Macau reúne líderes do Sul Global para redesenhar infraestrutura do futuro por sustentabilidade, integração e desenvolvimento
Brasil lidera índice de infraestrutura entre os países lusófonos do Sul Global, seguido por Angola e Moçambique, em fórum internacional realizado na China
Por Leonardo Attuch, de Macau – Macau tornou-se nesta semana um dos principais centros mundiais de debate sobre desenvolvimento econômico, infraestrutura e cooperação internacional ao sediar a 17ª edição do Fórum e Exposição Internacional sobre Investimento e Construção de Infraestruturas (IIICF 2026). Reunindo ministros, dirigentes de bancos multilaterais, executivos de grandes empresas e representantes de dezenas de países, o encontro evidenciou uma mudança profunda na forma como o mundo em desenvolvimento enxerga a infraestrutura: não mais apenas como um conjunto de obras físicas, mas como instrumento estratégico para promover crescimento sustentável, integração regional e prosperidade compartilhada.
Organizado pela Associação Internacional de Empreiteiros da China (CHINCA) e pelo Instituto de Promoção do Comércio e do Investimento de Macau (IPIM), o evento consolidou-se como uma das mais importantes plataformas globais para discussão de investimentos em infraestrutura, especialmente entre os países do Sul Global e os participantes da Iniciativa Cinturão e Rota. Em um cenário marcado pela expansão dos BRICS, pelo fortalecimento dos laços entre China, América Latina, África e Ásia e pela necessidade crescente de modernização das estruturas produtivas e logísticas, o fórum assumiu uma dimensão estratégica para governos e investidores.
Um dos momentos centrais do encontro foi o lançamento do Índice de Desenvolvimento da Infraestrutura da Iniciativa Cinturão e Rota 2026, do Índice de Desenvolvimento da Infraestrutura dos Países de Língua Portuguesa 2026, do Relatório sobre o Desenvolvimento da Infraestrutura da Iniciativa Cinturão e Rota 2026 e do Relatório sobre o Desenvolvimento da Infraestrutura dos Países de Língua Portuguesa e as Conquistas de Macau na Iniciativa Cinturão e Rota 2026. Entre os resultados mais relevantes para o Brasil, o levantamento mostrou que o país ocupa a primeira posição entre os países lusófonos do Sul Global analisados pelo estudo, seguido por Angola e Moçambique. O resultado reforça o peso da economia brasileira, sua ampla rede de infraestrutura e sua relevância estratégica para os investimentos em energia, logística, transportes e conectividade.
A classificação também evidencia o crescente protagonismo dos países africanos de língua portuguesa no cenário internacional. Angola e Moçambique vêm ampliando investimentos em energia, portos, mineração e corredores logísticos, consolidando-se como importantes parceiros da China e dos BRICS em projetos de desenvolvimento e integração regional.
Uma das mensagens mais fortes do encontro foi a percepção de que o conceito de infraestrutura está passando por uma transformação profunda. Durante a cerimônia de lançamento dos relatórios, o presidente da CHINCA, Fang Qiuchen, afirmou que o desafio atual não é simplesmente construir mais obras, mas garantir que elas sejam sustentáveis, resilientes, eficientes e capazes de gerar benefícios duradouros para a população. Segundo ele, o debate contemporâneo já não pode se limitar à existência da infraestrutura. É preciso avaliar sua qualidade, seu impacto ambiental e sua capacidade de contribuir para o desenvolvimento de longo prazo.
Fang destacou que a infraestrutura deve ser pensada como um instrumento para fortalecer a conectividade internacional, estimular o comércio, garantir a estabilidade das cadeias produtivas e promover uma transição ecológica capaz de beneficiar tanto as economias quanto a população. Para ele, o futuro da infraestrutura será definido por critérios como sustentabilidade, digitalização e capacidade de inclusão social.
A visão apresentada pelo dirigente chinês foi compartilhada por diversos participantes do evento. O entendimento predominante é que a infraestrutura do século XXI será cada vez mais definida por fatores como sustentabilidade ambiental, digitalização, eficiência energética e inclusão social. A expansão econômica passa a ser associada não apenas à construção de estradas, portos ou usinas, mas também à criação de redes digitais, sistemas inteligentes de transporte, geração de energia limpa e cidades mais preparadas para enfrentar os desafios climáticos.
Essa perspectiva foi reforçada por Zhou Qiangwu, diretor administrativo do Novo Banco de Desenvolvimento (NDB), instituição criada pelos BRICS e liderada pela ex-presidenta Dilma Rousseff. Segundo ele, o banco aprovou mais de 140 projetos desde sua fundação, totalizando cerca de US$ 43 bilhões em investimentos destinados a áreas como transporte, energia renovável, proteção ambiental, infraestrutura social e conectividade digital.
Zhou afirmou que uma das grandes questões enfrentadas pelos países em desenvolvimento é como construir sistemas de infraestrutura mais resilientes e sustentáveis, capazes de distribuir os benefícios do crescimento econômico de forma mais justa. Para ele, o valor da infraestrutura não está apenas na construção física dos empreendimentos, mas na capacidade de gerar oportunidades permanentes de desenvolvimento, fortalecer a cooperação energética e ampliar a dinâmica interna das economias.
O dirigente destacou ainda que a transição verde e a digitalização estão redefinindo a própria natureza da infraestrutura. Segundo ele, sustentabilidade não significa apenas atribuir um selo ambiental aos projetos, mas incorporar critérios de desenvolvimento sustentável durante todo o ciclo de vida dos empreendimentos. Nesse contexto, o NDB tem priorizado investimentos em energias renováveis, modernização das redes elétricas, sistemas urbanos de água e saneamento, transporte de baixa emissão de carbono e ampliação dos serviços públicos.
O financiamento da infraestrutura também ocupou posição central nas discussões. Wang Kang, vice-presidente do Banco de Exportação e Importação da China (Eximbank da China), afirmou que a instituição continuará ampliando seu apoio a projetos de conectividade internacional, fortalecendo corredores econômicos e promovendo a integração entre rotas terrestres e marítimas.
Segundo Wang, o banco pretende aumentar o apoio financeiro tanto a grandes obras estruturantes quanto a projetos menores voltados diretamente para a melhoria das condições de vida da população. Ele destacou que a conectividade física continua sendo um elemento fundamental para a expansão do comércio internacional, para a estabilidade das cadeias globais de produção e para o fortalecimento da cooperação econômica entre os países.
O executivo também enfatizou a importância de apoiar a transição energética e o desenvolvimento de baixo carbono. Em sua avaliação, a expansão da infraestrutura deve estar alinhada ao fortalecimento da cooperação verde e à construção de uma economia global mais sustentável.
O potencial transformador da infraestrutura foi igualmente destacado por Muhammad Saeed, presidente da Autoridade de Desenvolvimento de Água e Energia do Paquistão. Em sua apresentação, ele descreveu um país em acelerado processo de transformação econômica. Saeed lembrou que o Paquistão possui mais de 250 milhões de habitantes e uma das populações mais jovens do planeta, com aproximadamente 65% dos cidadãos abaixo dos 30 anos.
Segundo ele, essa característica representa uma enorme vantagem competitiva para as próximas décadas. O dirigente destacou ainda a importância da agricultura para a economia paquistanesa, lembrando que o país é o terceiro maior produtor mundial de algodão e possui um dos maiores rebanhos pecuários do mundo.
Além disso, ressaltou recentes descobertas de ouro, cobre e outros minerais estratégicos, cujas reservas são estimadas em cerca de US$ 6 trilhões. Para transformar esse potencial em crescimento econômico, afirmou, o investimento em infraestrutura é indispensável. Nesse contexto, destacou o Corredor Econômico China-Paquistão, considerado um dos principais projetos da Iniciativa Cinturão e Rota e frequentemente apontado como seu empreendimento mais emblemático.
A América do Sul também esteve representada nos debates. O ministro de Obras Públicas e Planejamento Territorial do Suriname, Stephen Tsang Kam Wing, apresentou a estratégia de seu país para transformar a futura riqueza proveniente da exploração de petróleo offshore em desenvolvimento sustentável. Segundo ele, o Suriname busca atrair investimentos para áreas como gestão de recursos naturais, economia circular, infraestrutura verde e adaptação climática.
O objetivo, explicou, é utilizar as receitas do petróleo para construir uma sociedade ambientalmente sustentável, evitando a dependência excessiva dos recursos naturais e promovendo um modelo de crescimento baseado em inovação e responsabilidade ambiental. A proposta inclui investimentos em proteção costeira, gestão hídrica, energias renováveis, saneamento e planejamento urbano sustentável.
Ao longo do fórum, ficou evidente que a infraestrutura passou a ocupar um papel central nas estratégias de desenvolvimento do Sul Global. A combinação entre crescimento econômico, transição energética, digitalização e cooperação internacional surgiu como um dos principais eixos dos debates. Instituições como o Novo Banco de Desenvolvimento dos BRICS, o Eximbank da China e os mecanismos vinculados à Iniciativa Cinturão e Rota aparecem cada vez mais como protagonistas do financiamento da nova infraestrutura global.
A realização simultânea dos índices e relatórios dedicados à Iniciativa Cinturão e Rota e aos países de língua portuguesa reforçou ainda o papel de Macau como elo entre a China e o mundo lusófono. Em um momento em que os países emergentes buscam ampliar sua participação nos fluxos globais de investimento e comércio, a região administrativa especial chinesa consolida-se como um espaço privilegiado de diálogo entre governos, empresas e instituições financeiras.
A principal conclusão do encontro é que a infraestrutura do futuro será medida não apenas pela dimensão das obras construídas, mas pela capacidade de gerar desenvolvimento sustentável, inclusão social, inovação tecnológica e prosperidade compartilhada. Em Macau, líderes políticos, executivos e representantes de organismos multilaterais convergiram em torno da ideia de que o avanço da conectividade, da energia limpa e da cooperação internacional será decisivo para moldar a próxima etapa do desenvolvimento global e fortalecer a construção de uma ordem econômica cada vez mais multipolar.
