na televisão, me pareceu claro que estava falando comigo. Olhei para ele e pensei: “será que esse homem seria capaz de fazer uma traição dessas depois do que está dizendo?” Só que depois demorou, demorou e eu comecei a me desesperar outra vez. Uma pessoa presa não tem a mesma lógica e raciocínio de uma pessoa que está na rua, tem descargas emocionais incontroláveis.

CM O seu processo jurídico na Itália, na época da sua condenação, é muito fraco. Tem o caso da falsificação da sua assinatura na suposta procuração a seus advogados… a falsificação é muito grosseira.
CB - Não há nada nesse processo. Eu nem o conheço muito bem. Quando voltei do exílio do México para a França tinham dois caixotes cheios – li quarenta páginas e joguei tudo fora. Mas teve gente que leu. Eu nem sabia, mas nele há provas da minha inocência. Por exemplo, que as armas que mataram fulano foram pegas com outras pessoas, que foram condenadas por isso. Que sob tortura nunca falaram meu nome. Esse é um processo que não existe. É uma farsa total. O único ministro do STF [Supremo Tribunal Federal] que o leu inteiro, que pediu vistas de um mês, foi o Marco Aurélio de Mello – e o questionou ponto por ponto. Nenhum jornalista sequer leu o pedido de extradição. Há coisas na versão italiana que estão de outra maneira na versão brasileira. A Itália diz que é crime político e o STF diz que não.

CM Fale do seu livro mais recente.
CB - É o último da trilogia que começou aqui no Brasil. Com Minha fuga sem fim, Ser bambu e, agora, o Ao pé do muro, que eu escrevi quando estava sob custódia da PF. Mas não podia escrever. Não tinha caneta, não tinha papel. Com a ajuda dos presos eu consegui escrever mesmo com esse impedimento. Eles sempre davam um jeito para arranjar uma caneta. Éramos muitos na cela. Numa cela de duas pessoas tínhamos dez, tínhamos que fazer turno para dormir. Mas os presos têm uma solidariedade incrível, todo mundo ajuda todo mundo. Então, tinha a grade para um corredor por onde passava o policial que nos vigiava e eu tinha duas horas por dia em que podia escrever; eles me cobriam para que não me vissem. Naturalmente eu estava escrevendo sobre eles, mas eles não sabiam, porque estava escrevendo em francês, mas não por vaidade e desrespeito, mas para que eles fossem mais espontâneos. Não é um livro sobre a prisão, é um livro sobre o Brasil. Mas, como não posso falar sobre o país, porque não conhecia e não o conheço – ainda o estou conhecendo –, então, deixei a palavra aos presos, para que falassem do Brasil, da terra deles. Eu escolhia as personagens cuja história me parecia interessante para falar do Brasil, não só negativamente, porque para mim é um bom pretexto pra falar sobre justiça social. Falo sobre um país forte, com grande coragem, misterioso, que ainda não entendi. E é por isso que quero ficar aqui. Neste país que encara a vida de uma maneira incrível, encara problemas graves com uma esperança e fé, com alegria. E funciona, né? Funciona. Essa mistura de povos. É difícil falar de um povo. Através da voz dos presos, você consegue entender coisas que não entende na rua, porque o preso está numa situação única: ele exagera a noção de liberdade, chega ao extremo das emoções e dos sentimentos, abre o peito. Se você consegue dar um caminho, um fio a isso, você pode pegar coisas únicas que não pode pegar em outro lugar. Eu queria falar sobre a humanidade dessas pessoas. Tinha do assassino profissional ao ladrão de galinhas. Eles são julgados por trinta segundos de sua vida, e não se toma em conta o que fizeram com a vida que passou. São condenados a trinta anos por trinta segundos da sua vida. Ninguém sabe o que e quem ele poderia ser. Dessa maneira estou falando do Brasil, mas também é um assunto universal. Eu aprendi a conhecer o Brasil, principalmente através deles. É um livro de amor. Cada preso tem uma mulher que está sofrendo, que ainda os ama. Poderia largá-lo, mas o continua visitando. Os presos passam dia por dia, hora por hora, minuto por minuto pensando nelas. Então, o fio condutor dessa história é o amor. É um livro de amor, não é um livro sobre a prisão. O narrador, que se chama Augusto, que seria eu, está sentado no pátio, em seu banho de sol. Está com mais quinze presos e lembrando. O livro dura duas horas. Ele vai se lembrando de como chegou à prisão e vão entrando as histórias dos presos que ele olha, mas isso não é separado. Existe um fio condutor, não são histórias separadas, porque sempre são conduzidos pelo tema do amor. Todas as histórias vão se seguindo numa estrutura lógica de romance. Esse é o Ao pé do muro.

CM É o último?
CB - Sim. É o 17º. Queria muito que me deixassem em paz para que eu pudesse escrever.

CM Você se considera um ativista que escreve ou um escritor que é ativista?
CB - Um escritor que é ativista. Mas é o mesmo que dizer: “você se considera um ativista político ou um ativista cultural?” Quem é o ativista político e quem é o cultural? Se não é um ativista político, não é um bom ativista cultural e vice-versa.

CM Você continua sendo vigiado?
CB - Para caramba! Tá forte a coisa.

CM Por outros países?
CB - Pelo menos por um par. Para caramba, descaradamente. O objetivo deles é demolição psicológica.

CM Como fazem isso? Seguem, ficam em apartamentos próximos?
CB - Na rua, à noite, de dia. Fazem o que querem, entram na minha casa.

CM Entram na tua casa?
CB - É… Fazem o que querem.

CM E você sente que está forte psicologicamente?
CB - Se eu consigo enfrentar isso é porque eu tenho amigos, companheiros, colegas. Preciso da ajuda deles, senão não conseguiria.

 

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